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A crítica e a responsabilidade de julgar (7/4/2011)
Por Camila Frésca

Não é de hoje que, vez ou outra, se travam discussões sobre a validade e importância da crítica. Grosso modo, o crítico serve como um difusor da obra que se propõe a julgar, além de lançar debates no ambiente cultural por meio de sua avaliação; ao mesmo tempo, estabelece uma ponte entre o artista e o público, contextualizando e analisando o objeto artístico.

Muitas vezes o crítico é também figura atuante do outro lado da trincheira, ou seja, além de avaliar obras alheias ele próprio é um criador – para ficarmos apenas num exemplo, basta lembrar de Schumann, que paralelamente às atividades de compositor desempenhou importante papel na crítica musical de sua época. Para pessoas cujo trabalho envolve de alguma forma o universo artístico, seja como intérprete, compositor, pesquisador ou escritor, ter um canal aberto para o diálogo e no qual é possível exprimir suas opiniões não deixa de ser um privilégio.

Dada a natureza fugaz da atividade jornalística – sem falar da própria vida contemporânea, com suas muitas demandas e tempo sempre insuficiente para pensar, checar ou refletir – é preciso cautela e responsabilidade para não ser leviano ou injusto no julgamento do trabalho alheio. Como então deve trabalhar um crítico? Que critérios deve utilizar para sua avaliação? O filósofo empirista escocês David Hume (1711-1776), ferrenho crítico do racionalismo, foi um dos primeiros a pensar, já no século XVIII, no papel do crítico de arte.

Claro que suas ideias devem ser vistas com distanciamento histórico e à luz das discussões de sua época, mas mesmo sem esses elementos em mãos (ou na cabeça) creio que elas interessam a todos que trabalham com crítica de arte. No texto “Do padrão do gosto”* Hume parte da constatação de que existe uma enorme diversidade de gostos no mundo e, mesmo que os homens compartilhem as mesmas ideias e sentimentos gerais, eles acabam divergindo no que se refere à beleza (lembremo-nos que, até o modernismo, a beleza é um quesito imprescindível para se julgar a arte).

Apesar de toda a diversidade de gostos, no entanto, existem, para Hume, certos parâmetros, certos princípios gerais de aprovação ou censura que fazem com que a maioria das pessoas saiba distinguir, por exemplo, um autor ruim de outro bom. Um desses parâmetros seria a experiência histórica, ou seja, o que resistiu aos julgamentos e persistiu no gosto do público através dos tempos. Outro é a “delicadeza da imaginação”, necessária para ser sensível às emoções mais sutis. Embora haja diferença no nível de delicadeza de cada pessoa, Hume explica que este talento pode ser desenvolvido praticando-se alguma arte ou “contemplando alguma espécie de beleza”.

Também a análise e a comparação ajudariam o crítico a identificar uma obra de qualidade. Segundo o filósofo, a primeira visão de qualquer obra é sempre acompanhada de confusão e, por outro lado, há uma espécie de beleza artificial que pode nos agradar numa primeira vista, mas que com um olhar mais atento “mostra-se inferior”. Por isso, é necessário examinar mais de uma vez cada produção, estudando-a sob diversos aspectos e estabelecendo comparações. Outro parâmetro importante para o crítico é “conservar seu espírito acima de todo o preconceito, nada levando em consideração a não ser o próprio objeto submetido a sua apreciação”.

Conforme bem nota Hume, a maioria dos homens não possui todas as características necessárias para ser um bom crítico e por isso “o verdadeiro juiz das belas artes, mesmo nas épocas mais cultas, é um ser raro”, assegura. Em outras palavras: “Só o bom senso, ligado à delicadeza do sentimento, melhorado pela prática, aperfeiçoado pela comparação e liberto de todo o preconceito, é capaz de conferir aos críticos esta valiosa personalidade, e o veredicto conjunto dos que a possuem, seja onde for que se encontrem, é o verdadeiro padrão do gosto e da beleza. Assim, não é possível por no mesmo nível o gosto de todos os indivíduos; alguns homens, por raros que sejam e difíceis de identificar, devem ser reconhecidos pela opinião universal como merecedores de preferência, acima dos outros”. Haja responsabilidade!

* As ideias de Hume apresentadas neste texto (com e sem aspas) foram retiradas do ensaio “Do padrão do gosto”, presente no volume dedicado ao filósofo da coleção Os pensadores (Editora nova Cultural, 1999)





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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