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Cia. Brasileira de Ópera estreia com “O barbeiro de Sevilha” (28/6/2010)
Por Nelson Rubens Kunze

Estreou na quinta-feira, dia 24, no Palácio das Artes de Belo Horizonte, a ópera O barbeiro de Sevilha, de Gioachino Rossini, primeira produção da Companhia Brasileira de Ópera, novo projeto do maestro John Neschling. Para dizer logo, é um Barbeiro delicioso, de qualidade musical superior, aquele tipo de espetáculo que você gostaria que todos os seus amigos assistissem.

A ideia da Companhia Brasileira de Ópera é simples: criar produções itinerantes de títulos líricos para a apresentação em diversas cidades do país. “Vamos levar ópera para cidades que nunca, ou quase nunca, viram uma ópera dessa qualidade. Serão quinze cidades de todo Brasil, como Recife, Salvador, Manaus e João Pessoa”, disse John Neschling. O patrocínio dessa primeira montagem veio do próprio Ministério da Cultura – uma novidade bem-vinda, já que configura o investimento direto do Estado por meio de seu Fundo Nacional de Cultura –, e da Ourocard e da Petrobras, por meio das leis de incentivo à cultura.

José Roberto Walker, produtor executivo, e John Neschling escolheram alguns dos melhores profissionais para auxiliá-los na empreitada: o maestro Victor Hugo Toro, ex-assistente de Neschling na Osesp, assumiu a assistência da direção artística também nesse projeto; o maestro Abel Rocha é o responsável pela direção de vozes; Mauro Wrona e Walter Neiva são os diretores de cena residentes.

A original montagem desse Barbeiro substitui cenários convencionais por uma animação projetada sobre uma grande tela dependurada no palco. Os cantores interagem com o desenho animado, criado pelo artista norte-americano Joshua Held, que acompanha com muito humor as diversas situações do enredo. Se por um lado essa foi a solução encontrada para permitir a rápida montagem do espetáculo nos mais diversos palcos – e assim garantir a “itinerância” pretendida – por outro serviu também para desenvolver uma linguagem mais direta, por meios visuais, apropriada para um novo público que não fosse aquele tradicional frequentador de teatros de ópera. A direção cênica coube ao ítalo-brasileiro Pier Francesco Maestrini, que conduziu a ópera e a atuação dos cantores em perfeito entrosamento com a projeção.

O espetáculo se inicia com o telão mostrando Rossini deitado em sua cama, desfrutando de boa comida e de bom vinho, fazendo rascunhos para uma nova ópera. Subitamente lhe vem a inspiração e as páginas são escritas, uma após a outra. Quando o maestro sobe ao pódio para começar o espetáculo, o spalla se levanta e exclama: “Mas maestro, não temos partituras!” Neschling vira-se para Rossini e reclama: “Rossini, cadê as partituras?” Rossini ergue os olhos surpreso, junta as folhas espalhadas sobre a cama, levanta-se e vai até o palco, onde se encontra com o maestro para lhe passar a partitura. Neschling distribui as partes para a orquestra, retorna ao pódio e finalmente a ópera pode começar.

O barbeiro de Sevilha da Companhia Brasileira de Ópera apresentou um resultado musical homogêneo e de alto nível. Sob direção do maestro John Neschling, solistas, orquestra e coro articularam-se de forma natural em andamentos adequados e com apurado senso de estilo.

O elenco escolhido para a estreia foi muito bem. Leonardo Neiva fez Figaro (uma boa atuação que, contudo, ainda deve crescer nas próximas apresentações), o barbeiro que arma as estratégias para que o Conde D’Almaviva (o excelente tenor Luciano Botelho) possa se aproximar de sua amada Rosina (a italiana Anna Pennisi, de voz bonita e clara e interpretação sensível). Pepes do Valle personificou o tutor Bartolo e mostrou novamente que é um ótimo cantor e ator. O mesmo equilíbrio vocal e cênico foi exibido por Gianluca Breda (Basilio), Luisa Kurtz (Berta) e Guilherme Rosa (como Fiorello), bem como pelo coro do Collegium Musicum.

Foi excelente também o desempenho da orquestra formada para a ocasião. A ideia é de que se constitua um grupo estável, mas nessa primeira fase do trabalho os músicos estarão compromissados etapa por etapa (esse mesmo grupo se apresentará ainda em Porto Alegre, ali sob direção do maestro convidade Yoram David).

São três horas de um espetáculo que prende a atenção e apresenta a linda e rica música de Rossini. A montagem é consistente, sabe ser original em sua linguagem sem fazer concessões ao valor artístico e histórico da obra. Essa produção de O barbeiro de Sevilha é contemporânea, tem grande comunicação e é de qualidade musical irretocável.

Se você mora em uma das cidades que serão visitadas por esse Barbeiro de Sevilha, não perca! É, para aproveitar o clima de Copa do Mundo, um golaço, um verdadeiro gol de placa.

Vida longa à Companhia Brasileira de Ópera!

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belo Horizonte e assistiu à estreia de O barbeiro de Sevilha a convite da Companhia Brasileira de Ópera.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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