Banner 180x60
Bom dia.
Terça-Feira, 20 de Fevereiro de 2018.
 
E-mail:  Senha:

 

 
Nome

E-mail


 
Saiba como anunciar na Revista e no Site CONCERTO.
   


Vitrine Musical 2016 - Clique aqui e veja detalhes dos anunciantes

 
 
 
Para um pianista de mão cheia, uma crítica a quatro mãos (16/5/2011)
Por Irineu Franco Perpetuo e Leonardo Martinelli

Dizem que as boas coisas da vida sempre chegam de forma inesperada. Não que a vinda Stephen Hough não estivesse precedida de alguma expectativa, mas o fato é que nesta semana de atividades em São Paulo o pianista inglês propiciou uma série de gratas surpresas ao público, culminando com um excepcional recital solo no último domingo.

Mas antes de falarmos de suas façanhas, deixe-nos apresentar Mr. Hough. Por aqui, a gente o conhece devido a uma discografia prolífica, versátil e incrivelmente variada. Mas o fato é que esse irrequieto britânico-canadense de 49 anos de idade não se contenta em ser simplesmente um dos mais destacados pianistas de sua geração. Poeta, blogueiro, compositor e escritor, Hough defende sua homossexualidade com o mesmo fervor com que professa sua fé católica.

Este aspecto multifacetado da vida do pianista ficou evidente no bate-papo promovido pela Folha de S. Paulo na quarta-feira que precedeu o primeiro concerto que Hough com a Osesp. No evento, com a presença do colega pianista Eduardo Monteiro e de Leonardo Martinelli, e mediação de Sidney Molina, Hough se revelou um pensador profundo, cuja articulação verbal e sofisticação jamais se confundem com pedantismo ou arrogância. Vale visitar seu website:
http://www.stephenhough.com/

Foi com expectativa elevada, assim, que, na sexta-feira, fomos vê-lo executar o Concerto nº 2 para piano e orquestra de Liszt, acompanhado pela Osesp, sob a batuta de Sir Richard Armstrong - que, em 2009, conduzira a orquestra em uma antológica execução de Der Rosenkavalier, de Richard Strauss.

Os integrantes da Osesp estavam evidentemente satisfeitos com Armstrong, tocando com disposição maior que a habitual. Hough também demonstrou uma concepção amadurecida da obra, embora boa parte de sua sonoridade sólida e robusta tenha se esvaído na longa distância entre o palco e o grotão profundo da Sala São Paulo em que a crítica foi exilada.
Assim, se a apresentação de Hough com a orquestra já teria valido a pena, o melhor de tudo ainda estava por acontecer, com o recital que o pianista daria mesmo após três dias seguidos de apresentações com a orquestra. Pudemos nos instalar mais perto do intérprete e finalmente examinar sua musicalidade com a minúcia merecida.

Foi então que ficou evidentemente manifesta toda grandeza da arte de Hough, a começar pelo repertório selecionado. Iniciando com a famosa Sonata ao Luar de Beethoven, Hough estabeleceu uma relação de intimidade com a audiência, alternando sonoridades de extrema delicadeza em seu primeiro movimento com violentos ataques no movimento final. Ouvida isoladamente, a interpretação desta sonata foi pouco ortodoxa, quiçá “anti-estilística”. Mas aqui não se trata de uma Sonata ao Luar de luz própria. Sua órbita já estava sendo alterada pelos ecos futuros dos corpos celestes-musicais de Janácek, Scriabin e Liszt, prenunciando uma concepção musical rara e feliz na qual um recital de piano não é encarado como um amontoado de obras: o recital como um todo é a obra.

Começamos a nos entreolhar durante a execução de 1.X.1905, composição de Janácek cujo título faz alusão à execução do trabalhador tcheco František Pavlík (1885–1905) durante uma execução. Não, ele não toca Janácek “só” para ser diferente: crê nesta música e a compreende profundamente, articulando um discurso musical rico em nuances, ênfases e inflexões.

Depois vieram duas obras contemporâneas do compositor tcheco, mas de caráter completamente distinto: a quarta e a quinta sonatas de Scriabin. Trata-se de repertório que ele vai gravar em breve e, a se julgar pelo que fez ouvir na Sala São Paulo, vale esperar pelo disco. Foram leituras vigorosas e cheias de personalidade, surpreendendo especialmente o “suingue” de que ele dotou a Sonata nº 5, que Sviatoslav Richter considerava uma das peças mais difíceis de toda a literatura pianística.

A curva ascendente desenhada por Hough no seu recital culminou com a Sonata em si menor de Franz Liszt, verdadeiro monumento sinfônico para piano solo que encerra diversos desafios de ordem técnica e interpretativa. Uma das grandes virtudes de Hough é a plena segurança e confiança que ele passa nesta peça que, não raro, pianistas se põe na perigosa condição de equilibristas na corda bamba. Errinhos bobos aqui e acolá não foram suficientes para que esta sensação de segurança fosse dissipada.

