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Para além do pãozinho de queijo (23/11/2010)
Por Nelson Rubens Kunze

A precisão e energia com que a Filarmônica de Minas Gerais atacou a abertura O Corsário de Berlioz no último sábado – no início da última das três apresentações que a orquestra fez na Sala São Paulo – já era sinal de que coisas boas estavam por acontecer. E aconteceram! Com bela sonoridade, técnica apurada e evidente gosto pelo fazer musical, a Filarmônica de Minas Gerais, dirigida por seu titular Fabio Mechetti, realizou uma grande e emocionante apresentação.

O Corsário é obra de impacto. Brilhante e colorida, cheia de invenção e surpresas, a peça deu oportunidade para a Filarmônica mostrar que cresceu – o que, aliás, ficou comprovado ao longo de todo o programa: músicos competentes, naipes coesos e equilibrados, articulações precisas e fraseados cuidados, tudo isso amalgamado pela rara musicalidade e talento do maestro Mechetti.

A apresentação seguiu com o Concerto para violoncelo op. 22 de Samuel Barber com solos do alemão Alban Gerhardt. Comissionado na década de 1940 pelo maestro Koussevitzky para a Sinfônica de Boston, o concerto é uma obra pouco ouvida, de grande exigência técnica, tanto para o solista quanto para a orquestra. O violoncelista Gerhardt, que tem um som aberto e bonito e uma naturalidade técnica espantosa, interagiu perfeitamente com a orquestra em uma memorável interpretação.

O concerto se encerrou com as Danças Sinfônicas op. 45 de Rachmaninov. Aí, quem ainda não tinha se entregue à magia da orquestra acabou se rendendo. Com sensibilidade, ricas cores, estudadas inflexões e uma musicalidade soberba, a Filarmônica fez uma execução de encher os olhos (e os ouvidos). De gestual claro e elegante, Mechetti sabe extrair da orquestra de sussurros a turbilhões, sem perder de vista o todo orgânico.

O surgimento desta nova orquestra brasileira deve ser comemorado como uma das principais conquistas musicais dos últimos anos. O que no caso da Filarmônica de Minas Gerais é alentador, é que, além do corpo sinfônico que ouvimos, há a preocupação de se consolidar também uma estrutura de gestão moderna e profissional capaz de ampará-lo. A Filarmônica de Minas Gerais funciona por meio de uma Oscip, o Instituto Cultural Filarmônica, uma entidade privada sem fins lucrativos, que mantém um contrato com o Estado para a manutenção da orquestra (algo similar à Fundação Osesp com o Estado de São Paulo). Assim, os recursos públicos podem ser investidos tendo como critério as competências técnicas e artísticas. O resultado é esse que vemos e ouvimos. E esse é o verdadeiro atendimento do interesse público no que diz respeito à difusão da cultura clássica e da música de concerto.

Além do ótimo pãozinho de queijo, os mineiros agora também podem se orgulhar de sua orquestra sinfônica. Oxalá em breve possamos visitá-la em uma sede própria. A Filarmônica de Minas Gerais está pronta para a sua sala de concertos!





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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