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A singeleza da canção brasileira, sem adjetivos (22/11/2009)
Por João Marcos Coelho

Não é fácil transitar entre o erudito e o popular sem deixar cair a peteca, como se dizia muito antigamente. Mas Samira Rahal, integrante do Coral Paulistano, consegue a façanha de realizar uma gravação bastante agradável, gostosa de se ouvir. E, sobretudo, cumpre um papel importante: leva canções de excepcionais compositores eruditos, como Camargo Guarnieri, Cláudio Santoro, ou então dos mais populares Waldemar Henrique ou Edmundo Villani-Côrtes, para públicos mais amplos.

O CD, recém-lançado pelo selo Paulus, intitula-se “Vôo no Popular”, e preenche metade de suas doze faixas com a música suingante de Waldemar Henrique. Eu falei suingante? Pois é isso mesmo. A voz límpida e afinadíssima de Samira emite as melodias sob um colchão sonoro tecido por músicos populares de comprovada competência, como o Tio (pianista Laércio de Freitas), o bandolim de Milton Mori, a flauta de Shen Ribeiro, o baixo de Sizão Machado e a percussão de Paulo Dias. Do lado erudito, comparece o violoncelo de Maria Cecília Brucoli. E, nos arranjos e violão, o ótimo e preciso Jardel Caetano.

Sem dúvida, é uma fórmula bastante interessante – e desafiadora, porque não se pode “simplificar” a canção culta sem mais nem menos; é preciso ter sensibilidade e profundo conhecimento dos compositores para não fazer barbaridades. Samira e Jardel passam ao largo desses perigos – e ficam apenas com o prazer informal de desfilar canções de belíssimas melodias e muita ginga.

Como as seis assinadas por Waldemar Henrique (1905-1995). Lá estão as conhecidíssimas “Coco Peneruê” e “Tamba-tajá”, mas também “Abaluaiê”, “É Maracatu” e “Boi-Bumbá” – todas das décadas de 30 e 40.

Se você tem dúvidas sobre as contaminações entre a música popular e a erudita, ou considera que esse tipo de “arranjo” violenta a chamada criação erudita, ouça, por exemplo, essas descontraídas leituras de três das canções do ciclo de amor do amazonense Cláudio Santoro (1919-1989) sobre versos de Vinicius de Moraes: “Luar do meu bem”, “Pregão da Saudade” e “Amor e lágrimas”. E depois faça a comparação, ouvindo a versão mais, digamos, ortodoxa, com a soprano Rosana Lamosa, acompanhada ao piano por Marcelo Bratke (CD de 2006, do selo Clássicos). É evidente que com Samira as canções parecem soltar-se de amarras “eruditas” e flutuam com muito maior naturalidade. Até porque ela não emposta a voz, claro. É quase como tirar uma casaca de concerto e meter-se na confortável dupla camiseta-bermuda.

Como é bom o piano de Laércio de Freitas acompanhando Samira na “Canção ingênua” de Camargo Guarnieri (1907-1993). Note como o Tio “respeita” basicamente a partitura de Guarnieri – pois há, sim, casos em que não é preciso mexer em nada para tornar a canção mais “popular”, não é mesmo? Já em “Por quê?”, eles escancaram a condição de seresta da bela melodia de Camargo, com piano, violão e percussão. A pitada final fica por conta de Villani-Côrtes, mineiro de Juiz de Fora hoje com 79 anos e notável por sua facilidade de trânsito entre o erudito e o popular. Como na insinuante melodia de “Sina de cantador”.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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