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A diva inconformada, ou para que servem os compositores? (4/1/2011)
Por Leonardo Martinelli

Foi-se o tempo em que o compositor era a figura central das práticas musicais ocidentais. As gôndolas das lojas de CDs e DVDs, as capas das revistas especializadas e as estantes das livrarias estão aí para confirmar o inegável: o público clássico contemporâneo tende a relacionar-se de forma quase exclusiva apenas com seus intérpretes. Podemos pensar que isto é uma inevitável conseqüência de outro fato, qual seja, que os intérpretes contemporâneos, em sua grande maioria, se relacionam parcamente com seus colegas compositores, e por isto a música destes não chegam a entrar em contato de forma mais sistemática com o grande público.

Recentemente o jornal inglês The Guardian publicou uma reportagem de Stuart Jeffries (recém traduzida para o português pelo jornal Folha de S. Paulo) que traça um perfil atual da mezzo soprano italiana Cecilia Bartoli. O artigo abre com uma reclamação desta que é uma das mais talentosas artistas da atualidade, que sente-se entristecida pelo fato de nenhum “grande compositor” ter escrito obras especificas para sua voz, tal como era comum a estrelas de sua magnitude ao longo dos séculos XVI e XIX. “Sinto ciúmes desses cantores. Porque hoje, nós, líricos, não temos essa relação. Apenas os cantores pop têm. Você menciona Farinelli – Porpora compôs para ele. Mozart compôs para Nancy Storace. Rossini compunha para Isabella Colbran. Eu não tive essa experiência”.

Imagino que vários colegas meus (em tempo, ainda me considero um compositor...) ao ler este artigo devem ter reagido um tanto inconformados. “Hei, estivemos sempre aqui! Foi você quem sempre nos ignorou!”. É justo, pois sabemos muito bem que as grandes estrelas da música clássica internacional têm uma relação um tanto controversa com a música de seu tempo. Senso comum, raríssimas exceções, a música contemporânea está longe de causar um frenesi na audiência clássica padrão, e na verdade, constamos muitas vezes o contrário. Assim, ao longo do século XX, a engrenagem da indústria cultura na música clássica consolidou o seguinte padrão: nós, os intérpretes, daremos somente aquilo que vocês, público, querem, e mesmo uma ou outra “novidade”que porventura oferecermos, garantimos, será apenas mais do mesmo, empacotado de forma diferente.

Num momento em que aquilo que o ocidente define por música virou de cabeça pro ar, os compositores foram postos de escanteio, uma figura entre o exótico e o indesejado.

Confesso que estou anos-luz de ser um especialista na carreira de Cecilia Bartoli, e que a matéria aqui evocada carece de profundidade, e por tudo isto mantém-se a dúvida: afinal, Bartoli procurou alguém para compor para ela? Ela de fato chegou a se relacionar com seus colegas compositores? Caso afirmativo, nenhum deles se solidarizou com a moça? E olhe que sua Itália natal é pródiga em grandes compositores, importantíssimos no âmbito da música vocal contemporânea, tais como Luciano Berio (que, em tempo, realizou magistral parceira com a mezzo soprano Cathy Berberian), Luigi Nono e Salvatore Sciarrino, só para citar os mais proeminentes.

Historicamente sabe-se que os cantores sempre deram as cartas. Farinelli escolhia em quais produções operísticas iria atuar, e antes de gozar de estabilidade e reputação, Rossini comeu o pão que o diabo amassou ao enfrentar das divas de sua época. Nada mais natural que Bartoli, aproveitando a privilegiada situação de seu estrelato, tomasse a iniciativa de criar um repertório moldado aos seus excepcionais recursos vocais. Se Bartoli não consegue achar um compositor para chamar de seu, quem conseguirá?

Mas, por outro lado, há outro sério problema, e aproveito aqui para esboçar situação uma autocrítica da classe a qual julgo pertencer. Atualmente, os compositores constituem uma categoria um tanto exótica, dedicando-se com afinco à concretização de seu ideal estético e estilístico (isto é o lado positivo) ao mesmo tempo em que, com raras exceções, se isolam do cotidiano mundano e feroz da cena clássica internacional, em geral, sob a proteção de algum cargo de docência, restrito a um circuito artístico muito limitado dos festivais especializados, concursos e programas específicos de fomento à criação. Parceria de compositores com intérpretes não é nenhuma novidade, mas uma parceria com artistas do porte técnico e mediático de uma Bartoli são oásis em meio a um árido deserto. Especialmente no universo lírico, naturalmente arredio à música contemporânea.

Como em qualquer relação a dois, é um jogo de give and take no qual as duas partes têm que participar de forma ativa, saindo do conforto de suas atividades cotidianas, em busca da realização de algo significativo e belo. In bocca al Lupo!





Leonardo Martinelli - é compositor, professor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO e diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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