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Beethoven, líder de Los Angeles (22/4/2010)
Por Leonardo Martinelli

É com esta frase nonsense que o filme O solista estabelece seu mote. Estreado em 2009, depois de uma tímida carreira nos cinemas brasileiros, o filme encontra-se agora disponível em DVD. Dirigido por John Wright (que também dirigiu Orgulho e preconceito), é estrelado por Robert Downey Jr. (no papel do jornalista Steve Lopez) e Jamie Foxx, que após uma excepcional atuação como Ray Charles (papel que lhe rendeu o Oscar de melhor ator) volta encarnar de forma arrebatadora a pele de um músico.

Porém, em O solista, o músico em questão não é um músico “comum”. Trata-se de Nathaniel Ayers, um morador de rua de Los Angeles cujo passado carrega a promessa de uma brilhante carreira como violoncelista que, no entanto, é interrompida a partir do agravamento de sua esquizofrenia. Ao perceber-se num ‘beco sem saída’, Nathaniel abandona o curso na Juilliard School, em Nova York (uma das principais escolas de música do mundo) e perambula pela América até, por fim, se estabelecer na caótica Los Angeles, onde passa o dia tocando num violino com apenas duas cordas nas praças e túneis da megalópole, parecendo não se importar com o barulho do entorno. Um dia, o repórter Lopez cruza-lhe o caminho e, intrigado com um tipo tão exótico – negro, violinista clássico e morador de rua –, enxerga em Nathaniel uma grande história para sua coluna no jornal L.A. Times. Ao mesmo tempo, passa a ajudar o músico, na medida em que a história é divulgada mundo afora.

Jamie Foxx e Robert Downey Jr em cena do filme 'O Solista'.

Até aí temos uma sinopse de um belo conto de fadas pós-moderno, não fosse por dois fatos: trata-se de uma história real e seus protagonistas estão vivos e atuantes nas ruas de Los Angeles. Dois, não há happy end. Por mais ajuda que possa receber, por mais que o poder da música encante, emocione e transforme, Nathaniel não se cura, se sabota, e está condenado a esta existência.

Talvez justamente por sua sandice e seu singular relacionamento com a realidade é que Nathaniel seja capaz de ter um entendimento simples, mas profundo da essência da música. Esta abordagem é corroborada em diversos diálogos ao longo do filme, baseado no livro homônimo escrito pelo Steve Lopez real e nas conversas que os produtores e a roteirista Susannah Grant tiveram com o verdadeiro Nathaniel.

Eis algumas pérolas. Ao ouvir no carro o quarto movimento da Sinfonia nº 9 de Beethoven, Nathaniel indaga Lopez: “Sabe por que Beethoven compôs isto? Porque ele ama a música”. Sem mais delongas estéticas, sociológicas e técnicas, há força motriz mais importante para um compositor do que o amor pelo seu ofício e artesanato? “Honremos o pai e mãe, e então torçamos para que a música tome conta de si própria”, que não deixa de soar como uma espécie de aviso. Nos extras do DVD, os produtores relatam que certa vez perguntaram a Nathaniel se ele não se incomodava com o barulho dos carros quando tocava nos tumultuados túneis de L.A., ao que ele respondeu: “Eu só ouço a música, e depois recebo os aplausos do bater de asas das pombas”.

Maluco beleza, ou apenas um romântico inveterado?

PS: Repare no ótimo trabalho de “dublagem” instrumental de Jamie Foxx ao violino e ao violoncelo. Com formação de piano clássico (fundamental para seu trabalho como Ray Charles), Foxx passou por um período de aprendizagem em instrumentos de cordas para conferir verossimilhança às cenas. Uma verdadeira lição aos produtores e diretores de cinema e TV brasileiros, que quando se metem a colocar algum ator como músico invariavelmente proporcionam cenas musicalmente constrangedoras e infantis.





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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