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Histórias de Villa-Lobos (17/7/2009)
Por Camila Frésca

Uma das efemérides que mais tem influenciado a escolha de repertório entre os programadores musicais brasileiros em 2009 são os 50 anos da morte de Villa-Lobos. Embora faltem iniciativas mais ambiciosas, como por exemplo programar a integral das Bachianas, dos Choros, dos quartetos de corda ou mesmo de concertos do compositor, muitas de suas obras vêm sendo levadas ao público em apresentações sinfônicas e de câmara.

Lembrar a figura de Villa-Lobos é lembrar de histórias incomuns, protagonizadas por alguém muitas vezes descrito como uma espécie de gênio visionário. Mas, ao invés de aspectos eloquentes, gostaria de contar uma história curiosa relacionada a uma de suas mais importantes obras para piano, a coleção de 16 Cirandas, e que creio não ser do conhecimento de muitos de seus admiradores.

Na primeira metade do século XX, nenhum outro personagem teve igual importância para a configuração daquilo que seria a “música erudita brasileira”, do que Mário de Andrade. Além de disseminar suas ideias em livros e artigos, o escritor acompanhava de perto e com enorme interesse não só a produção como também os rumos que músicos como Francisco Mignone, Villa-Lobos e Camargo Guarnieri davam a suas carreiras. Era não apenas um observador como um conselheiro e crítico bastante atuante. Por meio de cartas e crônicas, dava sua opinião sobre as obras dos artistas, tendo como parâmetro não só a qualidade estética, mas principalmente se estas contribuíam para o desenvolvimento da música brasileira, ou seja, se tais obras obedeciam aos preceitos de seu projeto nacionalista.

Embora de forma menos direta que com Mignone e Guarnieri, com quem tinha relações mais próximas, não raro Mário procurava aconselhar e até mesmo influenciar Villa-Lobos. Numa carta escrita em 1924 a Manuel Bandeira, um trecho engraçado nos permite entrever como o escritor enxergava o músico. Comentando a vinda de Villa a São Paulo, Mário afirma: Villa chegou. Como sempre: chega, vê e vence. E cansa também [...] Ao mesmo tempo que domina a gente pela música e pelo jeito, cansa, meu Deus! Quando ele começa a falar e diz teorias, críticas etc. é um pavor. Nunca vi cabeça mais embrulhada que aquela. Às vezes tem críticas finíssimas, acertadíssimas. Mas isso vem de embrulho com uma porção de nefelibatismos, erros e até tolices. Mas não faz mal. A gente agüenta a conversa dele porque se lembra da música.

Nessa relação dúbia de Mário de Andrade com Villa-Lobos – onde por um lado havia admiração e reconhecimento da genialidade do compositor e, por outro, uma falta de afinidade entre as personalidades de ambos – é interessante observar, a partir do depoimento do próprio Mário, como teria se dado a criação das Cirandas. O relato é interessante sobretudo porque ilustra bem os esforços do escritor para a consolidação de seu projeto musical, e de que “armas” ele se utilizava. Numa carta escrita em 1940 para sua amiga e discípula Oneyda Alvarenga, Mário revela que a obra teria surgido por encomenda sua. Mas como não poderia simplesmente “encomendar” algo a Villa, pois ele provavelmente nunca atenderia ao pedido, Mário valeu-se de recursos mais sofisticados. O trecho é longo mas vale pelas revelações:

Como toda pessoa que tem alma de professor, sou um notável artista de teatro [...] Daí eu fazer muitos esforços, até os da representação teatral, pra me impor aos artistas. [...] Muitas vezes, sem necessidade pessoal nenhuma enfeito uma passagem com um berloque bem bonitinho, que eu sei vai produzir um efeito decisivo no aluno, que não sabe que está sendo meu aluno, mas que, me respeitando, insensivelmente vai aprendendo comigo. E às vezes, franqueza, tenho dado golpes admiráveis de segurança. As Cirandas e em conseqüência as Cirandinhas, sem dúvida das coisas mais geniais do Villa, ele as deve a mim. Fui eu que observando certa resistência do Villa em aceitar o aproveitamento folclórico, observando a dificuldade de construção formal dele e outras coisas assim, escrevi uma carta de pura mentira pro Villa, me dizendo encantado com as obras de Allende, um chileno que eu fingia descobrir no momento, observava as peças em forma A-B, uma aproveitando um tema popular, outra criação livre, quando muito se servindo de constâncias folclóricas, coisas assim, e está claro fingindo uma admiração danada pelo homem, que ia escrever sobre ele, coisas que, eu sabia, deixavam o Villa sangrando em sua imensa vaidade. Mas a esperteza maior foi, em seguida, fingindo amizade subalterna, pedir que ele me escrevesse umas peças de meia-força pros meus alunos de piano. Como sempre: nenhuma resposta, o Villa só escreve cartas precisando da gente. Mas poucos meses depois vim no Rio, [...] me encontro com o Villa numa roda. E ele imediatamente: ‘Olhe, vá lá em casa! Tenho umas coisas pra você. Bem! Não é nada daquilo que você me pediu!’ E sorriu com um arzinho superior meio depreciativo. Eu fui e eram as Cirandas. E era exatamente o que pedira, o que tivera a intenção de provocar no Villa, embora estivesse longe de imaginar as Cirandas.

Como essa saborosa história, muitas outras estão por trás da criação de obras de Villa-Lobos, e felizmente hoje já podem ser recuperadas em alguns dos diversos livros e pesquisas acadêmicas dedicadas a sua obra. Para aqueles que quiserem se inteirar mais sobre a vida do compositor, recomendo a leitura de “Heitor Villa-Lobos: o caminho sinuoso da predestinação”, livro de Paulo Guérios lançado em 2003 pela editora FGV.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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