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OSB à espera da esfera de ferro (18/3/2011)
Por Leonardo Martinelli

“Entre mim e meus músicos existe somente desconfiança, a dúvida que corrói a crença. Daí a falta de estima, o desprezo, o rancor: a raiva por algo que se perdeu e não será mais encontrado. E assim tocamos, unidos somente por um ódio em comum. Como numa família destruída.”

Acompanhando à distância de uma ponte área a crise que a Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB) atravessa no momento, foi impossível não me lembrar do filme Ensaio de Orquestra, que o genial Federico Fellini rodou no já distante ano de 1978.


Cena do filme Ensaio de Orquestra, de Federico Fellini [imagem: divulgação]

Num dia comum de ensaios, uma equipe de televisão adentra o espaço da orquestra para gravar um documentário. É apenas um pretexto para que Fellini consiga projetar na tela o lado “humano, demasiado humano” presente neste ambiente. Depoimentos grandiloquentes sobre a nobreza da música contrastam com testemunhos francamente burocráticos. Um músico chega mesmo afirmar que, tocar, não é nada demais. “É como trabalhar na Fiat.”

Como se atuasse de forma invisível, a câmara flagra o comportamento de músicos indisciplinados, de um regente desinteressado e de produtores e sindicalistas mancomunados. A única figura que parece impermeável a tudo isto é um velho copista prestes a se aposentar. Lúcido quanto ao estado de degradação que a orquestra se encontra, a um dado momento, falando direto para a câmara, ele lembra com saudosismo dos “bons tempos” do antigo maestro. O velho copista dá a entender que, naquelas épocas, terror, medo e punição andavam de mãos dadas com a excelência musical. Enquanto fala, no plano de fundo da filmagem, o olhar inquisidor de um quase imperceptível retrato do maestro Arturo Toscanini a tudo observa e controla.

A frase acima em destaque é um trecho do depoimento “em off” que o maestro dá à equipe de televisão, ao som de melancólicos acordes de Nino Rota. Em seguida, ele é chamado com urgência, e ao entrar na sala de ensaios, uma verdadeira revolução está armada pela orquestra. Paredes pichadas, retratos de compositores maculados com fezes e um ruidoso coro que grita “Diretor, diretor! Não te queremos mais!” dominam o lugar. O maestro não luta, não se surpreende e nem desiste. Apenas senta-se num canto à parte, deixando placidamente as coisas ocorreram.

A barulheira aumenta, e logo as palavras de ordem ganham, por assim dizer, mais veemência. Um “Orquestra, terror! À morte o diretor” logo torna-se “Orquestra, terror! Quem toca é um traidor!”. Enquanto alguns músicos se engajam na luta, outros riem fartamente da situação. O púlpito do maestro é violentamente levado ao chão, e no lugar coloca-se um surreal metrônomo gigante. “Metrônomo, metrônomo, músico autônomo!” grita em coro a orquestra. Mas logo há quem nem o metrônomo defenda. Generaliza-se uma briga: mulheres são espancadas, colegas se agridem com uma crueldade que, tal como num longo casamento em crise, somente os anos de convivência podem propiciar.

É o fim ainda inconcluso de uma situação sem saída. Orquestra e maestro estão irremediavelmente irreconciliáveis, e a equipe de produção, como ratos num navio em chamas, há muito já abandonou o barco. Para botar um ponto final a este enredo em crescente contínuo (ao modo do Bolero de Ravel), Fellini utiliza o que quase sempre é considerado um subterfúgio barato em termos de artes narrativas, isto é, um Deus ex machina. O termo refere-se a improvável aparição de uma personagem ou evento que resolverá de forma quase instantânea todos os conflitos e tensões do enredo.

Para botar fim à anarquia, Fellini lança uma imensa esfera de ferro, daquelas utilizadas em demolições, contra as paredes do local de ensaio, mergulhando a todos numa profunda escuridão e desolação. Desesperados, os músicos pedem, com o rabo entre as pernas, que o maestro volte a regê-los, e literalmente entre os escombros, voltam a ensaiar. Mas quando após poucos compassos o maestro interrompe a música para dar ordens aos músicos, a imagem gradualmente desaparece. Ficamos apenas a ouvir o colérico maestro xingar os músicos. Os urros em italiano logo passam a ser feitos em alemão, e em segundos ganham a assustadora a semelhança de timbre e entonação com a qual Adolf Hitler proferia seus insanos discursos.

