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Manifesto “pelo artista nacional” ataca Theatro Municipal de São Paulo (6/7/2013)

Um abaixo-assinado publicado no site avaaz.org vem mobilizando, nas redes sociais, cantores líricos, diretores cênicos e outros profissionais em defesa do artista nacional. O manifesto já angariou perto de mil assinaturas. Em sua apresentação, o documento expõe “sua profunda insatisfação e descontentamento com a forma como a classe artística vem sendo tratada e com a situação a que vem sendo relegada nas últimas décadas e, em especial, desde a assunção da atual gestão do Theatro Municipal de São Paulo”. O texto segue dizendo que “não é possível e não podemos aceitar pacificamente que um maestro contrate a seu bel prazer um grande número de artistas estrangeiros representados por uma agência internacional, sendo que esta mesma o representa na Itália. Há um claro conflito de interesses entre a coisa pública e os interesses privados. Também é inaceitável ter havido uma suposta grande audição sem uma banca notoriamente idônea e diversificada, e sem que os papéis estejam realmente disponíveis. Praticamente todos os papéis foram distribuídos antes mesmo de as audições serem anunciadas! Uma verdadeira FRAUDE”.

A petição do abaixo-assinado defende, por exemplo, que todas as produções tenham pelo menos um elenco composto inteiramente por cantores nacionais, que nos casos em que a produção tenha um só elenco pelo menos metade das partes seja preenchida por brasileiros, que os cachês dos artistas brasileiros devam ser iguais aos dos artistas estrangeiros (salvo exceções) e que a escolha dos artistas para a temporada jamais deva ficar “a cargo dos caprichos de uma só pessoa” (sic).

A nova gestão do Teatro Municipal de São Paulo tem como diretor artístico o maestro John Neschling, que não é citado nominalmente no manifesto. O teatro, ainda em pleno processo de consolidação de sua nova estrutura administrativa de fundação pública, divulgou, no início do ano, a realização de audições públicas para papeis de todas as óperas que constam de sua temporada. Na coletiva de imprensa para a apresentação da temporada, realizada em 23 de maio passado, o maestro John Neschling afirmou o seu compromisso com novos artistas e se disse muito satisfeito com o fato de ter escolhido, por meio das audições, diversos solistas para os mais diversos papeis. Folhando o programa da temporada, o maestro citou os seguintes cantores: Carlos Eduardo Marques, Lukas D’Oro, Eduardo Trindade, Gilberto Chaves, Laryssa Alvarazi, Paola Rodriguez, Luciana Melamed, Felipe Oliveira, Carla Contini, Marcelo Otegui, Marcello Vanucci, Marina Considera, Taís Bandeira, Richard Bauer, Davi Marcondes, Mere Oliveira, Fabrizio Claussen, Paulo Queiroz e Guilherme Rosa.

Nas seis óperas da temporada oficial de 2013 do Teatro Municipal de São Paulo, mais de 50% dos artistas envolvidos são brasileiros ou residentes no Brasil.

[Clique aqui para ler o manifesto.]


Leia abaixo o comentário que o maestro John Neschling postou no facebook em resposta à nota publicada na coluna de Sonia Racy no jornal O Estado de S. Paulo em 06/07/2013:

Quando, no início de minha atividade frente à OSESP, iniciei a tarefa de reestruturação da orquestra, deparei-me com manifestos e manifestantes que gritavam e reclamavam de que “São Paulo não é Berlim”, ou “você acha que está em Viena?” e outras diatribes mais. Mais tarde, cheguei a ouvir de um colega (de quem gosto muito) que a OSESP era a melhor orquestra brasileira do leste europeu. A resposta... veio com o tempo e com a própria atividade da OSESP, no Brasil e no mundo, que perdura até hoje.

Hoje Sônia Racy, na sua coluna no Estadão fala de um manifesto assinado por quase mil pessoas, na sua quase totalidade composta por (artistas?) ilustres desconhecidos, que reclama da quantidade de estrangeiros na temporada do Theatro Municipal.

Um pessoa bem informada sabe, por exemplo, que as últimas produções de AIDA, em duas casas líricas européias - cujo nível sonho em alcançar dentro de alguns anos no nosso Theatro - a Ópera de Viena e a Bastille em Paris, parecem a ONU na sua composição.

A produção vienense, por exemplo, é regida por um israelense (Ettinger), dirigida por um frances (Joel), com figurinos de um italiano (Tommasi) e cantada por uma búlgara (Borodina), uma americana (Lewis), um italiano (Giordani) e um alemão (Marquardt). Nenhum austríaco.

Já em Paris, na Opera Bastille há três italianos (Dintino, Cigni e Prestia), três russos (Murzaev, Dyka e Bocharova), um argentino (Alvarez), um americano (Smith), uma venezuelana (Garcia). A sacerdotisa (Hache), creio que é francesa.

Na AIDA, produzida em 2012 no Met de Nova Iorque, não há um americano sequer no elenco.

Vejamos agora a nossa AIDA, que sobe aos palcos no dia 9 de agosto próximo: uma uruguaia (Siri), duas italianas (Brioli e Billeri), três americanos (Michaels Moore, Kunde e Neil), uma finlandesa (Knihtilä) e uma chilena (Rodriguez). Cantam ainda 7 brasileiros (Esteves, Faria, Marcos, d'Oro, Trindade, Chaves e Alvarazi), sendo que Marcos canta dois papéis.

No Don Giovanni a proporção é a mesma (8 estrangeiros, 8 brasileiros), na Jupyra/Cavalleria teremos 9 brasileiros e 3 estrangeiros, no Ouro do Reno 9 brasileiros e 5 estrangeiros e na Bohème 8 brasileiros e 7 estrangeiros.

Portanto, sem ufanismos, sem xenofobia ou nacionalismo exacerbado, apanágio dos fascistas de esquerda e de direita, temos encontrado um equilíbrio baseado exclusivamente na qualidade. Dos cantores brasileiros que participam da nossa temporada, 20 foram escolhidos nas audições de março passado. Que, repito, não foram audições de recrutamento, mas de informação e das quais pudemos escolher um número significativo de cantores que, espero, participarão desta e de de outras temporadas do nosso Theatro no futuro.

Mas enganam-se aqueles que pensam que uma ópera se resume àqueles que cantam como solistas. Há um coro de 83 brasileiros atrás, 40 ou mais figurantes brasileiros no palco, uma orquestra de uns 65 brasileiros (ainda bem que há alguns estrangeiros nos ajudando ali) no fosso, uns 50 técnicos brasileiros nos bastidores e mais centenas de funcionários brasileiros cuidando da infra-estrutura do Theatro e da Fundação.

Que venham alguns desinformados e preconceituosos, se não frustrasdos, reclamar da presença exagerada de estrangeiros no Theatro é uma velhacaria e a manifestação clara da mediocridade que não tem permitido, nos últimos 50 anos, que um teatro lírico no Brasil faça parte dos grandes teatros de ópera do mundo.

PS: O Theatro Municipal tem trabalhado com mais de dez agentes diferentes, muitos deles brasileiros.

Bom fim de semana a todos

[Clique aqui e leia a opinião de Nelson Rubens Kunze.]

 



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