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Dimos Goudaroulis (1/5/2008)

Por Leonardo Martinelli
No mundo da música, quando se escolhe um instrumento musical, não raro esta escolha acarreta um repertório e estilo já delimitados e, no caso dos instrumentos de cordas a arco, o direcionamento para o repertório clássico parece mesmo inevitável. Porém, transcender o inevitável parece ser o mote que orienta a vida e a carreira do violoncelista Dimos Goudaroulis. Nascido na Grécia, desde cedo lutou contra as inevitabilidades típicas de seu instrumento, tendo não apenas se dedicado de forma intensa a outros gêneros – tais como o jazz e a MPB instrumental – como também fugindo da inexorabilidade de ser músico de uma orquestra tradicional. Dotado de uma energia e curiosidade musical ímpares, Dimos é, acima de tudo, um músico de excelência técnica com forte embasamento estético, que o permite transitar entre a música contemporânea, antiga e popular, tendo integrado importantes grupos nessas diferentes tendências ao longo de sua carreira. Aos trinta e oito anos de idade, o músico realiza neste mês uma série de concertos em São Paulo e em Campinas, além de lançar sua singular versão das três primeiras Suítes de J.S. Bach. Foi durante os preparativos do lançamento de mais este CD que Dimos concedeu a seguinte entrevista para a Revista CONCERTO.

 

Em 1996, depois de anos de formação e atividade profissional em Paris, você decidiu se mudar para o Brasil. Como foi que tomou esta decisão?
Na verdade não foi uma decisão muito calculada. Para mim, naquela época, Paris era uma cidade muito velha, com muitos círculos fechados e difíceis de se entrosar. Além disso, tinha o racismo, que me fazia sentir mais estrangeiro lá – há apenas alguns quilômetros de minha terra natal – do que aqui no Brasil, a um oceano de distância. Escolhi o Brasil pelo lado humano, depois de ter conhecido o Rio de Janeiro durante um encontro de violoncelistas. Acho que aqui tem uma mistura de raças única, o que pode ser uma resposta ao mundo contemporâneo.

Como é natural em seu instrumento, você iniciou sua carreira com o repertório clássico, mas durante sua estada em Paris você passou a se dedicar ao jazz. De que forma ocorreu essa virada em sua carreira?
Durante toda minha estada em Paris praticamente não toquei música de concerto, me concentrando apenas no jazz. Eu me sentia muito incomodado com este lado sério e “posudo” de meus colegas e professores, e mergulhei na música popular. Tive então uma experiência musical muito grande que me proporcionou retomar a música de concerto com outros olhos e ouvidos.

Quando, por fim, se radicou no Brasil, como foi trabalhar com a música e os músicos populares daqui?
Eu conhecia pouco da música brasileira, apenas aquilo que todo mundo conhece na Europa. Mas a verdade é que eu sempre tive muita sorte com as pessoas que encontrei na vida, e logo que aqui cheguei entrei na Orquestra Popular de Câmara e passei a tocar com músicos como Teco Cardoso, Guelo e Benjamim Taubkin. O diferencial da música popular instrumental daqui é que existe um equilíbrio entre o arranjo e a improvisação de uma forma única, por meio da música de mestres como Hermeto Pascoal, Nana Vasconcelos e Egberto Gismonti. O contato com estas pessoas foi mais precioso do que com qualquer mestre do Conservatório de Paris.

Nos últimos anos, tem aumentado o número de músicos clássicos que procuram assimilar em seu repertório elementos da música popular, num estilo designado por crossover. Em sua opinião, qual seria a razão para esta tendência?
Por incrível que pareça, sou um purista. Quando faço música popular mergulho totalmente nisso, e quando faço barroco ou música moderna é a mesma coisa. Nunca misturo elementos, nunca paro no meio do caminho. Para mim o crossover é algo comercial, de artistas clássicos que se dedicam parcialmente ao popular. Tenho o maior respeito por Yo-Yo Ma, mas é triste o jeito que ele faz a mistura do clássico com o popular. É quase brega! Existe uma crise no mercado fonográfico e acho esses álbuns atos desesperados.

E como encara o trabalho de interpretação historicamente orientada?
Comecei a me dedicar a esse repertório por amor e opção estética. O curioso é que me aproximei da música do século XVIII e anterior aqui no Brasil, há doze anos. Passei a estudá-la como autodidata, procurando fac-símiles de manuscritos, métodos de execução, tratados de época e livros de teoria. E a partir desses estudos fui para a prática. Minha maneira de proceder é sempre chegar sempre o mais próximo do original, mas para isso é necessário ter um bom embasamento teórico, já que a partitura, especialmente as daquele período, não fornece todas as informações que o músico necessita. Mas existe um perigo, que é se perder na busca absoluta do autêntico, pois nunca saberemos exatamente como ela soava. Não se pode virar um xiita da música antiga.

Você está lançando um CD com as três primeiras Suítes de Bach. Qual o diferencial desse seu trabalho frente às inúmeras gravações existentes dessa obra?
Eu me perguntei por muito tempo se iria um dia lançar “mais uma” gravação dessas peças, que passaram pelas mãos de muitos violoncelistas maravilhosos. Eu tinha mesmo muito medo, apreensão de gravar essas peças. Mas a questão é que eu sou um pouco obcecado pelas Suítes, e mesmo quando parei de tocar música de concerto, eu continuava a tocá-las. Quando me direcionei para a música de época, voltei a estudá-las a partir do manuscrito da segunda esposa de Bach, Anna Magdalena. Esse manuscrito apresenta uma série de dificuldades inacreditáveis, e muitos acham que elas estão mesmo erradas. Mas o fato é que suas anotações resultam numa sonoridade única, e por isto resolvi gravá-las. Penso que é o único registro disponível a partir dessa fonte.

Uma outra faceta de suas atividades é o trabalho com a música moderna. Como é tocar a música de nosso tempo?
Tenho que admitir que nos últimos anos não consegui me dedicar à música moderna o tanto quanto queria. Mas sempre achei muito instigante este repertório, e acho muito importante que os intérpretes toquem a música de hoje. Não podemos deixar morrer esse esforço dos compositores que estão propondo coisas novas. É um dever do intérprete tocá-las, inclusive porque isso será bom para ele próprio.

Com tamanha versatilidade e influências, como entende a arte da improvisação ao violoncelo, à qual inclusive já dedicou todo um CD?
Improvisar é uma coisa muito complicada, pois toda improvisação é feita dentro das referências que se tem. Qualquer improvisador sabe que a improvisação é algo que já vem anterior à improvisação. Para mim a improvisação é exercício vital, sensual mesmo, necessário a todo músico. Mas a verdade é que, por um lado, para os músicos clássicos a improvisação é algo muito difícil, pois eles estão acostumados a tocar lendo uma partitura. Pelo outro, muita improvisação de música popular é tão previsível e clichê que deixa mesmo de ser improvisação. Para mim é fundamental arriscar-se, mesmo sabendo que na hora “H” alguma coisa pode não dar certo.

E por que nunca tocou em uma orquestra tradicional?
Graças a Deus nunca toquei! Só toquei um pouco, quando era estudante. Mas depois disso sempre evitei. Acho a orquestra muito grande e, obviamente, há pouca liberdade para tocar de uma maneira única, musical ou esteticamente. Além disso, há uma hierarquia da qual não gosto, pois acredito que a música é uma relação de amor individual que, no ambiente orquestral, é necessariamente perdida.

Obrigado pela entrevista.

 

 



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