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Por uma nova OSB (12/3/2011)
Por Nelson Rubens Kunze

Estou acompanhando atônito os desdobramentos da crise da Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB). Como todos sabem, músicos se rebelaram contra um processo de reavaliação de performance decidido pela direção da orquestra e pela Fundação OSB. A ideia, segundo tem repetido insistentemente o maestro Roberto Minczuk, é a de reclassificar artisticamente o grupo. Músicos protestam e boicotam as audições, na internet ecoam queixas e até o blog do influente crítico inglês Norman Lebrecht entrou na história [clique aqui para ler].

Surpreendeu-me a dimensão que o assunto assumiu. Estamos falando da reavaliação de instrumentistas de um grupo que há pouco mais de 5 anos era um simulacro de orquestra. Simulacro mesmo! Não foram raras as vezes em que a Revista CONCERTO lamentou a situação de penúria e abandono a qual a OSB, uma das mais importantes orquestras do país, estava relegada. Com a nomeação do maestro Roberto Minczuk, em 2005, a coisa mudou. Houve em sua gestão uma pequena revolução, que teve entre as suas principais conquistas a revalorização do músico e de seu trabalho. Não será isso o que significa a realização de temporadas sinfônicas com renomados solistas e maestros internacionais (Kurt Masur já seria suficiente, mas é uma lista extensa)? Ou concertos com teatros lotados em palcos nobres como o Teatro Municipal do Rio de Janeiro ou a Sala São Paulo? Ou ainda salários e remunerações pagos mensalmente? Há poucos anos não era bem isso o que se passava.

Mas a pequena revolução não foi apenas do maestro Minczuk. Houve um grande empenho para mobilizar um atuante conselho para a Fundação OSB (isso não deve ser desprezado, seu conselho reúne personalidades eminentes e um presidente com raro engajamento), houve empenho para conseguir formar uma administração moderna e eficiente com profissionais que estão entre os mais preparados do ramo, e, talvez o mais importante, logrou-se sensibilizar grandes patrocinadores e apoiadores. Após anos de sufoco, a OSB começou a respirar novamente. Isso, no Brasil, é uma pequena revolução. Desconfio que no Rio de Janeiro seja um tsunami cultural...

Mas sejamos realistas: a orquestra, em uma escala de 0 a 10 , foi, digamos, de 3 para 6. Não é pouco, pelo esforço que custou e pelo movimento que causou. Mas está muito aquém do que a cidade do Rio de Janeiro e o Brasil merecem. A Cidade Maravilhosa quer uma grande Orquestra Sinfônica Brasileira, profissional, geradora de cultura e inserida no debate cultural contemporâneo. Uma orquestra que possa orgulhar o país que abrigará a Copa do Mundo, e que possa orgulhar a cidade das Olimpíadas de 2016. E convenhamos que para isso falta alguma coisa.

A Fundação OSB não está propondo uma reavaliação de performance de uma orquestra consolidada em um grande centro europeu ou norte-americano. Também não se trata de reaudições em algum conjunto do interior da Inglaterra ou de uma orquestra de alguma cidade da província alemã. Creio que o que se pretende é a construção – sim, estamos em pleno processo de construção! – de uma moderna orquestra sinfônica internacional em uma das mais belas metrópoles do mundo, em um país que recentemente alcançou à sétima posição na economia global. A OSB, com sua história de 70 anos, merece essa oportunidade, e desde alguns anos há um esforço evidente nesse sentido.

Posto isso, parece coerente a decisão da Fundação OSB em promover a avaliação de performance como medida para a classificação artística de seus instrumentistas. Não será uma imposição unilateral e autoritária guiada pela vontade do maestro ou diretor artístico. Haverá uma banca internacional, isenta e imparcial. E o processo terá uma contrapartida, que é um novo patamar salarial. Assim a Fundação OSB finalmente estabelecerá condições para um vínculo empregatício que poderá garantir, também, a necessária segurança para futuras aposentadorias.

Oxalá a OSB possa seguir contando com o grupo de exímios instrumentistas que hoje a integra, e que contribuiu decisivamente para o atual nível de suas realizações. E que o processo auxilie também para o amadurecimento de modernos processos de gestão, próprios de uma orquestra sinfônica do século XXI.





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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