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Amazônia estreia em Munique (24/8/2010)
Por Klaus Billand

O jornalista Klaus Billand assisitiu à ópera Amazônia – uma coprodução da Bienal de Munique com o Goethe-Institut, o ZKM Centro de Arte e Mídia de Karlsruhe, o Sesc São Paulo, a Hutukara Associação Yanomami e o Teatro Nacional São Carlos de Lisboa – na estreia da XII Bienal de Munique, em maio

Com a estreia de Amazônia – Teatro música em três partes, a Bienal de Munique deste ano focou esta imensa região do planeta, repleta de mitos e lendas com seus pajés e deuses, que é perigosa e bonita ao mesmo tempo, mas nunca completamente compreensível para o europeu. O projeto foi realizado com o apoio da Comissão Europeia e em estreita parceria com os índios Yanomami, e pretende amalgamar em um todo artístico teatro musical, arte midiática, cosmologia indígena e os conhecimentos científicos atuais.


Imagem de Amazonia [Foto: divulgação / Regine Koernerbiennale]

Em três partes artisticamente independentes, Amazônia pretende trazer ao público o drama climático, político e cultural que a região enfrenta, e assim contribuir para a sensibilização dessa problemática. Especialistas e artistas alemães e brasileiros trabalharam em forte união, como os compositores Klaus Schedl (Munique) e Tato Taborda (Rio de Janeiro), os artistas midiáticos Peter Weibel (Karlsruhe) e José Wagner Garcia (São Paulo), o índio Davi Kopenawa Yanomami (Watoriki) e o antropólogo Bruce Albert (Paris/São Paulo). A concepção geral do projeto foi dada pelos sociólogos Laymert Garcia dos Santos (São Paulo) e Peter Weibel. A direção das partes 1 e 2 coube a Michael Scheidl (Viena); ideia, texto e encenação da parte 3 a Peter Weibel do ZKM Centro de Arte e Mídia de Karlsruhe. Os compositores Klaus Schedl, Tato Taborda e Ludger Brümmer criaram suas obras independentemente um do outro. Roland Quitt (Mannheim) escreveu o libreto e realizou a dramaturgia para as partes 1 e 2.

Na primeira parte, Tilt, uma composição encomendada pela cidade de Munique, Klaus Schedl e Michael Scheidl querem mostrar a destruição e os mecanismos que estão inescapavelmente ligados a ela. A obra é baseada na reportagem de expedição de Walter Raleigh, do ano de 1595, “The discoverie of the large rich and bewtiful empire of Guiana”, adaptada por Roland Quitt. Durante a hora de duração do espetáculo, encaramos constantemente três rostos atrás de três grandes monitores, algumas vezes de forma distante e difusa, outras vezes próximas e plásticas. São Mafalda de Lemos, Moritz
Eggert e Christian Kesten, que expressam – com as mais diversas expressões faciais; normalmente, contudo, tensas e nervosas, o pensamento de superioridade típico do colonialismo europeu bem como a arrogância do conquistador. Schedl não se utiliza do procedimento composicional clássico comum, mas procura tornar fisicamente perceptível a “sujeira e o impulso destrutivo do vício” (Schedl) pela expansão e pelo ouro. Para isso, ele constrói, com técnica digital, “montanhas de lixo” sonoras. Essas, de fato, são impressionantes, também no que diz respeito ao volume. A peça termina em uma orgia vidiática ensurdecedora, que, no entanto, não nos deixa esquecer, que os sons na floresta virgem são normalmente em volume bem mais baixo...

Os sons foram bem mais sutis na parte 2 do espetáculo. A peça concebida por Tato Taborda e Roland Quitt, A queda do céu, é baseada fundamentalmente em conversas com a população local dos Yanomami e de seus pajés. Para eles, a floresta é o mundo inteiro, ela provê tudo de que necessitam. E não faz sentido diferenciar entre floresta e mundo. Quando a floresta morre, acaba o mundo, o céu cai – daí o título da obra –, e como consequência também o homem expira. O que isso significa, Taborda (que recebeu a encomenda do Sesc e da cidade de Munique), Quitt, o diretor Michael Scheidl e a cenógrafa e figurinista Nora Scheidl encenaram de uma maneira opticamente impressionante e dramaturgicamente muito feliz.

A música, que também aqui não apresenta linhas melódicas tradicionais, tem um efeito bem mais forte e convincente do que em Tilt, uma vez que ela também é mesclada com sons autênticos ricamente matizados da selva, que funcionam como uma linguagem da natureza. Isso, em conjunto com a crítica da colonização, a equipe logrou representar de modo muito bom e emocionante.

Resultou ao mesmo tempo impressionante e decepcionante a parte 3 da ópera, sob o título pouco convencional Conferência Amazonas. Na espera pela utilidade de um método racional para a solução do problema climático. Peter Weibel tenta aqui atualizar, por meio de novos recursos, a tradição da ópera, que para ele foi sempre uma arte multimídia, isto é, a combinação de imagem e movimento, do teatro e da música, o entrelaçamento da técnica moderna com o conteúdo, a música, o texto e a imagem. Essa interação é realizada por meio de novas mídias audiovisuais. Ao usar o computador como meio universal para luz, imagem e som, ele consegue criar uma ópera sem músicos. O computador, portanto, assume o papel do músico. Na primeira cena, intitulada Paraíso, nove vozes são dobradas por oito sons instrumentais eletronicamente sintetizados (de diferentes instrumentos), em uma síntese com outras mídias, para corporificar o floresta, e assim dar voz ao Yanomami. Weibel e Brümmer chamam essa música de “composição molecular”. De fato, ela é fascinante e em algumas passagens arrebatadora. Com o auxílio de uma cúpula sonora de 24 caixas acústicas, os sons se concentram sobre o público, de tal modo que se tem a impressão de estar sentado sob um telhado formado pelas imensas árvores da floresta virgem, percebendo a vida nesse espaço com todas suas amplificadas facetas sonoras e musicais.

A segunda cena, que leva o título Conferência Amazonas, perde, em comparação, toda tensão. A qualidade aqui também fica comprometida pelos comentários e soluções propostas pelos conferencistas para os problemas da floresta tropical, todos exageradamente simplistas e marcados ideologicamente. Já há modelos de como aliar a vida indígena em harmonia com a natureza com uma exploração econômica racional e ecológica. Assim, a proposta aqui já parte de uma premissa falsa. Já na terceira cena, intitulada Entropia, é apresentado um final apocalíptico para a Amazônia. Inicia-se a espera pela catástrofe – não adianta buscar uma solução definitiva, que contemple todos os interesses....





Klaus Billand - é jornalista da revista de ópera austríaca Der Neue Merker, de Viena. (www.klaus-billand.com)

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