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Transfiguração já (9/2/2011)
Por Nelson Rubens Kunze

Teve um tom de desabafo a recente coluna do compositor Gilberto Mendes no jornal O Estado de S. Paulo, intitulada “Morte ou transfiguração” (Caderno C2 + Música, 5 de fevereiro de 2011). Partindo do depoimento de Leonardo Martinelli publicado na retrospectiva da Revista CONCERTO – na opinião de Gilberto Mendes uma comparação “estapafúrdia” do trabalho magnífico da Camerata Aberta com a falta de organização do Festival Música Nova – o mestre alinha os grandes momentos desse evento, por ele criado e dirigido há quase 50 anos. E foram momentos gloriosos, sem dúvida, que nos informaram das tendências da criação atual e nos aproximaram de importantes compositores e intérpretes de nossos dias.

Não faltou ao texto, também, uma bronca em relação o trabalho de nossa crítica musical. “Onde estavam os colaboradores de nossas revistas de arte, de música, onde estavam nossos críticos musicais?", pergunta Gilberto Mendes ressentido.

De minha parte, infelizmente, só posso confirmar a afirmação de Martinelli em relação à desorganização do Festival Música Nova. Por exemplo, apesar de nossa (da Revista CONCERTO) insistência, não foi possível descobrir muito sobre a programação de Festival Música Nova com alguma antecedência razoável (aliás, talvez por isso os críticos não tenham comparecido, talvez não souberam ou não tenham sido avisados). A matéria de capa da Revista CONCERTO daquele mês, outubro de 2010, justamente com o compositor Gilberto Mendes, acabou saindo meio manca, pois apenas acompanhada de informações vagas sobre a realização do Festival e um lançamento de CD...

Mas creio que a questão é muito mais séria e não depende da desorganização da produção, da desafinação dos músicos ou das opiniões – estapafúrdias ou não – de nossos críticos. O próprio Gilberto Mendes, do alto de sua sabedoria, escancara o real dilema do evento: morte ou transfiguração! Como é de se supor que o mestre não esteja fazendo apologia ao fim de seu Festival, resta a sua transfiguração. E qual seria ela?

Quase todos já fizemos a nossa parte. Como escreve Gilberto, “o Festival já acabou e renasceu duas vezes, a última salvo pelo professor Lorenzo Mammi, via Centro Maria Antonia”. Muitos músicos, compositores e voluntários deram a sua contribuição. Eu mesmo fui militante da causa em fins dos anos 1980, primeiro com o compositor Conrado Silva, depois com Rodolfo Coelho de Souza (já se vão mais de 20 anos...). Mas então, afinal, o que falta? E é novamente o próprio Gilberto Mendes que dá a pista: “Já era tempo do Festival ter sido encampado por alguma instituição governamental ou coisa parecida.” Não seria, de fato, o Festival Música Nova sujeito natural para a promoção pública? Onde, no mundo, uma manifestação com essas características acontece se não ao abrigo de entidades como fundações, teatros ou universidades públicas?

Claro que uma “transfiguração” nessa direção também não significa uma via sem obstáculos. Quem já atuou junto aos órgãos do estado – e o Festival Música Nova muitas vezes dependeu de apoios governamentais –, sabe que cair nas graças do poder público pode resultar em muitas desgraças (com perdão do infeliz trocadilho). O inferno começa na ingerência artística e termina na burocracia governamental.

Apesar dessa consciência, é preciso reconhecer avanços (pontuais) na gestão pública, e é isso que eu gostaria de lembrar. Novos modelos como as Organizações Sociais ou Oscips têm representado uma lufada de esperança para a consecução das obrigações do estado em relação aos assuntos da cultura.

Então, por que não atribuir a realização do Festival Música Nova, por exemplo, à Organização Social Santa Marcelina Cultura, a mesma, aliás, que mantém a Camerata Aberta, justamente o outro polo da comparação “estapafúrdia” de Martinelli? A Santa Marcelina tem competência – ela é a realizadora do Festival de Inverno de Campos do Jordão –, e estrutura. E desse modo se daria o passo definitivo para a institucionalização desse que é um dos grandes patrimônios de nossa cultura musical, o Festival Música Nova.

Transfiguração já!





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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