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Belo Horizonte: a trincheira da ópera no Brasil (28/10/2009)
Por Irineu Franco Perpetuo

João Luiz Sampaio já escreveu na edição de outubro da Revista CONCERTO, mas não custa reforçar: para os habitantes de 26 das 27 unidades federativas que constituem o Brasil, 2009 entra para a história como o annus horribilis no que tange à ópera.

A situação parece especialmente dolorosa nas duas principais cidades do país, São Paulo e Rio de Janeiro, cujos centenários teatros municipais estão fechados para reformas por certo necessárias e urgentes – mas nas quais não se vêem traços de programação alternativa de ópera.

Não é preciso olhar com inveja para o Primeiro Mundo para chegar à conclusão de que um outro cenário seria, sim, possível. Fala-se sempre em crise na Argentina, mas o fato é que, por lá, o fato de o reverenciado Teatro Colón também estar fechado para reformas não implica na ausência de espetáculos líricos – em 2009, por exemplo, os corpos estáveis da casa fizeram, no Teatro Coliseu de Buenos Aires, Jeanne d'Arc au Bûcher, de Honneger (com regência de John Neschling), Orfeo ed Euridice, de Gluck (sob a batuta de Arnold Östman), O rapto do Serralho, de Mozart, e ainda têm na agenda, para fechar o ano, I Due Foscari, de Verdi.

Enquanto isso, em São Paulo, temos o Municipal em obras, a programação do Teatro São Pedro (que seria um espaço ideal para espetáculos do gênero) enfrentando dificuldades e a Osesp, apesar do retumbante sucesso artístico de suas óperas em concerto – que trouxeram a São Paulo os melhores elencos dos últimos anos, como no deslumbrante e histórico Cavaleiro da Rosa que tivemos em setembro – anunciando que não vai continuar com a iniciativa no ano que vem.

As boas notícias, contudo, existem – e vêm de Minas Gerais. O Palácio das Artes, em 2009, fez uma programação variada, incluindo um standard (Macbeth, de Verdi), a celebração da grande efeméride brasileira do ano (com A menina das nuvens, de Villa-Lobos), um título contemporâneo (Chagas, de Silvio Barbato) e, para encerrar, agora, no final de outubro, uma obra-prima do século XX, pouquíssimo feita por aqui: Erwartung, de Arnold Schönberg.

Para festejar o centenário de Erwartung, monólogo composto em 1909, foi convidada Eliane Coelho, que agarrou a parte com sua habitual intensidade e capacidade de entrega ao papel. Ela recebeu um apoio decisivo do fosso orquestral, em que a Filarmônica de Minas Gerais – definitivamente consolidada como uma das melhores do país – atuou de maneira segura graças ao maestro Abel Rocha, que mostrou perícia e clareza na leitura da complexa escrita de Schönberg.

Cena de Erwartung, com Eliane Coelho [Foto: divulgação/Paulo Lacerda]

A união dessas forças mostrou que é possível, sim, comunicar ao grande público uma obra “difícil” – ao final do espetáculo, as pessoas se entreolhavam e perguntavam: “mas já acabou?”. Sim, Schönberg deixou no público mineiro um gosto de “quero mais”. E no resto do Brasil, será que vamos continuar indefinidamente “querendo mais” ópera, ou os responsáveis pelos teatros vão finalmente sacudir a inércia no ano eleitoral de 2010?





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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