Mas para além de sua robustez técnica, em sua interpretação da Sonata em si menor Hough deslumbrou a todos pela exuberância de seus coloridos. Em sua paleta de cores há desde intensos contrates entre tutti sinfônicos e pianíssimos solos, passando por delicados matizes em tons pastéis. Se enquanto compositor o húngaro Franz Liszt é um catalisador de diferentes matérias primas, Hough conseguiu explicitar como poucos os diferentes universos presentes nesta sonata.

Mas toda esta sofisticação poderia ir abaixo não fosse o fato deste recital ter ocorrido em boas condições de escuta. Para a ocasião a Sala São Paulo foi metamorfoseada em um espaço de câmara: apenas a metade frontal da plateia foi utilizada, separada do restante da sala por uma esvoaçante cortina branca, que ajudou a delimitar o espaço acústico. O teto foi rebaixado ao nível mais baixo possível, logo acima do primeiro balcão lateral, e no palco foram dispostas várias cadeiras ao redor do piano, o que conferiu maior intimismo à ocasião. Foi uma maneira eficiente de simular um ambiente acústico que promete abrigar ainda os recitais de piano de Angela Hewitt, Yuja Wang e Steven Osborne.

Maneira inteligente de aproveitar a presença em São Paulo de artistas que já vão se apresentar com a orquestra, os recitais solo da Osesp, iniciados sem alarde há alguns anos, vêm se revelando a prova de que boas ideias de programação não precisam necessariamente ser mirabolantes. Esperamos pelos próximos!





Irineu Franco Perpetuo e Leonardo Martinelli -

Mais Textos

Ópera de Dubai e Louvre Abu Dhabi: arquitetura e conceito – parte 1 Por Camila Frésca (22/1/2018)
Ópera de Dubai e Louvre Abu Dhabi: arquitetura e conceito – parte 2 Por Camila Frésca (22/1/2018)
Relativizações, realidades e transformações: um olhar sobre “A flauta mágica” do Theatro Municipal Por João Luiz Sampaio (23/12/2017)
A produção é boa, mas faltou mágica na “Flauta” do Municipal Por Nelson Rubens Kunze (23/12/2017)
O prazer de ouvir Neymar Dias – muito bachiano e muito brasileiro Por Irineu Franco Perpetuo (20/12/2017)
Uma temporada inclusiva, feita com inteligência Por João Marcos Coelho (19/12/2017)
Uma grande e despretensiosa sátira Por João Luiz Sampaio (8/12/2017)
A goleada da Argentina (e nem precisaram do Messi) Por Nelson Rubens Kunze (8/12/2017)
Museu virtual reúne milhares de instrumentos de coleções britânicas Por Camila Frésca (4/12/2017)
Karnal, a Osesp e o governador Por Nelson Rubens Kunze (24/11/2017)
Quem não trafega nas redes sociais se trumbica Por João Marcos Coelho (24/11/2017)
Budu e Hilsdorf: nasce um duo Por Irineu Franco Perpetuo (14/11/2017)
Três óperas Por Jorge Coli (7/11/2017)
Convocação de OSs para Emesp, Guri e Conservatório de Tatuí reforça torniquete financeiro do governo Por Nelson Rubens Kunze (3/11/2017)
Para onde nos levará a onda de censura no país? Por João Marcos Coelho (31/10/2017)
Os quartetos de cordas e a reavaliação da obra de Villa-Lobos Por Camila Frésca (30/10/2017)
O Brahms profundo e espontâneo de Nelson Freire Por Irineu Franco Perpetuo (25/10/2017)
Primeiras impressões sobre a temporada da Osesp Por João Marcos Coelho (29/9/2017)
Refinamento e inventividade em “Brazilian Landscapes” Por Camila Frésca (28/9/2017)
“Tosca” tem montagem competente no Rio de Janeiro Por Nelson Rubens Kunze (28/9/2017)
Um “Nabucco” problemático no Theatro Municipal de São Paulo Por João Luiz Sampaio (26/9/2017)
Na estreia com a Osesp, Leonardo Hilsdorf encanta a Sala São Paulo Por Irineu Franco Perpetuo (22/9/2017)
Festival de Ópera do Theatro da Paz faz bom “Don Giovanni” Por Nelson Rubens Kunze (19/9/2017)
Penderecki e Szymanowski: uma noite musical maior Por Jorge Coli (18/9/2017)
Novo fôlego para a ópera no RS Por Everton Cardoso (8/9/2017)
Wagner de boa qualidade, mas sem lirismo e vigor dramático Por Jorge Coli (4/9/2017)
 
Ver todos os textos anteriores
 
<< voltar

 


< Mês Anterior Fevereiro 2018 Próximo Mês >
D S T Q Q S S
28 29 30 31 1 2 3
4 5 6 7 8 9 10
11 12 13 14 15 16 17
18 19 20 21 22 23 24
25 26 27 28 1 2 3
 

 
São Paulo:

25/2/2018 - Julio Paravela - piano

Rio de Janeiro:
20/2/2018 - Adriana Ballesté - violão

Outras Cidades:
23/2/2018 - Belo Horizonte, MG - Orquestra Filarmônica de Minas Gerais
 




Clássicos Editorial Ltda. © 2018 - Todos os direitos reservados.

Rua João Álvares Soares, 1404
CEP 04609-003 – São Paulo, SP
Tel. (11) 3539-0045 – Fax (11) 3539-0046