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Notas sobre uma “nova” Carmen (4/4/2011)
Por Leonardo Martinelli

Um dos mais afamados e benquistos títulos do repertório operístico, toda vez que um teatro anuncia uma montagem de Carmen tem-se quase a certeza, se não de casa cheia, ao menos de um ótimo público. A história da sensual cigana encanta a plateia por explorar uma dimensão trágico-passional que parece conferir mais sentido à vida. Genial na elaboração de seus temas musicais, Georges Bizet possibilita que se estabeleça uma peculiar relação de familiaridade entre a música e o ouvinte. O conjunto é arrematado por uma evocação a uma Espanha mítica, e como tal, caracterizada por uma irresistível reunião de estereótipos, a partir dos quais a junção entre música e drama ganha corpo.

Não são poucas as virtudes que fazem de Carmen um espetáculo operístico de sucesso e de grande aceitação de público. Mas, paradoxalmente, tudo aquilo que faz desta ópera uma obra de “fácil” acesso é justamente o que a torna um dos títulos mais difíceis para conceber como um novo espetáculo.


Luciana Bueno, na montagem da ópera Carmen, no Teatro São Pedro [Foto: divulgação/Adriano Escanhuela]

No último domingo, dia 3 de março, foi levado ao palco do Teatro São Pedro a última récita da mais nova montagem da famosa ópera de Bizet produzida no Brasil, abrindo oficialmente a temporada lírica na cidade. Com a direção musical de Emiliano Patarra à frente da Orquestra do Teatro São Pedro, a produção contou com a direção cênica Roberto Lage, que com anos de experiência no teatro fez seu début como diretor de ópera.

Não seria exagero pensar que Lage subestimou os desafios que a criação de uma nova Carmen necessariamente encerra, e ao invés de propor um espetáculo próprio, realizou uma montagem “funcional”, na qual os inexoráveis estereótipos da obra foram reduzidos a meros clichês. O diretor ainda tentou colocar algum tipo de assinatura própria, por exemplo, quando em determinados momentos propositadamente congelou o movimento de solistas e do coro – talvez num desajeitado rompante às avessas de Stanley Kubrick filmando Barry Lyndon –, mas em geral, viu-se mais do mesmo, fato agravado pelas pré-supostas limitações orçamentárias que, infelizmente, sempre afligem as produções do Teatro São Pedro.

Mas o problema de Lage não foi essencialmente orçamentário, e muito dos desafios inerentes a uma Carmen poderiam ter sido resolvidos com os recursos humanos que tinha em mãos. Um dos principais “problemas” da partitura da ópera é que a relação entre Don José e Carmen deve se estabelecer cenicamente no curto espaço de tempo que a protagonista leva para cantar a famosa habanera, já no primeiro ato. Logo após o último “prends garde à toi!”, os personagens devem estar irremediavelmente unidos. Por si mesmo, a partitura não confere verossimilhança a situação, e por sua vez, a direção de Lage também não. Se nem sempre podemos contar que cantores de ópera tenham uma boa atuação como atores em suas partes faladas, espera-se que um bom trabalho de direção cênica (ainda mais realizado por um diretor de teatro) impeça que estes diálogos deixem ao menos de serem constrangedores.

O resultado foi fatal, especialmente no primeiro ato, onde a direção de cena ofereceu um casal morno e sem viço ao conseguir a façanha de esvaziar a sensualidade de Carmen e domesticar a altivez de Don José.

Seguindo a lógica da direção de cena, não houve muito o que fazer em termos de figurino e cenografia, a não ser novamente transformar estereótipos em clichês. Orçamento enxuto é um enorme limitador, mas certas opções ocorrem por pura infelicidade de seus criadores: a heráldica de churrascaria-rodízio bem que poderia ter sido evitada no cenário da segunda cena do ato final, triste tentativa de evocar uma arena de touros.

Por sua vez, o elenco que participou da récita de encerramento musicalmente alternou entre altos e baixos, à parte a quase sempre desengonçada atuação cênica.

Vocalmente, a Carmen da mezzo soprano Luciana Bueno desenvolveu-se bem; suas árias foram corretamente cantadas e nos duetos e conjuntos ela soube se mesclar às vozes que lhe faziam companhia. Mas não há como negar que, mais do que qualquer outra personagem, uma Carmen precisa de um “q” a mais e, se por um lado a direção cênica não proporcionou o melhor ambiente para isto ocorrer, por outro a personagem poderia ter sido melhor explorada por Luciana Bueno para além do estereótipo. Talento musical e biótipo não lhe faltam.

No papel de Don José, o tenor Rubens Medina não estava no melhor de seus dias, e esta performance não faz jus a suas atuações anteriores. Porém, se ao longo dos dois primeiros atos Medina claudicou com um Don José amuado, seu personagem tomou prumo na cena final, ao conferir atuação realmente forte e comovente ao lado de seu par trágico. A cargo de papéis dramaticamente menos exigentes em relação aos protagonistas, o barítono Rodrigo Esteves (Escamillo) e a soprano Edna D’Oliveira (Micaëla) não tiveram problemas para impor seus personagens. Em um conjunto vocal relativamente equilibrado em termos dinâmicos, Edna D’Oliveira mostrou uma potência sonora acima da média do grupo, e talvez por procurar se equilibrar a ele, titubeou em algumas poucas ocasiões.

Porém, titubeou mais o coro especialmente arregimentado para esta montagem de Carmen. Muitos de seus integrantes estão familiarizados com o palco e movimentam-se à vontade. Mas a ausência de uma política consistente em relação ao grupo coral (desde o início, um dos calcanhares de Aquiles das produções do Teatro São Pedro) faz com que o conjunto ainda não atue como um grupo musicalmente forte e coeso.

Boa surpresa foi constatar uma melhora significativa na sonoridade da Orquestra do Teatro São Pedro, sob a regência de Emiliano Patarra. Trata-se de uma orquestra em grande parte integrada por músicos jovens, que tem como objetivo desenvolver um repertório muito peculiar e, por isso, há evidentemente muito o que aprimorar (e disso eles têm plena ciência). Mas ainda que aqui e acolá alguns escorregões se fizessem audíveis – em especial, nos solos de sopros na primeira cena do ato final – o grupo demonstrou significativos progressos, pelos quais precisa ser incentivado e parabenizado.

Aliás, que fique claro, incentivo – em strictu et latu sensu – é tudo que o Teatro São Pedro precisa para continuar a desempenhar sua verdadeira vocação e, quem sabe, se tornar importante referência na cena lírica brasileira.





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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