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Improvisação e música contemporânea (22/9/2009)
Por Camila Frésca

Na música contemporânea, muitas vezes as figuras do intérprete e do compositor não podem mais ser facilmente delimitadas. Se tradicionalmente reconhecíamos o compositor como idealizador da obra e o intérprete como aquele que cuidaria da execução (excetuando-se, claro, os casos em que o compositor executa sua própria obra), pode-se dizer que a música do século XX e contemporânea deu uma embaralhada neste esquema, com as experiências realizadas com o acaso, o aleatório e “partituras” que muitas vezes dizem como fazer, mas não o que fazer. Além disso, experiências com a improvisação colocam o intérprete/improvisador como formulador de seu próprio discurso, ou seja, como compositor.

Existem muitos tipos de improvisação em música: é só pensarmos na música instrumental brasileira ou no jazz, por exemplo. Na música dita “erudita” há um campo especialmente interessante, que é o da livre improvisação, ou seja, a improvisação que não se restringe a nenhum “território” (gênero musical) determinado. A livre improvisação de maior caráter especulativo, em busca de novos caminhos, é aquela em que o ato de improvisar é intencional e parte de “intérpretes-criadores” – ao contrário de obras em que o compositor abre espaços de improvisação numa peça pré-concebida.

O intérprete-criador é aquele que almeja uma expressão pessoal (a criação) a partir de uma prática instrumental. A criação se dá a partir dessa prática e os sons produzidos são a expressão de seu pensamento musical instantâneo. Para o intérprete-criador muitas de suas ideias sonoras ou musicais estão nos dedos ou surgem no contexto de sua relação com o instrumento.

Teoricamente, parece possível até acreditar em uma improvisação completamente livre de referências, mas claro que na prática as coisas não acontecem assim. Uma livre improvisação que se descole completamente de qualquer território ou idioma é ilusória. O que existe é um desejo de se afastar na medida do possível deles, porém tendo consciência de que é impraticável se partir de um grau-zero. Os idiomas estarão presentes, mesmo que imperceptíveis, como linhas de força, junto com mecanismos e sistemas que cada um dos intérpretes-improvisadores traz em sua biografia. A livre improvisação não é um tipo de música (como o jazz, o choro etc.) mas um modo de fazer musical.

Estas questões me vieram à mente ouvindo algumas gravações do grupo paulista de livre-improvisação Akronon. Formado pelos professores e músicos Edson Ezequiel (violino e guitarra), Rogério Costa (saxes e flautas) e Silvio Ferraz (processamento eletrônico ao vivo), o Akronon utiliza a improvisação musical livre, com base em dispositivos digitais de tratamento e difusão de áudio-digital em tempo real. Isto significa que o registro de suas composições é o testemunho de uma experiência única, impossível de ser reproduzida. O grupo realiza um trabalho prático de livre improvisação com objetivos experimentais, criando ambientes para que as múltiplas possibilidades de relacionamento entre os músicos se dêem da maneira mais profícua possível. O Akronon existe desde 2001 e se apresenta em eventos de música contemporânea e eletroacústica.

Vale ainda dizer que, além de poder ser uma atividade-fim, a livre improvisação é também um eficiente método para que um jovem compositor encontre sua individualidade. Pois se no mundo de hoje, por um lado, a enorme oferta de informações sobre a música de tempos anteriores, de lugares distantes e dos mais diferentes autores pode ser acessada com facilidade, por outro o jovem compositor, exposto a esta enorme variedade de estilos, muitas vezes sente-se confuso e tem dificuldades em encontrar sua própria linguagem musical. Assim, face a tantas e tão díspares influências, o grande obstáculo parece ser o desejo de ter uma obra ímpar, ou ao menos característica, que traga seu quinhão de originalidade e individualidade. No livro Improvisation: music from the inside out (Berkeley, 1988), Mildred Chase trata do assunto e cita interessantes exemplos de compositores que se utilizaram da prática da improvisação para um posterior desenvolvimento de linguagem musical própria, como Henry Cowell, Carl Ruggles e o Arnold Schönberg.





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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