Corta! E voltemos ao Rio de Janeiro e a sua orquestra.

É público e notório que a crise da OSB ganhou uma dimensão que, imagino, inicialmente nenhuma das partes envolvidas poderiam conjecturar. Os músicos da OSB, o maestro Roberto Minczuk e Eleazar de Carvalho Filho (presidente da Fundação OSB) passaram a protagonizar uma batalha amplamente difundida e alimentada pela internet, e de uma hora para outra, o Rio de Janeiro virou – metaforicamente (é bom frisar) – uma espécie de Líbia da música clássica, onde a comunidade internacional toma seu partido e acompanha atentamente cada passo desta disputa.

A situação da Líbia está ainda em aberto, da mesma forma que a situação da OSB não parece muito perto de uma resolução. Aliás, eis a pergunta: qual seria a solução? Ou como o jornalista João Luiz Sampaio elaborou em seu artigo, por meio de um inspirado trocadilho: tem conserto?

Tal como no filme de Fellini, ambos os lados estão compreensivelmente por demais envolvidos com o calor da hora para verem as coisas sob perspectiva. A luta só tende a aquecer, e os ânimos, a se exaltarem. Cada vez mais.

Os músicos renovam seus fôlegos a cada apoio recebido pela comunidade internacional. Por outro lado, a direção da OSB revigora-se a cada sentença judicial favorável proferida pela justiça. Tal como numa briga de rua, cada golpe recebido do oponente é recebido como incentivo à briga, e não o contrário. Numa luta na qual ninguém cede, todos, inconscientemente, derivam à espera da esfera de ferro felliniana, um Deus ex machina que de forma improvável resolveria de forma instantânea todos os conflitos e tensões. E mesmo não tendo talento nenhum para vidente, ouso afirmar: a esfera de ferro não virá.

E na verdade, é bom que não venha, pois tal como no filme, ela seria uma solução artificial, passageira e superficial a uma ferida profunda, e que eventualmente desencadearia eventos muito mais trágicos. É óbvio que em seu filme o alvo de Fellini não é, necessariamente, a natural atração que maestros têm para o totalitarismo ou do coletivo orquestral para um comportamento infantil politicamente perigoso e desprovido de sentido. A orquestra é uma metáfora da humanidade, e aqui a OSB uma triste metáfora do status quo em que se encontra a cultura no Brasil.

Para piorar, há muita gente de fora desta “família destruída” colocando lenha nesta fogueira; oportunistas que se deliciam com esta briga e a assistem com a despojada crueldade de um espectador de uma rinha de galos. Há quem inclusive tenha feito suas apostas, e ainda por cima nutra alguma expectativa de lucro.

Independentemente do “certo” e do “errado” (coisas nem sempre fáceis de definir em tamanha conturbação) creio que não há como negar que, no mínimo, houve uma falta de planejamento estratégico – e quiçá um pouco de psicologia empírica – por parte da direção da OSB. Se isto não é a raiz primordial desta crise, não consigo ver o que seria, e se este planejamento (e tudo o que esta palavra engloba em amplíssimo sentido) tivesse sido realizado a contento (em várias ocasiões li músicos se queixarem menos “do quê foi feito” e mais pelo “como foi feito”), seria improvável que a crise tivesse tomado estas dimensões, ou talvez sequer existisse.

Ainda acho especialmente interessante as palavras que o diretor de ópera Cleber Papa utilizou em seu blog como o caminho mais provável para a solução desta crise. “[...] Não vejo outra saída que não a negociação entre as partes. A construção do processo a partir do diálogo é mais difícil, exaustivo, demorado até, mas é o que consolida. Tudo funcionará bem se os dois lados perderem o suficiente.”

Particularmente, também creio no diálogo, por mais que isto pareça algo altamente improvável dado o estado de desconfiança, dúvida, falta de estima, desprezo e rancor que por ora pauta as relações dos diferentes membros desta família em conflito. Pois quando se dispensa o diálogo, resta apenas esperar pela esfera de ferro, que com sua majestosa violência, extermina de forma indiscriminada quem estiver em sua frente. Mocinhos ou bandidos, todos perecem quando se chega a este ponto. A história do Brasil mostra de forma contundente que, em cultura, quando se roga pelo “deus surgido da máquina”, ele inevitavelmente acaba por propiciar um apocalipse.





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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