André Heller-Lopes (29/8/2008)
Por Leonardo MartinelliNas últimas décadas, constata-se no mundo da ópera a importância cada vez maior conferida ao trabalho de direção de cena, em geral desempenhado por diretores oriundos do teatro falado que eventualmente se especializam nas artes operísticas. Neste contexto, destaca-se a figura jovial de André Heller-Lopes, diretor carioca cuja trajetória inicia-se não no teatro, mas sim na música. Tendo iniciado sua carreira como cantor, Heller direcionou suas atividades para a direção de cena sem jamais perder de vista seus vínculos musicais. Professor na escola da música da UFRJ, atualmente o artista realiza doutorado sobre ópera brasileira no King’s College, em Londres, cidade onde também cursa especialização em montagem de ópera no mítico Convent Garden. Ao longo dos últimos anos, Heller tem trabalhado como assistente de direção em importantes casas de ópera na Inglaterra e nos EUA, além de deter um respeitável currículo como diretor principal. Conhecido do público paulistano pelas montagens de “Andrea Chénier” e “A filha do regimento”, entre outras, na atual temporada lírica do Theatro Municipal seu público voltará a apreciar o trabalho de Heller e em diferentes ocasiões: em agosto com “Ariadne auf Naxos”, de Richard Strauss, e em novembro com “Sansão e Dalila”, de Camille Saint-Saëns. Foi a poucas horas antes de seu primeiro dia de trabalho em São Paulo que Heller concedeu a seguinte entrevista à Revista CONCERTO.
Antes de começar a dirigir óperas, que tipo de contato você tinha com este gênero? Falando bem do começo, desde pequeno gostei de ópera, quando via na TV o “Barbeiro de Sevilha” cantado pelo Pica-Pau e a “Carmen” com Tom & Jerry. Quando era adolescente, um amigo me convidou para assistir “Carmen” no Municipal do Rio e partir daí mergulhei de vez no mundo da música, passando inclusive a ter aulas de canto. Cheguei mesmo a atuar como cantor de ópera, participando de diversas montagens no Rio, tais como “Turandot”, “Flauta Mágica” e “Dido e Enéas”. Mas sempre tive um senso crítico muito forte e, apesar de ter tido bom desempenho no palco, sabia que este não era meu caminho. Como, então, passou a dirigir óperas? Mudar para a direção de ópera foi uma opção consciente, que ocorreu ao mesmo tempo em que ingressei na vida acadêmica, em 1996, quando junto com outros colegas organizei o espetáculo “Mulheres de Gomes”. A partir desta experiência fundamos a Cia. de Ópera do Rio de Janeiro, para fazermos ópera de forma independente. Nesse meio tempo fui estudar e trabalhar com ópera em São Francisco, nos EUA, e quando chegou a hora de fazer direção de forma mais técnica já tinha um certo savoir-faire adquirido na prática. Mas, pessoalmente, minha primeira montagem foi a “Ópera dos Três Vinténs”, apresentada em 2000 no Rio e depois em Manaus. Quais são suas principais referências em termos de montagem de ópera? No começo admirava apenas diretores que tem como característica uma proposta mais tradicional, tais como Franco Zefirelli, John Copley e Hugo Giana. Confesso que detestava as montagens mais “modernas”, até que passei a trabalhar com diretores importantes em termos de linguagem menos convencionais. Com Christopher Loyd, Richard Johns, Neil Armfields e Keith Warner percebi que muito do que é vendido como moderno é, na verdade, pseudo-moderno. A partir de então deixei de ver o tradicional e o moderno como antagônicos e a entender que existem apenas bons e maus espetáculos. Nas últimas décadas tem sido bastante comum a presença de diretores de cinema nas casas de ópera. Como você vê a questão da linguagem cinematográfica, ou mesmo da televisão, na ópera contemporânea? A questão não é ser diretor de cinema, mas sim de ter a sensibilidade e competência para fazer uma ópera. O cinema, com sua grande tela, é algo naturalmente grandioso, algo muito em comum com a linguagem operística. Acho que o cinema tem contribuído muito com a ópera, principalmente por conta da projeção de vídeos utilizados na construção de cenários. Já a linguagem televisiva acho nociva, pois existe um estilo de interpretação que é praticamente o oposto da ópera. E como pensa sobre a ópera em DVD, que tem tido uma boa recepção junto ao público nos últimos tempos? Esses DVDs são geralmente gravações de diversas récitas ao vivo de uma ópera, e por conta disto, já vi na TV muita montagem que ao vivo era algo totalmente diferente. O