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Rosana Lamosa (1/6/2008)

Por Leonardo Martinelli
Geniosa, extravagante, imprevisível e irascível são alguns dos adjetivos comumente atribuídos às grandes divas do canto lírico. Nenhum deles se aplica à soprano Rosana Lamosa, a quem além dos adjetivos que toda diva que se preze tem que ter – tais como talento, musicalidade, carisma e beleza – somam-se qualidades que lhe conferem uma aura toda especial, tais como gentileza, inteligência e, acima de tudo, profissionalismo: mesmo no dia em que perdeu seu pai manteve seus compromissos, se apresentando no concerto de re-inauguração da Sé do Rio. Admirada não só pelo público, mas por seus colegas e pela crítica especializada, a carioca Lamosa detém uma sólida carreira operística no Brasil, tendo nos presenteado com espetáculos das mais diferentes naturezas nos últimos anos. Porém, o mundo já está de olho nessa nossa estrela do teatro de ópera, que no ano passado participou da temporada lírica inglesa, além das muitas apresentações que fez mundo afora. Trabalhadora por natureza, Lamosa estrela neste mês a montagem de Pelléas et Mélisande, de Debussy, em Belo Horizonte. Não bastasse isto, sua agenda de julho promete, além de muito trabalho, um aguardado concerto com o violoncelista Antonio Meneses, no Festival de Campos do Jordão. Foi em meio à preparação de seu mais novo personagem operístico que Lamosa concedeu a seguinte entrevista à Revista CONCERTO.

 

 

De que forma iniciou seu contato com a música clássica?

Desde o princípio quis estudar canto, pois sempre gostei muito de cantar. Minha mãe diz que demorei a falar, mas que antes de pronunciar minhas primeiras palavras eu já cantava. Apesar de tudo, foi somente muito tempo depois, com 17 anos, que passei a estudar música, enquanto cursava jornalismo na PUC do Rio. Na época estudei com uma cantora que chegou a me dizer para não seguir carreira, me jogando um balde de água fria. Mas não me conformei com sua opinião, e em 1987 fui para Nova York ter aulas com Franco Iglesias. Quando voltei para o Brasil, vim morar em São Paulo, onde passei a estudar com a Leila Farah, que, junto com Iglesias, constitui a base de minha escola. Na verdade, minha carreira começou em São Paulo, em 1989, nas Bodas de Figaro. Somente muito tempo depois fui convidada a me apresentar no Rio.

 

Você é cada vez mais requisitada para trabalhos em outros países. Quais são as principais diferenças em trabalhar aqui e no exterior?

A diferença mais importante é que no exterior existe uma maneira bastante objetiva e organizada de produzir óperas, especialmente nos EUA e na Inglaterra, onde tudo é marcado com muita antecedência, com o tempo necessário para podermos realizar um bom trabalho. Hoje em dia, no Brasil, temos alguns diretores e maestros que vivenciaram este processo no exterior e estão procurando implantá-lo por aqui. Entretanto, é ainda comum surgirem convites para fazer uma ópera complexa em poucas semanas, o que para os cantores é um desgaste muito grande.

 

Ao longo de sua carreira operística você passou pelas mais diferentes personagens e repertórios. Como é seu processo de construção da personagem?

Para mim a preparação da personagem começa no texto. Quem escreveu? Em qual obra foi baseado o libreto? Depois vou estudar o libreto, que nem sempre condiz com a versão original. Somente quando conheço a história, e que começo a compreender a personagem, é que me sinto apta a me concentrar na música. Então passo a ler suas estruturas rítmicas, seu tempo e a analisar a escrita do compositor. E somente aí entra a música. A voz é a etapa final deste processo. Procuro estabelecer para cada personagem uma linha de pensamento, mas é importante deixar aberturas para que o diretor de cena possa fazer seu trabalho, estabelecendo um diálogo como ele. Para mim, vivenciar todo este processo é o que há de mais prazeroso na ópera.

 

E o que muda em sua forma de trabalhar quando faz música de câmara ou de concerto?

Vocalmente esse repertório demanda uma colocação um pouco diferente. O canto de câmara e o de concerto são, num certo sentido, muito mais difíceis, pois exigem um controle absoluto de tudo o que você faz. Tudo tem que ser objetivamente pensado, pois sua escuta é muito mais transparente e cristalina, sem os efeitos cênicos que, na ópera, podem ajudar o cantor a mascarar um eventual problema.

 

Nos últimos tempos tem crescido a demanda pelo repertório lírico cantado em português, idioma tradicionalmente pouco comum nesse segmento. Como você vê esta questão?

Acredito que no Brasil ainda não temos uma escola de canto. Isso faz com que a grande maioria dos cantores não esteja preparada para cantar em português, e quando não cantamos bem em nossa própria língua, fica também difícil cantar em outros idiomas. Penso que uma escola brasileira de canto tem que visar justamente isso, pois é muito difícil cantar português. Mas essa dificuldade advém da falta de prática. Por isso, trata-se de algo que precisa ser trabalhado cada vez mais em nossas escolas e faculdades. Pessoalmente, quanto mais faço música em português, mais fácil fica.

