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Abbey Road: de Bach a Beatles (25/2/2010)
Por Leonardo Martinelli

Nas últimas semanas o universo musical pop ficou em polvorosa quando a EMI anunciou que colocaria à venda seu estúdio na Abbey Road, em virtude da crise financeira que há tempos atinge a indústria fonográfica (em tempo, depois de ter enchido por anos o bolso de artistas e executivos). A tensão é explicada quando lembramos que foi nesse estúdio que os Beatles gravaram seus principais álbuns, estabelecendo uma relação afetiva com essa pacata rua do bairro de St. John’s Wood, em Londres, a ponto de a tomarem como cenário para uma das mais famosas capas de LP de todos os tempos (parodiada na colagem abaixo especialmente feita para o Site CONCERTO).

Bach, Mozart, Beethoven e Wagner, num passeio imaginário pela Abbey Road

A passagem do famoso quarteto de Liverpool pelo número três da “rua da abadia” fez do estúdio uma verdadeira lenda, ao qual se somou a qualidade de seus equipamentos e excelência de seus engenheiros de som, tornando-o um dos mais cobiçados locais para gravação por bandas de todo o planeta.

Porém, o que raramente é divulgado, é que nesse mesmo endereço foram realizadas inúmeras gravações de importantes títulos clássicos produzidos pela EMI, ou por outras gravadoras que sublocam seu espaço.

Curiosamente, a primeira gravação realizada no estúdio foi a da Sinfonia nº 5 do compositor inglês Vaughan Williams, em 1943, ainda na infância da história do disco. Porém, a partir da década de 1960, o estúdio se tornaria uma referência como local de gravação de título clássicos. Isso porque o Abbey Road não é um estúdio, mas na verdade, três.

O Studio One é um imenso espaço acusticamente projetado para ter uma ambiência sonora perfeita para gravações de orquestras e coros, onde é possível acomodar mais de duzentos músicos simultaneamente. Antes do DVD ter varrido o fonograma da história da ópera, o Studio One era um local privilegiado para se gravar música de cena, justamente por ele ter espaço suficiente para simular um palco de ópera real sem os inúmeros inconvenientes que isso traria para uma seção de gravação (na foto abaixo, vemos uma gravação de Don Giovanni, de Mozart). Além de todo o aparato tecnológico, esse estúdio conta com um piano Steinway & Sons Modelo D, além de uma celesta (instrumento caro, delicado e muito pesado).

Sessão de gravação da ópera Don Giovanni, de Mozart, no Studio One do Abbey Road

Por esse estúdio já passaram todas as orquestras londrinas (além de grupos como o English Concert e o Early Music Consort of London), bem como um sem-número de solistas, cantores e regentes de alto escalão, como Antonio Pappano, Claudio Arrau, Daniel Barenboim, Dietrich Fischer-Dieskau, Elisabeth Schwarzkopf, Herbert von Karajan, Jaqueline du Pré, José Carreras, Kiri Te Kanawa, Maria Callas, Mstisláv Rostropóvitch, Placido Domingo, Riccardo Muti e Yehudi Menhuin. É também nesse estúdio em que são gravadas diversas trilhas sonoras de Hollywood, desde o já clássico Guerra nas Estrelas até o irreverente Shrek.

Contando com ainda mais dois estúdios – o Two, menor, mas que conta também com um Steinway D, e o Three, para pequenos projetos, com um Steinway B – o Abbey Road foi também peça fundamental na manutenção do grande tesouro fonográfico da era do LP, quando na década de 1980 a Sony por fim emplacou o formato do CD. Nas ilhas de edição desse estúdio foram realizadas inúmeras remasterizações de álbuns fundamentais da discografia clássica, transubstanciando essas joias analógicas para o formato digital.

Semana passada o ministério da cultura inglês decidiu pelo tombamento do famoso edifício, tendo sua ministra, Margaret Hodges, justificado a ação por conta de que “boa parte da melhor música já feita no mundo foi feita neste lugar”. Sem dúvida, de Bach a Beatles, todos têm a Abbey Road como ponto de encontro.





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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