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Maestro e pianista espanhóis apresentam De Falla com Osesp [prepare-se para o concerto] (3/5/2012)

O jovem maestro Eduardo Portal e o pianista Javier Perianes chegaram da Espanha para as apresentações desta semana da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo – Osesp. Eles participam do ensaio aberto que a Osesp realiza nesta quinta às 10h – com ingressos a preços populares e lugares limitados – e se apresentam dentro das séries de concerto dias 3 e 4 às 21hs e dia 5 às 16h30, sempre na Sala São Paulo.

Com participação da mezzo soprano brasileira Luciana Bueno, eles apresentam as Sete canções populares e Noites nos jardins da Espanha de Manuel De Falla e também a conhecida Quadros de uma exposição de Modest Mussorgsky.

Leia abaixo as notas de programa e detalhes e duração das obras [fonte: www.osesp.art.br]


Manuel de Falla foi provavelmente o maior compositor da música clássica espanhola e também um dos protagonistas da nova música europeia do início do século XX. A Espanha, sempre rica em poetas e pintores, não contava havia séculos com um compositor dessa envergadura, capaz de realizar obra tão universal e depurada a partir do substrato folclórico, sobretudo da música de sua Andaluzia natal, o cante jondo. É certo que De Falla tinha atrás de si grandes compositores espanhóis, como Albéniz e Granados (os três formavam, segundo García Lorca, a “grande corda espanhola”), mas sua obra repercutiu como nenhuma outra na Espanha moderna.

A obra de Manuel de Falla é bastante reduzida. No repertório usual, tanto em discos como nas salas de concerto ou de ópera, existem pouco mais de dez peças. Em geral, os estudiosos do compositor destacam em sua trajetória longeva, mas concisa, um caminho de depuração. Isso vale para o aproveitamento do folclore espanhol, mais saliente nos primeiros momentos e já despojado nas obras finais, em especial no Concerto Para Cravo (1926), para alguns a sua obra máxima.

As duas peças que compõem este programa correspondem a um momento específico do percurso de Manuel de Falla, o de sua fecunda e decisiva estadia em Paris, num período esplendoroso das vanguardas artísticas (1907-14), onde conheceu Dukas, Debussy e Ravel, além de Stravinsky e Diaghilev, empresário dos famosos balés, para quem comporia O Sombrero de Três Pontas. Em Paris, conheceu ainda dois conterrâneos, o compositor Isaac Albéniz, que o incentivou a compor as Noites Nos Jardins de Espanha não apenas para piano solo, mas para grande orquestra, e o pianista Ricardo Viñes, a quem a peça é dedicada. De Falla pretendia se fixar em Paris, mas teve de retornar às pressas à Espanha em virtude da Primeira Guerra Mundial. As Sete Canções Populares Espanholas estavam prontas, enquanto as Noites só seriam concluídas no início de 1915, em Sitges, na casa do pintor catalão Santiago Rusiñol, também fascinado pelos jardins espanhóis.

A peça está longe do pitoresco, embora o título revele algo do caráter descritivo da música de programa do século XIX. Roland-Manuel, biógrafo do compositor, associa “os desenhos que o piano mescla com a orquestra” aos arabescos do palácio de Alhambra, em Granada. Prevalece, porém, um princípio musical puro, apreendido com Dukas (com quem De Falla orientou-se sobre técnicas de orquestração) e sobretudo com Debussy, como revela o subtítulo, “Impressões Sinfônicas Para Piano e Orquestra”. Não se trata, contudo, de um impressionismo evanescente. A música é antes corpórea e bem delineada, talvez pelo contato profundo com os ritmos fortes de seu país. Efetivamente, nos três “quadros” parece haver uma intensidade progressiva, pelas danças que centralizam e animam o segundo e terceiro movimentos, ainda que ao fim a peça reencontre a calma misteriosa do início.

As Noites não são um concerto para piano: embora o instrumento tenha papel primordial, não efetua um diálogo sistemático com a orquestra. Como em Petrushka, de Stravinsky, o piano é antes explorado em suas possibilidades tímbricas e nas combinações com os outros instrumentos da orquestra, sobretudo os de sopro.

O problema do “folclorismo” de Manuel de Falla se coloca de modo mais imediato com as Sete Canções Populares Espanholas. Trata-se de aproveitamento direto da música popular, quase um registro? Ou, antes, de criação livre, que se vale apenas de sugestões desse legado, isto é, de “folclore imaginário”, conforme a formulação de Serge Moreux a respeito de Béla Bartók? A melhor resposta é combinar as duas alternativas. De Falla voltou-se muitas vezes para o “cancioneiro musical popular espanhol”, mas, no momento da harmonização, atuou com liberdade, dentro de critérios artísticos. Sabe-se que nessa peça o compositor se valeu do tratado de harmonia A Nova Acústica, de Louis Lucas, alheio à tradição popular que manipulava.

Música, poesia e dança se reúnem nessas canções que configuram um mostruário do cancioneiro espanhol. As letras propõem aproximações surpreendentes entre a intimidade e elementos concretos da realidade. Não por acaso, García Lorca, amigo do compositor, nutria por essa tradição um profundo interesse: “As mais infinitas gradações da Dor e do Sofrimento, postas a serviço da expressão mais pura e exata”. Os ritmos também já se revelam nos títulos: seguidilla, jota, polo. A nana, de origem andaluza, foi a primeira melodia ouvida pelo compositor, cantada por sua mãe, também sua primeira professora de piano. Particularmente expressivas são as de número um e sete, na intensa lamentação feminina, seja pelo desamparo, seja pelo desencontro amoroso, a que poderíamos acrescentar a profunda tristeza da “Asturiana”. Em quase todas, pulsa a verve trágica tão ao gosto desse compositor austero, mas cuja obra é colorida e generosa.

Murilo Marcondes de Moura é professor no departamento de Literatura Brasileira da USP.


PROGRAMA

Manuel De Falla [1876-1946]
Sete Canções Populares [1922] [orquestração de Luciano Berio – 1978]
- El Paño Moruno
- Seguidilla Murciana
- Asturiana
- Jota
- Nana
- Canción
- Polo
13 min

Noites Nos Jardins de Espanha [1915]
- En el Generalife (No Generalife)
- Danza Lejana (Dança Distante)
- En Los Jardines de la Sierra de Córdoba (Nos Jardins da Serra de Córdoba)
23 min

Modest Mussorgsky [1839-81]
Quadros de Uma Exposição [1874] [orquestração de Maurice Ravel - 1922]
- Promenade - Gnomus (Passeio - Gnomo)
- Promenade - II Vecchio Castello (Passeio - O Velho Castelo)
- Promenade - Tuileries (Passeio – Tuileries)
- Bydlo (Ralé)
- Promenade - Ballet Des Poussins Dans Leurs Coques (Passeio - Balé dos Pintinhos em Seus Ovos)
- Samuel Goldenberg Und Schmuyle (Samuel Goldenberg e Schmuyle)
- Limoges - Le Marché (Limoges - O Mercado)
- Catacombae - Con Mortuis in Lingua Mortua (As Catacumbas - Com os Mortos em Uma Língua Morta)
- La Cabane Sur Des Pattes de Poules (A Cabana Sobre Patas de Galinha)
- La Grande Porte de Kiev (A Grande Porta de Kiev)
35 min



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