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Palácio das Artes de BH apresenta montagem paulista de “Andrea Chénier” (25/10/2010)
Por Nelson Rubens Kunze

Estreou no dia 22 de outubro passado, no Palácio das Artes de Belo Horizonte, Andrea Chénier, ópera de Umberto Giordano (1867-1948). O título inaugura uma nova parceria entre a Fundação Clóvis Salgado e o Teatro Municipal de São Paulo, com a ideia de promover o intercâmbio de produções. Assim, os cenários e os figurinos utilizados nessa nova encenação são os mesmos da montagem original de São Paulo, de 2006 (aliás, com o mesmo diretor cênico de então, André Heller-Lopes). Em troca, A menina das nuvens de Villa-Lobos, premiada montagem realizada ano passado no Palácio das Artes, fará parte da temporada lírica do centenário do Teatro Municipal de São Paulo, no ano que vem. “Queremos desenvolver essas parcerias, elas têm muito a contribuir para as temporadas brasileiras”, comentou Eliane Parreiras, presidente da Fundação Clóvis Salgado. “Estamos em contato com São Paulo, com o Rio de Janeiro e com Manaus, e queremos fazer muita coisa juntos.” A ideia de parcerias operísticas tem sido perseguida há muitos anos, mas esbarra nas diferentes realidades de cada teatro, em suas estruturas de funcionamento, seus recursos e certamente também na veleidade e nos interesses de alguns de seus diretores. Assim, cada produção que se leva a cabo sob essa bandeira, como é o caso desse Andrea Chénier, deve ser comemorada como mais um importante passo para a consolidação desse ideal.

Foi boa a remontagem mineira de Andrea Chénier. Foi correta e funcional a direção cênica de Andre Heller-Lopes, que com seus trabalhos sempre demonstra grande habilidade para soluções criativas, muitas vezes “modernas”, sem prejuízo da contextualização histórica. De concepção simples – mas bonitos e eficientes – os cenários oferecem uma boa moldura para a narrativa da vida de Andrea Chénier, poeta francês que realmente existiu – nasceu em 1762 e foi executado durante a Revolução Francesa, em 1794. Na ópera de Giordano, que segue o libreto de Luigi Illica, Chénier é um poeta popular que frequenta as altas rodas da elite francesa e é convidado a unir-se ao movimento revolucionário. Chénier, contudo, se apaixona por Maddalena, uma jovem nobre da família Coigny. Procurado pelas tropas de Robespierre, o poeta acaba assassinado junto com sua amante, em um final de grande impacto dramático. Como assinala Jorge Coli no texto que acompanha o programa, “quanto ao último dueto que une Andrea e Maddalena no amor e na morte, com sua oposição entre dia e noite, com seus apelos de união engolfada no infinito, é uma clara retomada das exclamações que se encontram no núcleo do segundo ato de Tristão e Isolde, de Richard Wagner”.

Edna D'Oliveira e Eric Herrero em cena do Andrea Chénier de Belo Horizonte
(Foto: divulgação FCS / Paulo Lacerda)

Com um bom elenco, o único problema da montagem mineira ficou por conta do equilíbrio entre a orquestra e os solistas vocais. Apesar de uma direção cuidadosa e fluente do maestro Luiz Fernando Malheiro, algumas vezes a ótima Filarmônica de Minas Gerais soou exposta. Isso acrescido do fato de a boca de cena do Palácio das Artes ser enorme, fez com que até vozes potentes como a do barítono Rodolfo Giugliani – que fez Gérard – não resultassem com a intensidade e o brilho desejáveis. Nesse contexto, apesar de demonstrar musicalidade e empatia com o papel, o Chénier de Eric Herrero acabou sendo o mais prejudicado. O destaque da noite acabou sendo a soprano Edna D’Oliveira, que fez uma ótima Maddalena, com bonito timbre e boa presença em cena.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Belo Horizonte e assistiu a Andrea Chénier a convite da Fundação Clóvis Salgado.]

P.S. Andrea Chénier é o segundo título apresentado em Belo Horizonte neste ano – o outro foi a Traviata, no primeiro semestre [clique aqui para ler a minha resenha sobre a Traviata]. Pode parecer pouco, mas a regularidade e nível dessas produções têm alçado a capital mineira a uma das principais protagonistas da cena lírica nacional. Em São Paulo, o fechamento para reforma do Teatro Municipal serve de pretexto para pôr em ponto morto uma máquina que custa alguns milhões de reais aos cofres públicos todos os meses (imagino que não seja fácil, mas é triste saber que existem orquestra, coros, solistas e tudo o mais parados esperando o Teatro Municipal reabrir). Ouvi falar agora que no centenário teremos dez títulos! Oxalá sejam dez também em 2012, 2013, 2014, 2015...





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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