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Heller-Lopes faz Tosca em Salzburg (24/8/2010)
Por Klaus Billand

André Heller-Lopes dirigiu em março uma nova montagem de Tosca de Puccini no teatro Casa de Mozart do Landestheater de Salzburg, na Áustria

O diretor brasileiro André Heller-Lopes acaba de estrear uma nova montagem de Tosca na Áustria. Já há algum tempo Heller-Lopes está em evidência, em razão de boas encenações que tem realizado de obras de diversos compositores. No Brasil, assisti Idomeneo no Rio de Janeiro e A filha do regimento, em São Paulo, duas produções muito felizes e bem-acabadas. Óperas do fim do século XIX e especialmento do verismo acabaram tornando-se a sua especialidade. Há pouco, Heller-Lopes foi nomeado diretor do programa de formação da Ópera Nacional de São Carlos, em Lisboa.


Cena da ópera Tosca, em montagem de André Heller-Lopes [Foto: divulgação / Christian Schneier]

Com essa encenação de Tosca, em conjunto com os cenários de Jürgen Kimer – relativamente simples, mas de grande efeito –, e de figurinos muito apropriados de Nicole von Graevenitz, Heller-Lopes conseguiu uma interpretação emocionante que realçou a intensidade do destino humano da protagonista. Fundamentalmente, ele liberou a obra da muitas vezes exagerada temática religiosa, apresentando-a em um plano político mais direto e compreensível. Heller-Lopes e Kimer trabalharam, com uma excelente direção de iluminação, com fortes contrastes dramatúrgicos, o que manteve a tensão durante toda a apresentação.
Uma enorme escultura do crucificado tombada sobre o palco apresenta uma constrangedora imagem de Jesus Cristo como um homem esfolado em sua dignidade, assim como Scarpia esfola seus adversários políticos, sob o manto da fé e da igreja, em vista de seus interesses de poder. Na elegante sala do chefe de polícia abre-se lentamente o piso do palco. Em um espelho, vê-se no porão sob o palco os capangas torturadores de Scarpia no “trabalho” – diretamente sob o olhar esbugalhado do crucificado. Para caracterizar oticamente o jogo de mentira e falsidade, Heller-Lopes deixou os bandidos de Scarpia subirem ao palco disfarçados, para assim deturparem as suas próprias identidades.

Heller-Lopes faz uso de máscaras quando apresenta os serviçais da missa e irmãos da ordem, o que vem de uma tradição pagã em sociedades católicas da Itália, Portugal, Espanha e Brasil. Essas máscaras lembram, entre outras coisas, imagens de nossos pesadelos. Para Heller-Lopes, as pessoas que se escondem por detrás das máscaras são “pequenos diabos, pequenos monstros de nossos sonhos e medos...” Mas ele também mostra o cinismo da igreja, que se deixa levar, com a desculpa da fé, pelos politicamente responsáveis para dentro desse turbilhão de destruição. E sempre salta à vista o grande talento de Heller-Lopes na condução dos artistas, de forma diferenciada e inteligente, no melhor espírito verista.

A Tosca vinda da África do Sul, Amanda Echalaz, não tem apenas uma grande voz com um lindo e escuro registro médio, repleto de caráter, assim como claros e potentes agudos. Ela também é muito linda. Da mesma forma intensa com a qual ela expressou a sua rejeição a Scarpia, ela demonstrou a sua paixão ciumenta e romântica, quase doentia, em relação a Cavaradossi. Este foi personificado pelo atraente Riccardo Massi. Com registro viril e seguro nos agudos ele projetou muito brilho tenoral, fazendo o pintor com grande intensidade e empatia. Seu adversário, contudo, Jason Howard, também seduziu. Com uma articulação precisa de baixo-barítono claro, ele fez um Scarpia de enorme intensidade, apresentando com muita verossimilhança o seu desejo implacável pela diva. Com Howard e os dois apaixonados criou-se um forte campo de tensão que prendeu o público. Também os papéis secundários tiveram intérpretes brilhantes. O coro, coro extra e coro infantil do Landestheater de Salzburg, que têm direção de Karl Kamper e Thomas Huber, cantaram com vozes fortes, acentuadas de acordo com os acontecimentos, e foram também coreografados da melhor maneira.

A Orquestra do Mozarteum de Salzburg, sob direção musical do maestro inglês Leo Hussain, mostrou uma rica paleta de cores e uma sonoridade orquestral muito contundente e clara. Hussain realçou com muita expressividade especialmente as passagens de extrema dramaticidade. Soube, contudo, também se retrair nos momentos de paz e introspecção. Uma noite também musicalmente memorável às margens do rio Salzach.





Klaus Billand - é jornalista da revista de ópera austríaca Der Neue Merker, de Viena. (www.klaus-billand.com)

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