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Maestro Carlos Moreno fala sobre saída da Osusp (11/8/2008)

Em entrevista exclusiva, o maestro Carlos Moreno fala de sua decisão de pedir demissão da Orquestra Sinfônica da USP.

Por que você pediu demissão da Osusp?
Estive frente à Osusp durante sete temporadas de concertos, onde mantivemos um alto nível, conquistamos dois prêmios Carlos Gomes e superamos todas as expectativas. Hoje, a Osusp é uma orquestra universitária formada por excelentes profissionais, que encontrou seu caminho, sua missão. Durante esta trajetória, a orquestra teve uma tremenda evolução em sua estrutura, na parte administrativa e artística, conquistando o público com diferentes séries de concertos e programações, sendo as assinaturas apresentadas na Sala São Paulo, onde sempre fomos bem recebidos durante todos esses anos. Hoje vejo um trabalho de resultados únicos. Cabe a atual gestão reconhecer e promover todos os possíveis ajustes para esta nova realidade, uma orquestra de sucesso absoluto.
Atualmente a USP possui uma orquestra, que muitos Estados brasileiros jamais poderiam sonhar, mas que carece urgentemente de uma atualização institucional para sua evolução. Ao tomar minha decisão, logo após a nossa apresentação em Campos do Jordão - que foi fantástica -, tinha comigo dois sentimentos: abrir mão de toda uma carreira ou me retrair em prol das possibilidades e condições atuais oferecidas. Sou por natureza um artista que precisa estar em evolução e hoje me sinto preparado a concretizar grandes projetos. Os resultados que obtive junto a Osusp me permitem ter esta coragem e por isso sou grato. A Osusp nunca esteve em melhor momento. Desta forma, sinto me confiante quanto ao futuro desta orquestra.

Quais foram, no seu entender, as suas principais conquistas frente à Osusp? E quais foram as principais derrotas ou frustrações?
Sem a menor dúvida, a respeitabilidade e ainda a calorosa acolhida de nosso público geraram um reconhecimento e carinho institucional por parte de nossos gestores. O que parecia ser um descompasso dentro da Universidade se transformou em representatividade e harmonia de idéias convergentes em prol de um bem público. A realização das séries de concertos, o investimento no aprimoramento de nossos próprios músicos, o projeto Academia, concertos didáticos que atenderam mais de 50 mil crianças e jovens, série de concertos gratuitos para alunos e funcionários da USP, o fortalecimento da parte administrativa, o acolhimento por parte da mídia, e, acima de tudo, a busca de uma qualidade artística constante por parte de todos. É importante lembrarmos que a Osusp tem agora em seu repertório todas as sinfonias de Beethoven, Tchaikovsky, Brahms e Schumann, e ainda todos os concertos de Brandenburgo de Bach, todos os Choros de Guarnieri, todas as Bachianas de Villa-Lobos e muito mais. Hoje, a Osusp pode se orgulhar de ser uma orquestra referencial. Certamente ainda existem diversos estágios a serem superados, principalmente a revisão da questão da carreira e salários ainda limitam a atuação desta orquestra. Deixamos junto à administração um projeto de reestruturação e algumas condições para o desenvolvimento das atividades da orquestra, que nunca se retraiu em seu desenvolvimento desde meu início. Foram sete temporadas de crescimento contínuo. Hoje em dia, não crescer será a maior frustração, pois ainda existe muito a ser feito e isso depende da vontade e reconhecimento cultural dentro da própria Universidade. Mesmo questões orçamentárias foram superadas. Uma atividade de sucesso comprovado e, acima de tudo, de todos nós. Não houve derrota mas sim vitória.

O que ainda falta para a orquestra ser como você desejaria?
De fato, o problema maior ainda é a falta de uma política de meritocracia com efeito direto sobre os vencimentos. Da mesma forma que alguns departamentos tiveram um tratamento diferenciado dentro da Universidade, acredito que a Osusp já conquistou o direito de ser reconhecida como um produto estratégico de mídia positiva. A organização definitiva dos quadros de músicos e suas funções dentro de uma hierarquia fazem parte das necessidades de desenvolvimento. Quanto ao contrato oferecido ao maestro, este está exaurido em suas possibilidades no que diz respeito a uma continuidade sadia e estimulante e que atenda a carreira de um artista. Todos fizeram o seu melhor, mas reconhecemos que chegamos ao limite de um primeiro momento num contrato em caráter especial, ao mesmo tempo gerando uma posição frágil demais para um líder.
A Osusp ainda não dispõe de uma sala de concertos e precisa crescer muito mais em sua estrutura de pessoal. É necessário ter uma assessoria de imprensa e uma estratégia de propaganda e marketing com uma campanha forte aumentando as possibilidades quanto ao atendimento de nosso público e os interesses desta importantíssima instituição. É necessário também um instrumento ágil e viável, de acordo com as exigências do Ministério Público, para captação de recursos para os projetos. Muitos não imaginam que uma orquestra vencedora de prêmios se fez com um orçamento total próximo a R$ 3,5 milhões ao ano, incluindo-se aqui a folha de pagamento. Outras orquestras profissionais dispõem hoje no Brasil de um valor próximo aos R$ 20 milhões. Esse milagre se fez primeiro de forma experimental e por intermédio da vontade de muitos: músicos, funcionários, professores, público e obviamente do entendimento por parte da Reitoria.

Quais são os seus projetos futuros?
Hoje tenho uma experiência adquirida principalmente com meus colegas da Osusp. Mas, como o futuro é regido pelo passado, jamais poderia deixar de agradecer a Ligia Amadio e a Orquestra Sinfônica Nacional, pelo impulso que tive em meu início. Felizmente tenho um relacionamento de muita respeitabilidade com todos os meus colegas e um carinho especial com as orquestras com as quais venho trabalhando no Brasil e no exterior, como OSPA, Orquestra Sinfônica da Bahia, OSB, Petrobras Sinfônica, Nova Sinfônica de Minas Gerais, Filarmônica de Manaus, Filarmônica de Caxias do Sul, Sinfônica de Santo André, Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília e mais recentemente a Osesp, com a qual realizei quatro maravilhosos concertos. E também nos Estados Unidos, Europa e recentemente no Japão com o Roppongi Chorus, que deverá vir ao Brasil em outubro. No momento participo, com muita honra, do projeto da Orquestra Filarmônica de São Bernardo do Campo, como maestro titular, num contrato que logo chegará ao fim, mas havendo possível renovação. Certamente ainda realizaremos projetos diferenciais e que atendam aos interesses deste importante município. Neste mês de agosto estou em Kromeriz, na República Tcheca, atuando como Professor do International Workshop for Conductors que há mais de uma década tem formado regentes para as principais orquestras do cenário internacional. Sinto-me definitivamente pronto para trabalhar junto a grandes projetos de envergadura. Sou por natureza um construtivista e estou à procura de orquestras e projetos que queiram evoluir em suas metas com um diferencial de valorização humana e um alto nível artístico.

[Por Nelson Rubens Kunze]

Clique aqui e leia mais sobre a saída do maestro Carlos Moreno da Osusp.



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