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Ricardo Castro (26/6/2008)

Por Leonardo Martinelli
Se em nossa música popular é notório que a Bahia é o berço de grandes artistas, justiça seja feita, em termos de música clássica, ela também tem seus filhos para apresentar ao mundo. Dentre estes, o pianista Ricardo Castro certamente ocupa lugar de destaque. Nascido em Vitória da Conquista, Castro realizou sua iniciação musical na capital baiana, de onde revelado menino prodígio foi muito jovem para Europa, realizar seus estudos. No velho mundo o músico ganhou formação e experiência, entrando em contato com grandes artistas, alguns dos quais frutificaram em parcerias musicais, tal como as que realiza com a pianista portuguesa Maria João Pires (com quem realiza o projeto "Schubertiades"). Mas todo bom baiano a terra torna, e desde janeiro do ano passado Castro assumiu a direção artística da Orquestra Sinfônica da Bahia (Osba), bem como as rédeas dos projetos educacionais ligados à instituição. Mas apesar do esforço e do tempo que essas atividades demandam, o pianista continua em plena atividade. Aos 44 anos, Castro mantém uma intensa agenda de concertos no exterior e no Brasil, e no final deste mês o público paulistano terá a oportunidade de ouvi-lo em concerto com a Osesp, sob a regência de Carlos Moreno. Foi entre a ponte aérea entre Salvador e a Europa que o músico concedeu a seguinte entrevista para a Revista CONCERTO.

 

Em 1984 você foi a Europa realizar seus estudos. Entretanto, algo pouco comum, você empreendeu essa jornada com recursos próprios, e não por meio de bolsas de estudos. Como foi viver e estudar música na Europa sob estas condições?
A dificuldade maior para um jovem que sai do país não é financeira. Quando se tem um pouco de sorte, competência real no que faz e perseverança, sempre se encontra alguma ajuda. O difícil é deixar as pessoas que ama para ser melhor no que faz. Por conta desta experiência, minha meta é poder oferecer aos brasileiros condições ideais de aprender aqui mesmo e ir a Europa somente por períodos curtos. Para isso precisamos urgentemente de nossa Juilliard School [conceituada escola de música de Nova York]. Se juntarmos os brasileiros que estão "exilados" por aí, oferecendo condições dignas de trabalho, teremos uma das melhores escolas do mundo.

Ainda sobre seus anos de formação, você participou de diversos concursos de piano. Até que ponto eles foram importantes para sua formação?
Estes concursos serviram para provocar em mim um ritmo de estudo mais puxado. Mesmo assim, não tenho certeza de que esse ritmo tenha sido positivo artisticamente, pois era um trabalho voltado à competição e não à linguagem artística em si.

Você acredita que os concursos cumprem a função de revelar pianistas?
Por acaso isso pode acontecer, mas é por acaso mesmo. A maior função dos concursos acaba sendo tirar os perdedores do "mercado", já há muito tempo saturado.

Em 2003 você iniciou uma parceria com a pianista portuguesa Maria João Pires. Como foi que esse contato ocorreu?
A conheci na França, em 2000, quando fui escolhido, junto com outros jovens pianistas, para passar quinze dias em um castelo tomando aulas com ela. Apesar do pouco tempo, foi o suficiente para iniciarmos uma amizade que dura desde então.

Como têm sido trabalhar como ela?
É muito gratificante dividir o palco com uma artista tão excepcional. Costumamos dizer que tocamos juntos porque não precisamos ensaiar. Em nossa última apresentação, no Wigmore Hall de Londres, depois de mais de cinco meses sem concertos juntos, nos encontramos apenas três horas antes do evento e o resultado foi excepcional. Mas além do trabalho em duo, gostamos também de tocar com outros músicos, que é a forma de apresentação que mais nos interessa atualmente.

De fato, como pianista, você tem investido muito mais em programas de câmara e concertos do que em recitais solos. Algum motivo especial para isso?
Tocar em recitais solo pode ser muito pouco recompensador artisticamente e humanamente, a não ser para aqueles que (sobre)vivem da "glória". Creio que os músicos que se restringem demais à atividade solo acabam com algum "distúrbio mental" grave. O problema é que o público gosta de ver esses personagens estranhos entrarem sozinhos no picadeiro.

