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“Macbeth” de Verdi tem boa montagem em Belo Horizonte (30/6/2009)
Por Nelson Rubens Kunze

Sobre um tapete de fumaça branca surge Lady Macbeth sonambulando e entregando as suas angústias secretas aos seus incrédulos seviçais. A cena do quarto ato, de forte carga dramática, foi um dos pontos altos do Macbeth de Verdi apresentado no sábado passado (27 de junho) pelo Palácio das Artes de Belo Horizonte. Foi também o grande momento da soprano norte-americana Cinthia Lawrence, que fez o papel da esposa dominadora, sedenta por poder. Cinthia tem uma voz clara e possante, que corre fácil – de vez em quando fácil demais, sem grandes variações –, e tem boa presença em cena. Já o que distingue o protagonista Macbeth, interpretado pelo barítono norte-americano Jason Stearns, é a riqueza vocal. Jason, de timbre mais aveludado, faz uso de uma paleta sonora mais rica, ainda que de menor intensidade.

A ópera de Verdi, baseada na peça homônima de Shakespeare, conta uma história trágica de ambição cega por poder, que se passa na Escócia do século XI. Em um complexo relacionamento de dominação e dependência, Macbeth é convencido por sua ambiciosa mulher a assassinar o rei que se abriga em seu castelo para, conforme o oráculo das feiticeiras, tornar-se ele mesmo rei da Escócia. O crime consumado, contudo, acende novas desconfianças e temores, levando o casal a uma sequencia sanguinária de delitos. Macbeth é finalmente morto quando a “Floresta de Birnam move-se em direção o castelo”, o que na realidade significa o avanço do exército comandado por Macduff e por Malcolm, filho do rei assassinado, disfarçado sob galhos e ramos da floresta...

A cenografia desta montagem partiu de uma inteligente divisão do palco em dois planos com inclinações diferentes. Dessa forma, o diretor cênico Cleber Papa proporcionou bom suporte para o desenrolar da trama, desde as grandes cenas até os momentos mais reservados, encenados em um espaço menor, bem delimitado pelo plano inclinado. Com soluções bonitas em uma encenação simples e despojada, a direção cênica funcionou bem e contou com uma eficaz iluminação de Wagner Pinto.

A apresentação também teve boas atuações dos cantores Octavio Arévalo (Macduff), do argentino Fernando Chalabe (Malcolm) e de Ednéia de Oliveira (dama de companhia). Uma boa surpresa também foi a participação do baixo Luiz Molz, que fez o papel de Banco. De voz sonora e à vontade no palco, o brasileiro Molz, natural de Santa Maria (RS), reside há muitos anos na Alemanha, onde desde 2001 faz parte do elenco fixo do Teatro de Ópera de Karlsruhe.

Foi correta também a execução da Filarmônica de Minas Gerais, que teve direção musical e regência do maestro Fabio Mechetti. Menos equilibrada foi a participação do Coral Lírico de Minas Gerais, com passagens que soaram um pouco inseguras.

Macbeth foi o primeiro título do Palácio das Artes neste ano, que ainda tem programado A menina das nuvens de Villa-Lobos, em setembro, e Erwartung de Schoenberg, em outubro. Assim, Belo Horizonte passa a ser praticamente o único grande teatro brasileiro a produzir óperas em 2009 (à exceção do Festival Amazonas de Ópera). No Rio de Janeiro e em São Paulo, as reformas dos respectivos teatros municipais são uma ótima desculpa...

[Fotos: Divulgação / Palácio das Artes / Paulo Lacerda]

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belo Horizonte e assistiu à ópera Macbeth a convite do Palácio das Artes.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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