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Palácio das Artes encena Villa-Lobos (28/9/2009)
Por Nelson Rubens Kunze

Após quase 50 anos, a última ópera de Villa-Lobos ganhou uma bonita e competente montagem no Palácio das Artes de Belo Horizonte. “A menina das nuvens” foi escrita nos dois últimos anos de vida do mestre carioca e teve apenas duas apresentações em início dos anos 60, no Rio de Janeiro. Essa produção de Belo Horizonte será uma das principais homenagens – senão a principal – que se faz no ano em que se lembram os 50 anos de falecimento do compositor.

A ópera é baseada em um conto de fadas de Lúcia Benedetti: por um acaso do destino (na verdade um pássaro branco que inadvertidamente a levou nas costas), a pequena menina foi parar nas nuvens, onde mora no castelo do Tempo e tem como amigos o Corisco e o Vento Variável. Quando a menina está crescida, ela resolve descer para a Terra para conhecer sua família. Ali se envolve com uma rainha má e acaba se apaixonando pelo príncipe... Em termos da temática, é possível traçar um paralelo com obras como João e Maria, de Humperdinck, ou o O quebra-nozes, de Tchaikovsky.

A direção musical e a regência couberam ao maestro Roberto Duarte, que comandou a Sinfônica e Coral Lírico de Minas Gerais e um bom time de solistas. Duarte, grande especialista na revisão e apresentação de Villa-Lobos, não esconde seu entusiasmo diante da obra, como nota no programa: “Por sua beleza de texto e música, espero e desejo que A menina das nuvens se torne um obra regular no repertório operístico nacional.”

Duarte fez alguns providenciais acréscimos ao espetáculo. Primeiro, criou uma introdução. “Como a obra não tem uma abertura formal e sim alguns compassos que duram 19 segundos, considerei oportuno juntar alguns trechos de temas importantes da própria obra, mantendo-os exatamente como o maestro os escreveu, criando assim uma introdução de mais de 4 minutos.” Funcionou bem. Depois incluiu alguns pequenos trechos falados para dar maior compreensão do enredo.

A menina das nuvens tem três atos com mais de 2 horas e meia de música. Inicia-se nas nuvens, no castelo do Tempo, que é o lar da menina. A música é contínua (não há números) e dá provas, novamente, da profusão criativa de Villa-Lobos - é muita música! Existe a Valsinha que está solta na sala e que deve ser aprisionada em um grande gavetão, pois Tempo não a aprova. Mas tem também o Samba, esse mais esperto, sempre consegue escapar. Corisco não quer ser corisco, mas tem que provar a sua coragem para transformar-se em Raio de Sol. Após um segundo ato, que pareceu longo, a música e a trama desenvolvem-se para verdadeiramente desabrocharem no terceiro ato, grande momento do espetáculo.

Cena do Ato 1 de “A menina das nuvens”

Foi muito boa, criativa, bonita e eficiente a encenação de William Pereira. Cenários funcionais, cores, boa iluminação – tudo contribuiu para o bom resultado da montagem. Nas nuvens, um grande cenário circular branco, que se abre em seis portas giratórias para as coxias, possibilitou uma ótima movimentação dos cantores – apoiados por dançarinos e atores –, o que conferiu ao ato a efemeridade e leveza que um céu de nuvens exige. As cenas que se passam na Terra utilizam um cenário simples mas funcional, e trazem em nuvens suspensas os personagens que estão no céu. Figurinos apropriados valorizaram detalhes importantes da obra, enriquecendo a trama. Os ótimos cenários e figurinos são de Rosa Magalhães, artista plástica várias vezes campeã do carnaval do Rio de Janeiro.

A Lua ajuda a menina a tecer a toalha de fios de luz, no terceiro ato da “Menina das nuvens”

Também foi bem o elenco, com os cantores Gabriella Pace (Menina das Nuvens), José Carlos Leal (Tempo), Inácio de Nonno (Corisco), Homero Velho (Vento Variável), Regina Elena Mesquita (Rainha), Flávio Leite (Soldado), Fabíola Protzer (Anita), Aline Araújo (Mãe), Indaiara Patrocínio (Lua) e Wellington Vilaça (Príncipe). José Carlos Leal substituiu o barítono Licio Bruno inicialmente escalado que, em razão de um acidente em um dos últimos ensaios – Licio caiu de uma altura de 6 metros–, teve que se submeter a uma cirurgia na bacia, passa bem, mas terá de se afastar dos palcos por algumas semanas.

A menina, o príncipe e a rainha, terceiro ato da “Menina das nuvens”

Em época de vacas magras, o Palácio das Artes de Belo Horizonte faz história. O mundo onírico da menina das nuvens sem dúvida é uma das grandes revelações líricas dos últimos tempos.

[Fotos: Divulgação / Palácio das Artes / Paulo Lacerda]

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belo Horizonte e assistiu à ópera A menina das nuvens a convite do Palácio das Artes.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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