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Impressões de um início de temporada (1/4/2010)
Por Leonardo Martinelli

Diz o dito popular que, no Brasil, o ano só começa após o Carnaval. No caso do Brasil da música de concerto, o ditado é alçado à condição de regra, pois tradicionalmente é no mês de março que é dada a largada para a temporada clássica. Somente a partir de agora a coisa vai começar a esquentar...

Com as atividades do Rio a se iniciarem em abril de forma mais sistemática, com o municipal paulistano fechado e séries internacionais ainda por estrearem, não há dúvida de que, simbolicamente, coube à Osesp inaugurar o ano clássico brasileiro. Sob uma nova direção artística, a cargo de Arthur Nestrovski, e com a confirmação de Yan Pascal Tortelier como seu regente principal, a orquestra paulista programou para sua estreia um repertório diversificado, com obras de Mehmari, Mendelssohn, Schumann, Debussy e Schmitt, regidos por Tortelier. Na performance com altos e baixos da récita do dia 5 de março, destaque para atuação do pianista alemão Lars Vogt frente ao Concerto op. 54, de Schumann, e para a atuação de Tortelier no Prelúdio à Tarde de um fauno, de Debussy.

Melhor mesmo foi ouvir, duas semanas depois, a Osesp no programa que inaugurou o ano Mahler na Sala São Paulo. Sob a regência do inglês Justin Brown, a orquestra pode mostrar suas virtudes na Sinfonia nº 4, respondendo ao interessante itinerário de andamentos e intensidades estabelecidos por Brown. Com solos da soprano Gabriela Pace no quarto movimento da Sinfonia, a récita do dia 19 mereceu especial destaque pela bela atuação do spalla Emmanuele Baldini nos solos do segundo movimento, alternando sua interpretação entre dois violinos (um deles afinado um tom acima do normal, tal como indicado na partitura). O violino foi também o destaque no Concerto op. 14 de Samuel Barber, que precedeu a obra de Mahler, com a inspirada e fluente apresentação do violinista alemão Augustin Hadelich.

Efemérides

Numa Paulicéia sem teatros, com o Cultura Artística em reconstrução e o Municipal em reforma ad infinitum, a Sala São Paulo foi também o palco para outras comemorações previstas para este início de ano. No dia 13 de março foi dada a largada ao Ano Chopin com um concerto em que o eterno Nelson Freire maravilhou – não sem motivos – sua aficionada audiência com o Concerto nº 2 do compositor polonês, acompanhado de uma irregular performance da Orquestra Filarmônica Brasileira – imprecisão nos ataques e nas finalizações de frases, e mesmo problemas de afinação se fizeram sensíveis ao longo do programa – sob a regência de Claudio Cruz (contextualizando, a tal Filarmônica Brasileira na prática nada mais é do que a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto com um nome mais pomposo).

No mesmo palco a Orquestra Experimental de Repertório fez sua festa de 20 anos, que se estenderá por diversos concertos ao longo desta temporada. Regida por seu fundador e titular Jamil Maluf, foi um concerto marcado pela emoção de se constatar a longevidade de um projeto desta natureza, verdadeira façanha num país onde ainda se insiste em punir as boas iniciativas culturais. O programa contou também com a presença do pianista catarinense Pablo Rossi, que um pouco mais velho que a Experimental, com seus vinte e poucos anos, veio da Rússia, onde estuda, para mostrar um pouco de sua arte. Seguro, maduro, sereno, mas sem deixar de ser espontâneo, Rossi mostrou do que é (e do que ainda será) capaz de fazer à frente do elegantemente jazzístico Concerto de Gershwin.

Bem-vindos!

Das diversas novidades que 2010 nos reserva, duas tiveram seu début em março. Uma delas é a série de palestras Música na Cabeça, que a promove em parceria com o jornal O Estado de S. Paulo. A “aula magna” não poderia ter sido mais feliz, com a palestra Os Mundos de Mahler, proferida pelo professor Jorge de Almeida. Inspirado, preciso e empolgante, Almeida falou por quase duas horas sobre a obra de Mahler a uma plateia que, tal como num filme do surrealista Luis Buñuel, lotou o palco (sic) e o coro da SSP. Para quem perdeu esta oportunidade, a partir de abril a Rádio Cultura FM de São Paulo passará a difundir uma série de programas em que Almeida desenvolverá de forma mais profunda os temas pontuados na palestra.

E se a ideia era encerrar o mês de abertura com boas promessas, exatamente no último dia de março estreou no palco principal do Sesc Vila Mariana, em São Paulo, a Camerata Aberta, um especialíssimo conjunto de câmara que reúne a nata de solistas da cidade, e cujo repertório será direcionado à música contemporânea. A criação de um grupo desta natureza, contando com a estabilidade financeira e institucional propiciada pela Emesp (Escola de Música do Estado de São Paulo), é algo sem precedentes na história da música brasileira e que há muito se fazia urgente.

Sob a regência do francês Guillaume Bourgogne (que está a cargo dos primeiros concertos do grupo), a Camerata Aberta teve um programa bastante heterogêneo. De J. S. Bach a Iannis Xenakis, passando por Gérard Grisey, Marisa Rezende e Roberto Vitório, o grupo nasce com a promessa de ser o Domaine Musical dos trópicos (grupo francês fundado na década de 1950 por Pierre Boulez, em cujos programas coabitavam obras antigas e contemporâneas).

Foi espantoso constatar, não apenas a habilidade destes talentosos músicos em desembaraçar as intricadas teias de obras tão complexas, mas acima de tudo a fluída musicalidade obtida pelo conjunto numa apresentação que entusiasmou a lotada plateia do teatro.

Que venha mais 2010!





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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