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Reedição de livro conta história de Chiquinha Gonzaga (26/10/2009)
Por Camila Frésca

“Ó abre alas” é uma marcha carnavalesca tão popular que muitos supõem que seja uma canção anônima. Chiquinha Gonzaga, sua autora, nasceu há 162 anos e é uma das mais interessantes personalidades femininas da nossa história. Tendo contato com a música ainda criança (matérias como piano e teoria musical faziam parte de sua educação), Chiquinha acaba fazendo dela seu meio de vida e forma de liberar-se de todas as amarras sociais a que estaria inevitavelmente presa no século XIX.

Utilizando a música como profissão, Chiquinha abandona marido, amantes e filhos e sai em busca da realização de suas próprias vontades e desejos. Inicia uma intensa carreira na música popular como compositora de polcas, valsas e maxixes, e como “pianeira” em grupos de música instrumental que tocavam de forma “chorosa” essas músicas, dando início ao gênero que ficaria conhecido como choro. Mais tarde ainda escreveria muita música para o teatro de revista. Chiquinha também se envolveu de forma ativa com grandes questões de seu tempo: as causas abolicionista e republicana, além de liderar uma luta pioneira pelo respeito aos direitos autorais no Brasil e fundar a primeira entidade do gênero, a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat).

Chiquinha Gonzaga aos 29 anos, quando dá início a sua trajetória artística [Foto: reprodução]

Se hoje o nome da maestrina e compositora é bastante difundido e dados de sua vida são conhecidos do público em geral – embora não se possa dizer o mesmo de sua música – devemos a maior parte disso ao trabalho de Edinha Diniz, que em 1984 publicou a primeira biografia de Chiquinha Gonzaga escrita a partir de um sério trabalho de pesquisa. É nela que estão a maioria dos dados surpreendentes e até então desconhecidos sobre a trajetória da artista. O livro causou interesse crescente pela compositora, que virou enredo de escola de samba, peça teatral, minissérie de TV e foi descoberta por alguns de nossos músicos, como Clara Sverner, uma das primeiras a registrar a obra de Chiquinha para piano.

“Chiquinha Gonzaga, uma história de vida” foi reimpresso e reeditado algumas vezes durante esse tempo, mas a boa notícia é que, exatos 25 anos de sua primeira impressão, ele surge revisto, com novos dados e reflexões, bem como numa edição mais elaborada e incrementada com novas imagens. O lançamento tem o objetivo de comunicar a transferência de guarda do acervo de Chiquinha da Sbat para o Instituto Moreira Salles (IMS), no Rio de Janeiro.

Chiquinha Gonzaga em 1932, no dia de seu aniversário de 85 anos. [Foto: reprodução]

Ao preparar essa nova edição, Edinha Diniz conta que encontrou documentação inédita sobre o “casamento oculto” dos pais de Chiquinha, feito após 17 anos de união ilícita e escondido da própria família, bem como os autos do processo de divórcio movido por seu marido, Jacinto Ribeiro do Amaral. Nele Chiquinha é condenada “à separação perpétua de seu marido por abandono do lar e adultério culpável” pelo Tribunal Eclesiástico do Bispado do Rio de Janeiro. Tal documentação implicou na revisão de capítulos iniciais do livro, bem como na inclusão de um novo dedicado ao divórcio, além de outras alterações e inserções de notas. “A Chiquinha Gonzaga que emerge deste novo relato, mais densa e contraditória como personagem, é ainda mais fascinante do que a que conhecíamos. Livre, corajosa e pioneira, como já sabíamos, mas tendo que pagar em vida por sua audácia um preço maior do que julgávamos”, afirma a autora na introdução do livro.

O acervo Chiquinha Gonzaga foi recebido pelo IMS em 2005, e desde então a entidade é responsável por sua preservação, organização e difusão. O material é composto por milhares de partituras manuscritas e impressas, recortes de jornal, correspondência e fotografias. Já recebeu tratamento técnico, estando acondicionado e em processo de digitalização. É possível saber mais sobre o acervo, baixar um inventário das obras de Chiquinha e ouvir algumas gravações raras no endereço
http://ims.uol.com.br/hs/chiquinhagonzaga/chiquinhagonzaga.html

[Clique aqui para obter mais informações ou adquirir o livro “Chiquinha Gonzaga, uma história de vida”]





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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