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Abram alas para Schumann, ele também sopra velinhas em 2010 (1/6/2010)
Por João Marcos Coelho

Estou sinceramente preocupado com a saúde de quem gosta de música clássica. Eu, pelo menos, sinto-me intoxicado de Chopin. E, quando olho ao meu redor, vejo todo mundo também meio enfadado com tamanha overdose. Nos concertos, no rádio, em lançamentos de CDs, nas revistas especializadas europeias – para onde me viro, só dá Chopin.

Que o polonês romântico é genial, ninguém discute. Agora, assistir várias vezes os dois concertos para piano, os estudos, as mazurcas, os prelúdios, as valsas, as polonaises... Será que não há um espacinho, pequenino que seja, para Schumann, que também completa seus 200 anos em 2010? Mais precisamente, na semana que vem, dia 8 próximo?

Nem a overdose de Chopin nem o recalque com Schumann são justos. O primeiro, porque não há música, por melhor que seja, capaz de resistir a índices tão elevados de execuções; o segundo, porque é preciso descobrir um mundo inteiro na música de Schumann fora dos clichês que de novo começam a freqüentar nossos ouvidos.

Nenhum outro compositor encarnou tanto o ideal romântico. A história de sua vida e a sua criação musical estão inteiras em seu diário, conhecido como “Tagebuch”. O artista de gênio desnuda-se diante de um mundo que não o compreende, afirma sua diferença e finalmente destrói-se por não suportar as dores deste mundo. “O que os homens não podem me dar”, escreve, “a música me dá; todos os elevados sentimentos que eu não consigo traduzir, o piano os diz para mim”.  Ele possuía tanta consciência de que sua vida espelhava-se em sua arte que, a um amigo que reclamou com ele por não escrever-lhe durante muito tempo, Robert respondeu: “Mas você pode ficar sabendo de tudo que me aconteceu se ouvir minhas composições”.

“O romantismo não está só na forma; se o compositor for poeta, ele também irá expressar-se como tal. Um dia, vou provar tudo isso a você [Clara] com minhas Cenas infantis”. Pois justamente a derradeira das peças curtíssimas deste ciclo leva o título Der Dichter spricht, ou O poeta fala. Ele se vê, assim, como um poeta, um poeta dos sons, expressão que Beethoven também utilizara poucos anos antes.

Numa geração em que a figura de Beethoven era monopolista, Schumann enxergava em Schubert seu guru. E não só no lied como na produção pianística. Impossível não reconhecer a genialidade absoluta de ciclos como Kreisleriana, Cenas infantis, Estudos sinfônicos ou a sonata apelidada Concerto sem orquestra.

Este é o Schumann mais conhecido. Uma parte da música de câmara freqüenta os concertos, como o Quarteto e o Quinteto com piano, além do Concerto para piano.

Outra parte importante de sua obra, no entanto, permanece inexplicavelmente no limbo. É o caso da música sinfônica, coral-sinfônica, muito da música de câmara e as obras dos seus últimos anos. Brahms adorava a música incidental para Manfredo e as Cenas do Fausto de Goethe e dizia que elas são “as obras mais magnificentes de Schumann”. Principalmente a última é praticamente desconhecida hoje. E Liszt concordava com Brahms em gênero, número e grau. Também achava Schumann moderno por causa de sua música sinfônica e para coro e orquestra.

Pra vocês verem como são as coisas. Ano passado, para comemorar os 80 anos do maestro austríaco Nikolaus Harnoncourt – campeão da música historicamente informada e responsável talvez pelo mais belo ciclo das nove sinfonias de Beethoven –, deu-se muito destaque à sua decisão inesperada de gravar um clássico popular e não-europeu como a ópera negra Porgy and Bess, de George Gerswhin. O mundo inteiro ficou sabendo disso, tamanho o alarde. Com justiça, aliás, já que o registro é antológico.

Mas esquecemos todos de outra gravação, quem sabe mais importante, que Harnoncourt também fez para comemorar suas oito décadas de vida: as Cenas do Fausto de Goethe, de Schumann, com solistas, coro e Orquestra do Concertgebouw de Amsterdã. Um álbum duplo precioso, captado ao vivo em abril de 2008, foi lançado no final do ano passado pelo selo RCO Live, da própria orquestra. As gravações anteriores são apenas duas: em 1995, a de Claudio Abbado; e em 2002 a de Pierre Boulez – impossíveis de se encontrar, talvez em download. Este tipo de empreitada, sim, é importante – e não gravar pela milionésima vez os concertos para piano de Chopin, ou suas polonaises, ou suas mazurcas, etc.,etc. Nada contra o polonês – mas ele não é o único a fazer aniversário, afinal de contas. Abram alas para Schumann, por favor.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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