 

Desde 2005 você tem se dedicado regularmente ao ensino de canto, tanto como conferencista na USP de Ribeirão Preto como no Festival de Campos do Jordão. O que é ensinar canto?

Canto não se ensina. O que é possível fazer é trabalhar a pessoa, ajudá-la a lidar com seu corpo, que é o instrumento do cantor. Mas de fato ensinar a cantar é muito difícil. Acho que a pessoa tem que ter o canto em sua natureza; tem que ter ouvido! O que um professor de canto faz é abrir a mente do aluno, para que ele possa reconhecer suas dificuldades. O máximo que posso realmente ensinar é respiração, que é 90% canto.

 

Mas em termos de repertório, o que trabalha nas suas aulas?

Procuro mostrar o caminho mais apropriado para a voz do aluno, mas principalmente, tirar aquilo o que ele ainda não tem condições de fazer. O difícil para o aluno é se ouvir, pois é muito difícil o cantor desenvolver a habilidade de se escutar. A base da aula de canto é aprender a se escutar, e a maior contradição é que o cantor jamais se escuta completamente, pois ele “é” seu instrumento musical.

 

Na posição de artista aclamada você necessariamente suscita o interesse da crítica musical. Como você recebe eventuais críticas?

Qualquer crítica é uma opinião de uma pessoa. O que eu acho péssimo é o crítico que escreve sem ter participado do processo, ou ao menos ter se informado melhor do como uma dada produção foi sendo conduzida. Muitas vezes as críticas não acrescentam nada, não têm nada a oferecer. Desse tipo de texto procuro não absorver nada. Para mim muito mais interessante são as matérias, os textos informativos, que explicam o processo de construção de uma montagem de ópera.

 

Há muitos anos você mantém um relacionamento estável com o tenor Fernando Portari. Como é a vida de um casal totalmente dedicado ao canto lírico?

É uma vida regada a cumplicidade, pessoal e musical. Ele é a única pessoa em quem confio integralmente, e vice-versa. É um tipo de cumplicidade muito difícil de conseguir, e temos muita sorte e felicidade de estarmos juntos. Nos conhecemos cantando, e num primeiro instante, já tínhamos um pelo outro uma enorme admiração musical. Mas o relacionamento amoroso veio quando fizemos nossa primeira ópera juntos, ironicamente o Elixir do amor, iniciando uma vida de companheirismo e amor. E por sorte fizemos juntos muitos pares românticos em nossas carreiras, tal como ocorrerá no Pelléas et Mélisande que faremos agora em junho.

 

Nos últimos anos você tem gravado diversos álbuns. Você gosta do trabalho em estúdio?

Gosto muito de gravar, mas não é a coisa que me dá mais prazer. Acho muito chato ficar repetindo uma música em busca da perfeição. Quando começamos a repetir muito perde-se a espontaneidade. Quase sempre, os melhores takes – isto é, as gravações que acabam sendo usadas no CD – são aqueles que foram gravados primeiro, que são justamente os mais espontâneos.

 

Tal como muitos cantores, você realizou parte de sua formação no exterior. Por que é tão importante esta experiência no estrangeiro?

Logo depois que comecei a desenvolver profissionalmente minha carreira resolvi ficar um tempo fora, na Europa, pois penso ser fundamental buscarmos referências fora do Brasil, já que aqui para o canto lírico não somos exatamente uma referência mundial em termos de escola e ensino. Esta temporada fora foi fundamental para abrir a cabeça, para conhecer o padrão de produção e de referência vocal, coisas que você só conhece se você tiver o contato ao vivo e em cores. Aprendi muito simplesmente assistindo ópera.

 

Contraponto

 

Uma voz que admira: Dentre muitas, Bidu Sayão, pois com tanta gente indo contra, ela foi muito longe, e me identifico muito com isso.

 

Um músico ou musicista que admira: Antonio Meneses, um grande músico, e tudo o que ouvi dele me impressionou pela qualidade e intensidade com que ele se entrega à música. Ele realmente é um artista de palco.

 

Ópera, concerto ou música de câmara?: Todos.

 

Uma ópera por fazer: “O Cavaleiro da Rosa”, de Richard Strauss.

 

Uma ópera que faria quantas vezes fosse necessário: “Manon”, Jules Massenet.

 

Personagens difíceis: Gilda, do “Rigolleto” de Verdi, e Elvira, do “Don Giovanni” de Mozart.

 

Um personagem masculino que adoraria fazer: Hoffmann, dos “Contos de Hoffmann” de Jacques Offenbach

 

Uma gravação que julga fundamental: Não tem nada a ver com os clássicos: “Fina Estampa” de Caetano Veloso.

 

Se não fosse musicista, gostaria de ser: Jornalista. Ainda acho que não foi em vão a faculdade que cursei e gostaria de um dia me dedicar novamente a isto.

 

Ser cantora é: ...um sacerdócio que eu procuro exercer sem tanta paranóia

 

Música é: ...o que traz a essência do ser humano. Não consigo imaginar o mundo sem música, o alimento do espírito.

 

Música não é: ...fácil de fazer.

 

Ser prima-dona é: Não existe isto, pessoalmente não tenho esquema de prima-dona. Estou mais para operária do canto.

 

Obrigado pela entrevista.

 

 



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