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Municipal do Rio em “soft opening” (17/5/2010)
Por Irineu Franco Perpetuo

Enquanto o Teatro Municipal de São Paulo não dá sinal de vida, o do Rio de Janeiro inventou o curioso conceito de “soft opening”. 20% de desconto nos ingressos, salões fechados, sinais visíveis de reformas por todos os lados: na prática, a casa ainda está em obras, embora já receba concertos e espetáculos de balé. A abertura de verdade está prometida para 29 de maio, com a ópera Il Trovatore, de Verdi.

Foi nesse clima de “soft opening” que a Orquestra Sinfônica Brasileira - OSB fez, no dia 8 de maio, um sábado à tarde, a abertura de sua temporada 2010. Como estão sendo festejados os 70 anos da orquestra, a programação está cheia de reminiscências. Foi o caso deste concerto, "Carnaval dos Pianistas", com seis instrumentos no palco, voltados de costas para o público, para tocar o Hexameron, de Liszt, evocando evento de 1979.

Para os que somos de São Paulo, tal recordação tem caráter tragicômico, já que, naquela época, o programa foi trazido para cá, com modificações na lista de solistas: ao lado de Nelson Freire, Arthur Moreira Lima, Jacques Klein, Antônio Guedes Barbosa e João Carlos Martins, figurava o nome do então governador de São Paulo, Paulo Maluf. O evento virou LP...

Mas desta vez, felizmente, ninguém teve a ideia de bajular algum político de plantão. João Carlos Martins atacou de regente, pianista e mestre de cerimônias, falando longamente ao microfone e apresentado seus colegas de palco: Arthur Moreira Lima, Fernando Lopes, Gilberto Tinetti, Jean Louis Steuerman e José Feghali.

O programa começou com um achado e um desastre. O achado foi a bela transcrição para orquestra de Leopold Stokowski para Jesus, alegria dos Homens, de Bach. E o desastre foi o Concerto para quatro pianos BWV 1065, do mesmo compositor, que não parecia ensaiado, e no qual estiveram completamente desencontrados a orquestra e os pianos de Lima, Lopes, Tinetti e Feghali.

O constrangimento se desfez rapidamente com o Carnaval dos animais, de Saint-Saëns, graças a uma execução cheia de brilho e senso de estilo de Feghali e Steuerman. E, depois do intervalo, cada um dos tecladistas tocou um item solo de Chopin.

Arrumar seis pianos é tarefa difícil em qualquer cidade brasileira, e aqueles que estavam no palco do Municipal carioca revelaram ser especialmente desiguais. Tinetti parece ter sido “brindado” com o pior deles e, contudo, realizou uma execução elegante e poética da Valsa op. 69 nº 1. Lima, em contraste, levou seu próprio piano, um bom instrumento que, contudo, não salvou uma interpretação cheia de notas erradas da Valsa brilhante – op. 18.

O item que todos tinham ido ao Municipal para ver, contudo, era o Hexameron, curiosa composição colaborativa para seis pianos e orquestra na qual Liszt teve a parte do leão, mas para com a qual contribuíram também Chopin, Czerny, Thalberg, Pixis e Hertz.

Ali, Moreira Lima apagou a má impressão deixada pela valsa de Chopin, com uma execução cheia de brio, caráter, personalidade e volume sonoro. Embora tenham tido apenas uma ocasião de ensaiar no palco do Municipal com uma OSB que, nessa obra, acabou regida por Marcos Arakaki, pode-se dizer que todos os pianistas se saíram bem na peça. Constituiu especial surpresa ver Tinetti – normalmente associado às sutilezas do classicismo germânico e da música de câmara – à vontade com o pianismo extrovertido e bombástico dessas variações sobre um tema da ópera I Puritani, de Bellini.

De qualquer forma, foi bom ver o lindo Municipal do Rio de Janeiro de volta à ativa, e como centro dinâmico da vida musical da Cidade Maravilhosa. Será que algum dia poderemos dizer o mesmo de seu coirmão paulista?





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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