DVD tem mudado muito a questão da luz – não dá mais para trabalhar com sombras e coisas mais sutis – e mesmo na interpretação dos cantores, cujo gestual tem que lidar com o antagonismo da atuação ao vivo com a gravada. Mas o bom disso tudo é constatar que a ópera não é mais uma “língua morta” e que está mais viva do que nunca. Como analisa as práticas e o mercado de montagem de óperas no Brasil dos últimos anos? Quando comecei a trabalhar, esta atividade não era desempenhada por pessoas realmente comprometidas com ópera, apesar da importante presença de grandes nomes do teatro, tais como Iacov Hillel, Sérgio Brito e Jorge Takla, que têm paixão pela ópera. Mas volta e meia aparecia alguém com nenhuma familiaridade dirigindo grandes produções. Acredito que, pela primeira vez no país, está surgindo uma geração de diretores de cena especializados em ópera, com nomes como João Malatian, William Pereira, Caetano Vilela e Lívia Sabag. Assim, não importa as diferenças de propostas e linguagem, pois o importante é que, de fato, o meio está cada vez mais profissionalizado e imune a aventureiros. Por outro lado, você ostaria de trabalhar com teatro falado ou mesmo cinema? Sim! Gostaria muito. Mas a verdade é que se as pessoas acham natural convidar um diretor de teatro ou de cinema para montar uma ópera, a recíproca não é verdadeira. Como é trabalhar a dramaturgia e o lado ator de cantores de ópera? Para mim é muito fácil, pois devido a minha formação musical tenho domínio de voz suficiente para pedir aos cantores coisas bem específicas. Assim, trabalho direto sobre o cantor, desenvolvendo o ator dentro do cantor, indicando maneiras de interpretação musical, que por fim conduzem à interpretação dramática. Dirijo porque acredito que cantores são intérpretes no sentido dramático. Gosto de criar essa parceria e ajudá-los a achar seu personagem. Como está sendo o processo de concepção desta montagem de Ariadne auf Naxos? Trata-se de um projeto que eu já tinha em mente e planejado há um certo tempo. Acredito que para começar a entender a Ariadne é necessário entender a colaboração que existiu entre Strauss com o libretista da ópera, o poeta Hugo Von Hofmannsthal. Para isso, mergulhei na correspondência que os dois trocaram ao longo de sua composição. Na prática vejo as duas partes da Ariadne como óperas diferentes. Na primeira, o “Prólogo”, é pura metalinguagem, que mostra os bastidores de uma ópera que será montada num jardim – situação que já experimentei na vida real – em meio à complexa relação existente entre os protagonistas. Já a “Ópera” vejo de maneira mais séria, realmente ligada à linguagem musical pós-Romântica de Strauss, e, como a música da “Ópera” é absolutamente divina, eu não posso quebrar sua dimensão sacra. Ariadne é uma ópera complexa, seja por sua estrutura, seja pelas mensagens que ela traz. Nesta montagem não estou propondo respostas, mas convidarei o público a usar sua imaginação. O que é, para você, dirigir ópera? No Brasil, acredito que o diretor de ópera tem que ter responsabilidade social, pois em geral trata-se de dinheiro público e muito escasso. É necessário garantir que o espetáculo cumpra sua função, que é comunicar com sua audiência. É preciso estabelecer um canal de comunicação entre o palco e o público nesta arte, que não é nem música nem teatro. É um algo muito fascinante que na realidade não dá para definir. Contraponto Um diretor que admira: Robert Carsen Um músico ou musicista que admira: Maria Callas Compositor: Richard Strauss Uma voz que admira: Leila Gencer Uma ópera por fazer: La Bohème Uma ópera que faria quantas vezes fosse necessário: As Bodas de Figaro Uma ópera que jamais voltaria fazer: Ópera dos três vinténs, por achar que não é minha praia Uma ópera difícil: La forza del destino Se pudesse escolher seu próximo projeto em ópera, qual obra gostaria de dirigir?: Turandot, mas com dinheiro para produção bem grandiosa. Uma montagem que julga fundamental: La Bohème de Franco Zefirelli, no Metropolitan de Nova York. Uma montagem que jamais deveria ter sido feita: páreo duro entre Forza del Destino em Berlim e Don Carlo em São Paulo. Se não fosse diretor, gostaria de ser: político, para cuidar das políticas culturais do país. Ser diretor de cena é: comunicar sonhos e inspirações. Música é: a alma das coisas. Música não é: supérfluo. Obrigado pela entrevista.
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