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Cláudio Cruz celebra 20 anos como spalla da Osesp (27/4/2010)
Por Camila Frésca

Foi grande a concorrência para assistir ao programa da Osesp nos dias 22, 23 e 24 deste mês. E foi provavelmente a junção de vários fatores a responsável por isso: o programa trazia uma estreia mundial (o Concerto para violino, de Ronaldo Miranda); uma grande e popular obra do repertório (a "Titã" de Mahler); a volta de Roberto Minczuk, que não subia ao pódio da Osesp desde 2005, quando ainda exercia o posto de regente adjunto; e uma homenagem a Cláudio Cruz, por seus 20 anos como spalla da orquestra.

Cláudio Cruz ingressou no grupo com apenas 23 anos, já para ocupar o posto de spalla, e na entrevista que acompanha o programa de concerto de abril da Osesp ele revela que foi praticamente intimado por Eleazar de Carvalho para assumi-lo, enquanto estudava nos EUA com Kenneth Goldsmith. "Quando cheguei, houve protesto dos mais velhos, achavam que eu não estava pronto para o cargo", conta. Poucos meses depois, no entanto, tal desconfiança já estava superada. Cláudio trabalhou com Eleazar até o falecimento do maestro em 1996, e passou incólume pela reviravolta iniciada na orquestra com a chegada de John Neschling. Ao contrário, a qualidade artística e seriedade de seu trabalho garantiram-lhe mais prestígio, respeito e visibilidade, à medida que a orquestra também era mais valorizada.

Capa do CD comemorativo recém-lançado pela Osesp, tendo Cláudio Cruz como solista.Paralelamente ao trabalho com a orquestra, Cláudio Cruz desenvolveu carreira como solista e camerista, com destaque para seus trabalhos como diretor musical da Orquestra de Câmara Villa-Lobos, com a qual gravou três CDs, e como primeiro violino do Quarteto Amazônia, registrando obras de Villa-Lobos, Lorenzo Fernandez e Alexandre Levy, entre outros brasileiros, bem como tangos de Piazzolla, num disco que rendeu ao grupo o Grammy Latino em 2002. Sua discografia é bastante extensa e há ainda importantes incursões como solista no Brasil e no exterior, mas talvez seja seu perfil um tanto austero que faça com que essas realizações não sejam tão divulgadas.

Na última década, o brilhante trabalho como instrumentista tem sido compartilhado com o de maestro. Cláudio conta, na mesma entrevista, que a regência tem sido sua principal ocupação nos últimos 12 anos. "Até passei a tocar menos como solista, pois para concertos grandes, como o de Tchaikovsky, são três meses da vida em que o violino vira um sacerdócio. Quatro, cinco horas por dia de estudo, acordar de madrugada..." Hoje ele é regente titular da Sinfônica de Ribeirão Preto, além de se apresentar como maestro convidado por todo o Brasil, incluindo a própria Osesp. "É muito gostoso, depois de estudar quatro horas de violino, pegar a Quarta de Mahler e imaginar como montar esta grande obra. A regência é um grande prazer."

Embora o prazer da regência ocupe cada vez mais o tempo e a carreira de Cláudio, felizmente ele não abandonou o violino, e o programa comemorativo mostrou que o instrumentista continua em ótima forma. O Concerto de Ronaldo Miranda, encomendado pela Osesp e dedicado ao violinista, foi interpretado com enorme beleza, fluidez e naturalidade, como se fosse uma obra antiga com a qual ele tivesse grande intimidade. A homenagem a Cláudio incluiu, além de sua performance como solista de uma estreia mundial, o lançamento de um CD (o primeiro pelo recém-criado Selo Osesp) em que ele também sola, dessa vez em obras consagradas para o instrumento: os concertos para violino de Tchaikovsky e Bruckner. A boa notícia é que este disco está sendo distribuído livremente para download no site da própria Osesp (em www.osesp.art.br/podcast/), incluindo capa e encarte, que traz a integral da entrevista aqui utilizada.

Vale ainda reproduzir, para terminar este texto, algumas palavras de Cláudio Cruz sobre si mesmo: "Sou filho de um luthier, não fui agraciado com bolsas de estudos, casei cedo, tive três filhos; não tive uma vida muito fácil, mas nunca deixei de estudar, não abandonei o sonho. Tocava em tudo quanto é orquestra e restaurante, até as três horas da manhã, juntava dinheiro e ia para os EUA estudar. Mesmo depois de estabilizado profissionalmente como violinista, ainda fui atrás de aprender a reger. Agora, estou louco para gravar isso, gravar aquilo, tenho muitos concertos para fazer. Então, acho que sou uma pessoa determinada. Essa força que recebo é o traço mais importante da minha personalidade".





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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