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Maria João Pires e Antonio Meneses: o duo deu muito certo! (12/7/2010)
Por Irineu Franco Perpetuo

O Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão testemunhou o nascimento de um duo que tem tudo para causar furor no cenário internacional da música de concerto. O violoncelo de Antonio Meneses e o piano de Maria João Pires protagonizaram um diálogo musical dos mais refinados e expressivos - daqueles que a gente torce para que continue indefinidamente.

Como se sabe, tudo começou meio por acaso - Meneses tinha inicialmente previsto tocar por aqui as sonatas de Beethoven com seu venerando parceiro de Beaux Arts Trio, Menahem Pressler, com o qual fez uma bela gravação deste repertório.

Só que o octagenário pianista acabou não podendo vir ao Brasil, e as circunstâncias acabaram fazendo com que o violoncelista pernambucano radicado na Suíça acabasse se apresentando ao lado da pianista portuguesa radicada na Bahia.

Maria João Pires e Antonio Meneses. [Foto: divulgação / Ênio Cesar - Agência F8]

Cada um mostrou um item solo: Meneses executou apolineamente a terceira suíte de Bach, enquanto Pires nos brindou com uma leitura absolutamente transcendental da Sonata Tempestade, de Beethoven, empregando uma paleta de cores e uma variedade aparentemente ilimitada de nuanças de dinâmica para dar conta da força retórica e da expressividade da magistral criação do mestre de Bonn.

Emocionante, mas, enfim, pela qualidade de cada um deles, não era lícito esperar menos. A dúvida era como funcionaria a comunicação entre ambos, já que, em música de câmara, o talento individual não é por si só garantia de um verdadeiro diálogo.

A carreira de Meneses, por sinal, tem exemplos eloquentes disso. Ao lado pianistas como Pressler e Cristina Ortiz, por exemplo, ele fez música do mais alto nível. Por outro lado, sua tentativa de duo com Nelson Freire, em 98, não foi adiante - muito embora o talento de ambos os músicos envolvidos não tenha como ser posto em questão.

O fato é que, essa vez, o duo funcionou - e muito. Desde a primeira frase da primeira obra do programa de sexta-feira, dia 9, na Sala São Paulo - a Sonata Op. 5 nº 2 de Beethoven - estava bem claro que os dois intérpretes falavam a mesma língua. Ali, como na Sonata Op. 69, do mesmo compositor, testemunhamos um diálogo musical refinado, de alta classe, em que as sonoridades e os fraseados se fundiam e complementavam continuamente.

Agora, já circula a história de que Maria João Pires vai estudar a integral das sonatas para piano e violoncelo de Beethoven, com o intuito de registrá-las com Meneses para a Deutsche Grammophon. Vale torcer para que isso seja verdade, e para que essa deliciosa conversa musical continue acontecendo por muito tempo.





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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