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A saída de Ira Levin e a fragilidade das instituições musicais (27/8/2010)
Por Nelson Rubens Kunze

O maestro Ira Levin já não é mais diretor artístico e regente titular da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília. O escândalo de corrupção que derrubou o governador do Distrito Federal no ano passado e que envolveu diversos deputados distritais acabou acarretando a saída do maestro. Eurides Brito, uma das pessoas flagradas em vídeo colocando maços de dinheiro em sua bolsa, é também sogra do maestro Ira Levin bem como uma das principais apoiadoras da orquestra. Ao processo político juntaram-se vozes que sempre já haviam feito oposição a Ira em Brasília (com alegações duvidosas e muitas vezes discriminatórias), o que tornou a situação do maestro insustentável.


Maestro Ira Levin à frente da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional de Brasília. [Foto: divulgação]

Em junho passado, a Secretaria da Cultura já havia cancelado o convênio com a Associação de Amigos Pró-Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, que recebia as verbas públicas das emendas aprovadas na câmara e que era a contratante do maestro Ira Levin. Na época, a Secretaria de Cultura divulgou nota afirmando que “em razão de problemas políticos e burocráticos o maestro Ira Levin encontra-se impedido temporariamente de exercer a regência da OSTNCS”.

Em carta aberta, o maestro Ira Levin informa que fará o último concerto com a orquestra na próxima terça-feira, dia 31 de agosto, na condição de convidado. “A orquestra que construí nos últimos três anos e meio, e que foi considerada uma das três ou quatro principais do Brasil, com uma reputação internacional e diversos projetos em andamento, foi bagunçada pelas maquinações e oportunismo político de ano de eleição. Todos os solistas e regentes internacionais convidados até o final do ano foram cancelados”, escreve o maestro. “Já não há condições de contratar instrumentista extra, uma vez que a Associação que tornou possível todo esse trabalho (assim como a nossa singular série de concertos didáticos que apresentou música clássica para 45 mil crianças, as turnês no Brasil e para a Coreia do Sul, os maravilhosos programas de concertos, até mesmo os novos tímpanos) também foi vítima das denúncias políticas, que, no entanto, seguem sem nenhuma comprovação.”

É lamentável como se dá a saída de Ira Levin da Sinfônica de Brasília. Ele é, reconhecidamente, um dos mais brilhantes músicos em atividade no Brasil. Seu trabalho frente à Sinfônica de Brasília fez renascer a orquestra, tornando-a uma das principais do país. A era Ira Levin entrará na história como uma das mais importantes daquela sinfônica em sua história.

Para além das soluções injustas que os processos políticos muitas vezes acabam forçando, a saída de Ira Levin escancara, mais uma vez, a debilidade da estrutura de nossos órgãos culturais. Novamente é forçoso concluir que não há maneira de gerir uma orquestra sinfônica moderna pela administração pública direta. Oxalá esse episódio possa ao menos reforçar o modelo das organizações sociais ou Oscips, com seus exemplos vitoriosos como o da Fundação Osesp e mais recentemente o da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais. Quem sabe, no futuro, seja possível contratar em Brasília um maestro da envergadura de Ira Levin sem o constrangimento de ter de demiti-lo por conta das falcatruas de governadores, deputados ou outras autoridades públicas...





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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