Paralelamente a sua atividade como pianista, você tem trabalhado com direção de orquestra. Como surgiu seu interesse pela regência?
Regia desde os dez anos de idade, quando morava em Juazeiro, na Bahia. Na verdade, regia na única forma possível para quem morava naquela cidade, isto é, regendo discos! Se tivesse orquestra por lá, com certeza teria começado a reger mais cedo. Aos doze anos, quando voltei a morar em Salvador, minha professora de piano, como acontece sempre, monopolizou meu tempo e nem discos com obras orquestrais consegui mais ouvir. Mesmo assim, meu interesse pela música sinfônica ficou e tomou proporções ainda maiores quando fui morar na Europa, ao ouvir grandes orquestras ao vivo. Quando, por fim, ingressei no Conservatório de Genebra, aproveitei para estudar regência com o húngaro Arpad Gerecz. Mas admito que não aprendi muito, pois reger bem requer reger muito, e como já tinha uma boa carreira de jovem pianista, fiquei sem tempo para a atividade. Só voltei a reger mesmo – isto é, não comandando uma orquestra a partir do piano em um concerto solista – no ano passado, quando voltei para a Bahia.

Como tem sido seu trabalho a frente da direção artística da Osba?
Vivo em eterna gincana. Mas o que mais me cansa é a inércia da máquina estatal. Já avançamos muito dentro do Estado, mas nossa única alternativa é sair dele, tal como fez a Osesp e a Orquestra do Estado de Minas Gerais, para de fato garantirmos nossa independência.

No seu ponto de vista, quais são as principais diferenças entre os mercados musicais de São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador?
Não podemos chamar de mercado o que existe na Bahia atualmente. Mas estamos em via de ter um dos mais interessantes do país, pois estamos investindo dinheiro público para formar músicos brasileiros, ao contrário do que tem sido feito no resto do país, que para formar suas orquestras vão buscar mão de obra no exterior. Nossa meta é incluir a prática orquestral no currículo escolar e criar uma escola de excelência para nossos jovens. Já temos o interesse de grandes nomes da música, afinal tem muita gente que gostaria de morar na Bahia e poder se realizar profissionalmente ao mesmo tempo.

Por falar nisso, como está caminhando o Núcleo de Orquestras Juvenis e Infantis do Estado da Bahia (Neojibá), bem como a parceria com a Fundación del Estado para el Sistema Nacional de las Orquestas Juveniles e Infantiles de Venezuela (Fesnojiv)?
Conhecer o Fesnojiv e implantar o projeto Neojibá na Bahia foi a razão principal para minha volta ao Brasil. Sem isso nunca teria aceito a direção artística da Osba. Temos trabalhado intensamente, mas o caminho é longo, se tomarmos como parâmetro Fesnojiv, que existe há 32 anos. Mas esperamos ir mais rápido, porque podemos contar com o apoio incondicional de José Antônio Abreu, o idealizador infatigável do projeto na Venezuela.

Em meio ao repertório clássico tradicional, é notória sua aproximação com a música popular. Em seu caso, qual o porquê desta aproximação?
Sempre toquei "de ouvido", e isso me permitiu aprender outros instrumentos populares como o violão. Daí eu me aproximar da Bossa Nova foi fácil, principalmente morando em Juazeiro, terra de João Gilberto. Depois, em Salvador, no meu círculo de amizades, tinha muita gente da área da música popular. A questão é que sempre gostei de música boa, seja ela uma sinfonia, um flamenco, uma valsa, um samba ou as canções de Mahler.

Desde 1992 você passou a se dedicar de forma mais sistemática ao ensino de piano, atuando na classe de virtuosidade do Conservatório de Friburgo, na Suíça. Como tem sido essa experiência?
Meu lema é "aprende quem ensina". Além disso, música é como a alma, se não for generosa acaba perdendo a luz. Por isso, e por muitas outras coisas, o ensino me proporciona muitas alegrias. Sei que recebo mais do que dou.

Contraponto

Um(a) pianista que admira: Alfred Brendel

Um músico ou musicista que admira: Claudio Abbado

Recital, concerto ou música de câmara?: Concerto e música de câmara

Uma peça ainda por tocar: "Gaspar de la nuit", de Ravel

Uma peça que tocaria quantas vezes fosse necessário: Sonatas de Beethoven em geral

Uma peça que nunca mais quer tocar: Opus 2, "La ci darem la mano", de Chopin

Uma gravação que julga fundamental: Brahms, Sinfonia Nº 4, com Carlos Kleiber

Um livro que julga fundamental: São muitos, depende do período da vida do leitor...

Um momento inesquecível: Assistir um concerto excepcional

Se não fosse músico, gostaria de ser: Pintor e escultor

Ser pianista é: Pouco

Música é: Linguagem do coração

Música não é: Mercadoria

Obrigado pela entrevista.



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