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Música clássica no Brasil hoje (9/3/2011)
Por Nelson Rubens Kunze

No último dia 2 de março, no Auditório do jornal “Folha de São Paulo”, participei de uma mesa redonda com o título “Música clássica no Brasil hoje”. Com mediação do crítico da “Folha” Sidney Molina, o diretor artístico da Osesp, Arthur Nestrovski, o pesquisador e ex-diretor do Centro de Música da Funarte, Cacá Machado, e eu conversamos sobre a situação e as perspectivas da música clássica em nosso país.

Leia a seguir a transcrição editada de minha fala:

“Eu gostaria de começar fazendo algumas considerações de caráter mais geral, de caráter mais estrutural. Eu sempre gosto de lembrar que a música clássica e a ópera têm um diferencial muito próprio, que é o fato de não serem manifestações comerciais. Isso significa que a música clássica e a ópera, se não obtiverem o apoio do Estado, fatalmente morrerão. Elas não têm condições de competirem, elas não vingam no mercado, na sociedade. Isso é uma premissa fundamental.

E como se dá esse apoio? Ele pode se dar diretamente com o investimento do Estado na orquestra sinfônica – como é a tradição aqui em nosso país e é a tradição de muitos países europeus –, ou ele se dá através das leis de incentivo oferecendo isenções fiscais. Independentemente de como for, o fato da música clássica depender desse apoio estatal é fundamental. Eu rechaço a ideia de que a gente possa deixar as coisas florescerem no mercado, achando que lá na frente nós vamos ter um festival de música contemporânea, um festival de música antiga, uma orquestra sinfônica estruturada – isso não funciona! Eu acho, então, em primeiro lugar, que a gente deve trabalhar para conscientizar a sociedade e também as autoridades, os governantes, dessa questão.

Em razão disso, a música clássica sempre está muito próxima das ações do Estado, tanto no que diz respeito às políticas como também no que diz respeito ao próprio funcionamento de suas orquestras e de seus teatros de ópera. E é aí que se encontra uma coisa muito significativa, talvez a maior conquista de nossa geração, que é a modernização dos modelos de gestão de nossos organismos públicos. Estou me referindo especialmente a criação das Organizações Sociais, as OSs. Uma OS é uma entidade privada sem fins lucrativos que firma um contrato de gestão com o Estado, pelo qual o Estado se obriga a prover os recursos para que essa entidade possa gerir a orquestra sinfônica, o teatro de ópera, os museus, de acordo com as metas impostas pelo Estado. Esse modelo ainda é muito restrito e muito novo, ele existe em São Paulo apenas desde 2005.

A implantação de uma OS é um desafio enorme, que traz consigo diversos problemas reais: a gente tem que tomar cuidado para que esse instrumento não seja desvirtuado, para que o caráter público das orquestras, dos teatros de ópera, dos museus, das bibliotecas públicas e de todos os órgãos culturais que venham a trabalhar desse jeito, seja resguardado. Então você precisa de um controle rigoroso do Estado para com essas OSs.

Gostaria de mencionar duas características que representam grandes vantagens nos modelos das OSs: em primeiro lugar, o financiamento seguro do Estado, ou seja, as OSs não precisam se preocupar em ganhar dinheiro, o Estado provê a entidade dos recursos que ela necessita para cumprir a sua missão na comunidade; em segundo lugar, autonomia de gestão, o que significa que é possível colocar na direção de uma orquestra pessoas que saibam dirigir orquestras, e não pessoas que sejam colocadas aí por arranjos políticos ou por interesses partidários, pessoas contratadas a partir de acordos feitos para interesses outros daqueles da orquestra sinfônica.

O grande modelo que temos como Organização Social em São Paulo é a Fundação Osesp. Mas não é a única OS, você tem outras que também funcionam. Já houve avanços maiores, já houve retrocessos, e esses avanços e retrocessos enxergo como um amadurecimento desse modelo, para que a gente aprenda a trabalhar melhor com ele e sanar os problemas que muitas vezes essas OSs trazem consigo.

Em outros Estados do Brasil a legislação não existe dessa maneira, mas também existem as Oscips, que funcionam de maneira parecida, que também estabelecem contratos de gestão com o governo para gerirem os organismos culturais. É interessante, por exemplo, que a outra grande orquestra que apareceu recentemente no Brasil, com programações organizadas, temporadas internacionais, com planejamento e com quadros profissionalizados, seja a Filarmônica de Minas Gerais, que justamente também funciona dentro de um modelo de Oscip.

O que é próprio ainda de nosso país, é que tudo isso funciona desde que você tenha um governo simpático à ideia. Eu acho que mesmo o modelo das OSs provavelmente não funcionará se o governador não gostar da ideia ou se o secretário da cultura boicotar a OS. Só que nesse caso, nós vamos ter fôlego de alguns anos até que o governador consiga desmontar aquilo, diferentemente do que era anteriormente. Com isso eu quero dizer o seguinte: independentemente do modelo, a gente precisa ter o apoio e a vontade política do governo. Nos anos 1970-1980 houve na Paraíba uma orquestra sinfônica que fez história e que repercutiu até internacionalmente. Por quê? Porque na época tinha lá um governador que gostava de música! Então, essas iniciativas dependem sempre muito das autoridades públicas.

