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Ópera barroca é destaque no Royal Opera House (9/10/2010)
Por Nelson Rubens Kunze

Cansado de reinar, Anfione, rei de Tebas, decide transferir o poder para a sua esposa Niobe. Assim inicia-se o mito grego da ópera Niobe, rainha de Tebas, de Agostino Steffani, compositor nascido na Itália em 1654 e que viveu praticamente sua vida inteira na Alemanha. O regente alemão Thomas Hengelbrock, fundador e diretor do Balthasar Neumann Ensemble, grupo de música antiga, redescobriu e dirigiu a ópera Niobe no Festival de Schwetzingen, em 2008. Agora, com o mesmo grupo e diretor, a ópera é remontada em uma coprodução do Royal Opera House Covent Garden, em Londres, e do Grand Théâtre de Luxembourg.

Steffani pertenceu a uma geração anterior a Bach e Händel, contemporâneo de Corelli, Purcell e Alessandro Scarlatti. Como escreve Colin Timms no programa do espetáculo, “em muitos aspectos a criação de Steffani é típica da ópera italiana entre Cavalli e Händel, ainda que os recitativos sejam normalmente mais líricos e breves, talvez pelo fato de terem sido escritas para públicos não italianos”. Steffani desenvolveu uma destacada carreira musical, mas também atuou como diplomata e na igreja católica, na qual alcançou alta hierarquia no norte da Alemanha. O compositor faleceu em 1728.


Imagem da ópera Niobe, rainha de Tebas

O libreto da ópera, de Luigi Orlandi, baseia-se nos relatos contidos nas “Metamorfoses” de Ovídio, o poeta romano cujas sofisticadas narrativas dos mitos gregos exerceram grande influência nas artes e literatura ocidentais. Niobe, após assumir o reino, ofende os deuses e por eles é castigada com a morte dos filhos. Em sofrimento simbolizado por lágrimas incessantes, Niobe se transforma em pedra.

A montagem do ROH, dirigida pelo alemão Lukas Hemleb (o mesmo que fez a estreia de 2008), é muito boa e emocionante. Com uma linguagem moderna e ótima exploração de efeitos cênicos e de iluminação, que incluíram explosões e fogo, a montagem tem grande apelo visual. E foi ótima a realização musical do conjunto Balthasar Neumann dirigido por Hengelbrock (aliás, Hengelbrock e seu conjunto também foram vencedores da categoria “barroco vocal” do Gramophone Awards 2010, com uma gravação com obras de Bach, Lotti e Zelenka, pelo selo Deutsche Harmonia Mundi).

Interpretação de época, afinação precisa e articulações cuidadosas deram suporte a ótimos solistas vocais, entre os quais se destacaram a protagonista Véronique Gens (Niobe), Lothar Ondinus e Amanda Forsythe (fazendo o casal Tiberino e Manto) e o barítono Bruno Taddia (como Tiresia). Nas óperas barrocas há sempre um desafio natural que é o de equilibrar as potências vocais com o raro registro do contratenor. Niobe exige essa voz logo em três papeis: o rei de Tebas Anfione (o polonês Jacek Laszczkowski), Clearte, o apaixonado por Niobe (o inglês Tim Mead), e o príncipe Creonte (o também inglês Iestyn Davies). Completaram o elenco de solistas a contralto francesa Delphine Galou e o baixo Alastair Miles (Poliferno).

Niobe, rainha de Tebas mostra novamente como é rico e inexplorado e acervo lírico. E é estimulante saber que casas como o ROH – uma das principais referências mundiais – também abrem espaço para produções de títulos antigos (e também contemporâneos), o que com certeza revaloriza e cria novas perspectivas de apreciação para o repertório tradicional.

Nelson Rubens Kunze, Londres, 29 de setembro de 2010





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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