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Viva a revolução! Viva a revolução? (11/4/2011)
Por Nelson Rubens Kunze

Mudanças estruturais são traumáticas, não tem jeito. Curioso é notar que agora, nessa crise da OSB, se identifique o espírito revolucionário da transformação nos músicos rebelados: abaixo a tirania do maestro, abaixo a desumanidade, abaixo o desrespeito!

Sem entrar no mérito do suposto autoritarismo do maestro – ninguém está defendendo métodos ditatoriais no relacionamento com os instrumentistas! –, não vejo os músicos contestando a antiquada estrutura de funcionamento de nossas sinfônicas. Ao contrário, os músicos agem pela manutenção do status quo, querendo deixar tudo do jeito que está – ou melhor, do jeito que estava. E a realidade que se tem por todo o Brasil, com raras exceções, são orquestras lutando no limiar da sobrevivência, músicos com diversas atividades paralelas, nenhuma segurança trabalhista e todas outras mazelas conhecidas...

A Fundação OSB (Fosb) e o maestro Roberto Minczuk quiseram mais. Eles já tinham reunido um conselho de personalidades de peso, criado uma administração organizada, logrado sensibilizar patrocinadores e resgatado uma orquestra desmantelada. Agora, a Fosb e o maestro Minczuk imaginaram ir além. Querem dar o salto definitivo, propondo a criação de uma orquestra moderna, que tivesse músicos com dedicação integral, bem remunerados, com vínculos trabalhistas dignos; querem uma orquestra moderna que possa oferecer com qualidade o patrimônio da música universal, que possa dialogar com a criação contemporânea, que possa fazer turnês e gravar CDs; enfim, querem uma orquestra que possa se medir pelas grandes e centenárias orquestras mundiais. E isso tudo na expectativa de finalmente, após 70 anos, conquistar uma sede, a Cidade da Música (agora rebatizada Cidade das Artes).

Mas a Fundação OSB e o maestro Minczuk erraram. Não atentaram, ao longo desses anos, na deterioração do relacionamento com os músicos, afinal, o principal patrimônio da orquestra. Uma mudança estrutural da importância que a Fosb pretende evidentemente não deveria ter sido planejada sem a participação dos músicos. E, mais tardar quando se configurou o litígio – que ficou patente na resistência dos músicos em participar da malfadada avaliação de desempenho –, a Fosb deveria ter reavaliado as suas ações.

Apesar de tudo isso, não se pode imputar a morte da OSB às iniciativas da Fosb ou ao maestro Roberto Minczuk. Há um registro de cinco anos de trabalhos realizados, que atesta o intuito de renovação e modernização e que demonstra o compromisso da direção da orquestra com a construção de uma nova realidade para a orquestra. Senão, o que dizer das últimas temporadas da OSB, que recolocaram a orquestra no mapa da música sinfônica nacional? (sem desmerecer o empenho e a abnegação de grandes maestros que, no entanto, não conseguiram agregar as forças para resultados duradores...). A morte da OSB não vem pelo projeto de dar-lhe o status que ela merece. A morte da OSB virá, sim, por uma resistência retrógrada a transformações e por posturas reacionárias que minam o talento e a excelência.

Infelizmente, o mais recente capítulo dessa crise, o protesto da OSB Jovem no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, não foi construtivo, nem revolucionário, nem demonstrativo de alguma altivez cívica de nossa juventude. A manifestação, da maneira que foi levada a cabo, não deu expressão às discordâncias com as demissões ou às atitudes incompetentes da direção da orquestra. O ato de deixar o maestro subir ao palco para, no momento do início, se deparar com a orquestra em debandada, configurou uma das mais cruéis, rasteiras e desonestas humilhações a que se pudesse expor a pessoa do maestro Roberto Minczuk. Curioso que o documento distribuído pelos jovens músicos clama por respeito e dignidade...

Oxalá o episódio possa ser relevado e não envenene o difícil acordo esboçado na última sexta-feira. As discordâncias já foram escancaradas. Esperemos que a Fosb e os músicos – curtidos na luta – encontrem a necessária humildade para firmar um consenso.





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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