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“CONCERTO” perde feio em edital de revistas culturais (6/4/2010)
Por Nelson Rubens Kunze

Confesso que me animei ao tomar conhecimento, em setembro do ano passado, de um edital do Ministério da Cultura com o sugestivo título de “Periódicos de Conteúdo Mais Cultura”. Por meio dele, o Ministério da Cultura compraria sete mil assinaturas de quatro publicações que, conforme o texto, desenvolvessem “conteúdo de Cultura, Sociedade, Artes, Política e Economia, com ênfase mínima de 35% da publicação para Cultura e Artes”. O edital parecia feito para a Revista CONCERTO, todas as exigências se encaixavam perfeitamente, desde o foco cultural, passando pela difusão da diversidade até os compromissos socioambientais.

Questionei-me se seria possível encontrar no Brasil quatro publicações de cultura que atendessem aquelas solicitações. Lembrei da Cult, sem dúvida, da Bravo!, da Editora Abril. Esta, pensei, talvez não se interessasse, pois o preço da assinatura não poderia ultrapassar R$ 75. E quem mais? Que outra publicação cultural brasileira poderia atestar funcionamento regular há pelo menos dois anos, com uma editora estruturada com venda de assinaturas?

Pois já foi para mim uma grande surpresa tomar conhecimento de que 60 publicações do gênero tivessem se inscrito no concurso. Nosso país é realmente uma surpresa, imaginei. Move-se dentro dele uma imensa massa cultural subterrânea, que sem dúvida merece ser oxigenada e cultivada...

Não era bem isso. A divulgação de uma primeira lista com 26 publicações habilitadas para a fase de seleção do edital já mostrava que aquilo que se denominava “periódicos de conteúdo cultural” não era propriamente “revistas de cultura”, ou pelo menos não em sua maioria. Mas a Revista CONCERTO ainda estava lá, concorrendo na final.

Finalmente em 25 de março, o Ministério da Cultura divulgou o resultado de seu edital de “Periódicos de Conteúdo Mais Cultura”. Em um ato surpreendente até, o MinC reservou, não R$ 2,1 milhões como previsto, mas R$ 4,1 milhões, selecionando nove publicações que serão compradas para “ampliar a capilaridade de periódicos de conteúdo cultural”. São elas: Brasileiros, Cult, Viração, Rolling Stone, Raça Brasil, Piauí, Carta Escola, Jornal Rascunho e Fórum Outro Mundo em Debate.

Não conheço todas elas, mas serão, sem dúvida, publicações de alta qualidade. Mas quais efetivamente são periódicos culturais? Ou “periódicos de conteúdo mais cultura” como quer o MinC? Conheço a Cult e coloco fé nesta chamada Jornal Rascunho, da Editora Letras e Livros. Tem também a Viração, do bonito projeto da Associação de Apoio às Meninas e Meninos da Região da Sé. Vá lá que aceitemos a Rolling Stone com Pedro Bial escovando os dentes. Mas Raça Brasil? Carta Escola? Fórum Outro Mundo em Debate? As ótimas Brasileiros e Piauí? Peraí... não era revista de cultura? Ou pelo menos revista com 35% de cultura?

Pois a Revista CONCERTO perdeu feio! Dos 50 pontos possíveis, nem alcançou a nota mínima de 25, ficando com constrangedores 17 pontinhos... Longe, bem longe da Brasileiros (45,5 pontos), da Cult (43,5) ou da Viração (40,0), as três primeiras colocadas. [Clique aqui para conferir os resultados na página do MinC.]

Voltei ao edital para rever suas condições e conferir os seus quatro critérios de avaliação: 1) Proposta editorial (até 20 pontos); 2) Qualidade estética (até 10 pontos); 3) Compromisso socioambiental (até 10 pontos); e 4) Repercussão (também até 10 pontos). Creio que apresentamos uma proposta tecnicamente correta, mas, conforme prevê o edital, interpus recurso, alegando que alguns pontos de nossa proposta podem não ter sido apresentados de maneira suficientemente clara. Afinal, a Revista CONCERTO é a publicação cultural mais antiga do país, circula ininterruptamente desde 1995 e está em sua 160ª edição. Ela não é 35% de cultura, é 100%! Somos lidos por toda a comunidade da música clássica nacional (algo entre 20 e 30 mil leitores), inclusive importantes autoridades do mundo da cultura. Gosto de repetir que emitimos nota fiscal, pagamos nossos impostos e remuneramos todos os envolvidos na produção da publicação. Há mais de 10 anos somos uma “Empresa Amiga da Criança” filiada à Fundação Abrinq. Além disso, a Revista CONCERTO é impressa em papel com a certificação FSC, mais rigoroso selo internacional de garantia de sustentabilidade ambiental (poucas publicações no Brasil já se adequaram a esse compromisso).

Sem querer me furtar de minha responsabilidade (ou incompetência), fico aqui me perguntando se a avaliação da Revista CONCERTO nesse edital do Ministério da Cultura não é também reflexo da própria condição de marginalidade da música clássica dentro da cena cultural brasileira. Acho que foi o compositor Gilberto Mendes que, há muitos anos, já reclamava de uma confusão recorrente. Ele dizia que, no Brasil, quando se fala de música contemporânea, os intelectuais entendem Caetano Veloso ou Chico Buarque – ótimos, claro, mas outro departamento.

Espero que a volta da obrigatoriedade do ensino musical no currículo fundamental possa contribuir também para que consigamos ter a música erudita como vetor cultural determinante, bem como para a ampliação do universo daqueles que compreendem a importância e o valor desse patrimônio universal.

De nossa parte, seguiremos empenhados em fazer a Revista CONCERTO cada vez melhor e para um número cada vez maior de pessoas. Um dia a gente chega lá!

[Comentários e opiniões são bem-vindos e podem ser enviados para o e-mail cartas@concerto.com.br]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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