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Manaus e as meninas super-poderosas (4/5/2011)
Por Leonardo Martinelli

Nos primórdios da ópera, no início do século XVII, era bastante clara a linha que delimitava o sacro do secular. Enquanto os palcos dos teatros eram ocupados por mitos mil e histórias da Antiguidade, as narrativas musicais de cunho religioso ocorriam apenas em solo sagrado, quase sempre em forma de oratório.

Foi apenas com o século XIX já bastante avançado, quando o tabu da apresentação de óperas com enredos religiosos – sejam estes bíblicos ou não – veio abaixo, que se descortinou todo um mundo novo, pleno de potencial melodramático.

Para este ano, o Festival Amazonas de Ópera (FAO) iniciou suas comemorações de quinze anos de existência com a apresentação de duas óperas cujos libretos focam não apenas a religião, mas em específico os dramas que podem acometer a vida de religiosas que consagram sua existência a Deus.


Montagem da ópera Diálogo das Carmelitas, no XV Festival Amazonas de Ópera.

De um lado, foi apresentado no palco do Teatro Amazonas Suor Angelica (ou Irmã Angélica), de Giacomo Puccini, cujo breve libreto em ato único desenvolve o drama pessoal da freira protagonista, confinada em um convento por sua família como punição pela quebra de suas virtudes virginais – o que lhe rendeu um filho, de cuja morte será informada, e que por sua vez desencadeará outros eventos trágicos. Pelo outro, temos um drama de cunho histórico – com inexoráveis reentrâncias pessoais – com a partitura que Francis Poulenc realizou para Dialogue des Carmélites (Diálogo das Carmelitas), que tem como pano de fundo os primeiros anos após a Revolução Francesa e a perseguição a religiosos que se engendrou a partir das insanas políticas revolucionárias.

Com um elenco evidentemente centrado em papéis femininos, o FAO reuniu um competentíssimo grupo, equilibrado em sua atuação em conjunto, mas que ainda assim propiciou espaço adequado para projeções individuais. Nesta primeira semana de festival, Manaus viu-se agraciado pela presença de um time vocal feminino privilegiado, “meninas super-poderosas” da cena lírica brasileira e internacional.

É tentador classificar como protagonista o papel de Blanche de La Force no Dialogue des Carmélites. Mas aqui temos uma obra na qual as várias personagens-irmãs competem em pé de relativa igualdade dramático-musical ao longo de seus três atos. Entretanto, não há como negar a destreza com a qual a soprano Michelle Canniccioni realizou o papel da angustiada noviça carmelita, da mesma forma que competência técnica e brilho musical caracterizaram a atuação de Gabriella Pace (Irmã Constance), Ruth Staerke (Prioresa) e Isabelle Sabrié (Nova Prioresa, que no FAO se encarrega simultaneamente do papel-título de Suor Angelica). O grupo soube tanto encontrar o equilíbrio nas passagens em conjuntos como se destacar nos solos ou duetos. Deste grupo coeso, o destaque ficou para a mezzo soprano Denise de Freitas. Sabendo tirar proveito das virtudes e desafios do papel forte e instigante da irmã Marie da Encarnação, Denise destacou-se tanto por sua atuação cênica como pela vocal.

Apesar de ser o momento “delas”, os homens cumpriram de forma exemplar os papéis coadjuvantes a eles destinados neste drama feminino. Leonardo Neiva (Marquês de La Force), Flávio Leite (Chevalier de la Force) e Juremir Vieira (Capelão) ocuparam de forma plena e segura os espaços a eles reservados.

Mas não há como ignorar que boa parte do fascínio desta montagem de Dialogue des Carmélites tenha sido fruto da direção cênica de Willian Pereira. A partir de um cenário modular, onde um grupo de colunas e paredes móveis é disposto de diferentes maneiras a fim de criar ambientes diversos, Willian imprimiu um bom ritmo ao libreto de Georges Bernanos, elaborando boas situações dramáticas e criando ambientes cênicos interessantes e austeramente bonitos, bem afeito ao espírito carmelita, complementados pelo competente trabalho de iluminação de Fabio Retti e dos figurinos de Marcelo Marques.

A montagem esteve sob a direção de musical do jovem Marcelo de Jesus, à frente da Amazonas Filarmônica. Há anos atuando como adjunto de Luiz Fernando Malheiro – regente e diretor artístico do FAO – é notável o aprimoramento do regente, que também fez um bom trabalho, imprimindo bons andamentos e extraindo os devidos contrastes da partitura de Poulenc. Seu único ônus está no desempenho por vezes pouco feliz da orquestra. Se por um lado a Amazonas Filarmônica propicia bom desempenho quando na execução em conjunto e em tutti, por outro há muito que aprimorar em certas passagens solo (em especial, em alguns sopros madeiras e nas trompas), ainda demasiado frágeis e titubeantes em qualidade sonora e, por vezes, em afinação.

Nada que tirasse o brilho sacro-santo desta montagem do Dialogue des Carmélites, que reluz com intensidade o suficiente para ser um dos destaques da miríade de títulos operísticos deste que é um dos mais importantes eventos musicais do país.


PS:
A montagem de Suor Angelica no FAO deste ano configura uma nova proposta e um grande desafio, isto é, realizar uma produção profissional com um elenco praticamente amazonense, colocando em atuação os jovens músicos da Orquestra Experimental da Amazonas Filarmônica, incluindo várias apresentações em cidade do interior do Estado. Aos trancos e barrancos, espera-se que seja o primeiro passo rumo à profissionalização destes jovens e à ampliação do próprio evento.


Leonardo Martinelli viajou a Manaus a convite da organização do Festival Amazonas de Ópera.





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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