Em São Paulo a gente teve a sorte de ter um governo, que foi o governo Mario Covas, atento à questão cultural, mas mais do que isso, atento para a revitalização de um bairro degradado, que é o Bom Retiro, e que viu na Osesp, na Pinacoteca e no Museu de Arte Sacra iniciativas que poderiam ser usadas para revitalizar a região. Então foi, na minha opinião, uma conjunção muito feliz de fatores que fez com que o governo investisse recursos para criar a Sala São Paulo, criar a Osesp. E o governo também soube olhar mais adiante, e soube ver que, mais do que isso, era preciso criar uma estrutura com um modelo de gestão que fosse mais perene e que pudesse sobreviver a humores de futuras gestões, e que pudesse realmente dar para a cidade de São Paulo uma orquestra como essa que nós temos, que pode trabalhar com horizontes que a gente nunca teve antes.

No caso da Osesp ainda tem outro fator muito interessante: a orquestra tem que se capilarizar na comunidade, porque aí ela deu certo, não é? E se ela realmente se capilariza dentro de um modelo desses, como a Osesp, então fica muito difícil para o governo simplesmente acabar com ela. Claro, contenção ou contigenciamento (como se fala hoje em dia) de recursos sempre existe. Os recursos são limitados, as carências são grandes. No Brasil temos carências em todas as áreas, as coisas mais básicas a gente ainda não conseguiu resolver. Mas isso não é desculpa. O dinheiro que vai para a cultura não chega ao mínimo. Há alguns anos, as Nações Unidas estabeleciam que os recursos para a cultura deveriam ser da ordem de 1% do PIB; hoje já estão falando que deveria ser da ordem de 2%. No Brasil, a gente não chega nem a 1%. O Ministério da Cultura, depois de todo o empenho do Gilberto Gil e do Juca Ferreira, chega a 0,6 ou 0,7%. Só como base de comparação, na Alemanha, em Berlim, a parte que vai só para a ópera, para as três casas de ópera, são 0,8% do orçamento deles. Só para a ópera! Então, a gente está muito longe de qualquer valor razoável.

Eu queria fazer essas colocações mais estruturais, porque acho que elas são muito importantes para a gente compreender a história da música clássica no Brasil, o ponto em que estamos e o ponto aonde a gente pode chegar. Se a gente fizer uma análise da situação em que estamos, a gente poderia resumir isso de forma um pouco contraditória dizendo que a situação da música clássica no Brasil hoje é muito boa, mas também é muito ruim.

Por que a música clássica vai mal ou a situação é muito ruim? Em primeiro lugar, e principalmente, porque a gente tem ainda uma oferta de música clássica muito pequena para uma demanda social enorme. Temos no Brasil bem poucas orquestras sinfônicas, bem pouca música clássica. Já no que diz respeito à ópera... quero dizer, a gente não tem ópera! A gente vive na oitava economia do mundo e a gente não tem um teatro de ópera! Isso depõe contra o país, depõe contra a nossa civilidade. Os nossos dois teatros de ópera – o do Rio e o de São Paulo – são centenários. O nosso teatro de ópera aqui em São Paulo este ano completa 100 anos e vive a maior vergonha cultural dos últimos tempos. Está fechado. Outro dia eu comentei sobre isso: é bom que o Teatro Municipal esteja fechado, pois está fazendo uma reforma importantíssima, que é fundamental que seja feita. No entanto, o teatro é tão mal equipado, que nem isso ele consegue comunicar. E o teatro não tem nenhum planejamento, os corpos estáveis estão parados, não tocam, não existe gerenciamento nenhum para de alguma maneira tentar contornar essa situação. Então isso é uma lástima!

E onde o Brasil vai bem na área da música clássica? Ele vai bem pontualmente em algumas coisas. A principal delas, a Fundação Osesp, que é o nosso grande orgulho, e que é talvez a única manifestação cultural na área da música clássica no Brasil que a gente consiga medir com a régua internacional. Mas também existem outros eventos e outras manifestações pontuais que são dignas de nota. Por exemplo, o Festival Amazonas de Ópera, que este ano vai realizar a sua 15 edição, sempre lutando em busca de seus recursos mas com resultados ainda assim sempre qualitativamente muito bons. Outra iniciativa que tem demonstrado resultados positivos é a Filarmônica de Minas Gerais, como eu já falei. Tem também a Orquestra Sinfônica de Sergipe e a Filarmônica do Espírito Santo que com verbas reduzidas conseguem, até pelo empenho de seus diretores, fazer programações planejadas durante todo o ano. Mais um sinal de que dá para fazer, desde que se faça com certa consciência e com certo cuidado.

Eu quero finalizar com uma reflexão que é a seguinte. Nós temos ótimos músicos, nós temos pesquisadores, nós temos escolas, nós temos projetos de inclusão social, nós temos muitas coisas. Então, afinal, o que falta para a gente fazer a música clássica deslanchar? Falta, talvez, uma política nacional de cultura, ainda que sempre é temerário falar sobre política nacional de cultura, por que muitas vezes entram dogmas e doutrinas que podem levar a decisões muito ideologizadas, nem sempre muito positivas.

Agora, o que falta com certeza é as autoridades tomarem ciência do que significa a música sinfônica e a música lírica na sociedade, e se convencerem da ideia de que música clássica, em um país civilizado, faz parte do repertório que o Estado tem que oferecer. O que faz falta também – e isso talvez já caiba mais a nós –, é mais organização, mais competência, mais profissionalização, mais empenho qualitativo.

O que é muito bom, é que a gente tem um paradigma, que é a Fundação Osesp. Essa é uma convicção que tenho desde o começo, desde a época do maestro John Neschling, que, com o apoio do governo, foi o grande indutor dessa nova mentalidade na vida musical clássica de nosso país.

Muito obrigado.”





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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