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Notas sobre beisebol, futebol e a música clássica (18/5/2011)
Por João Marcos Coelho

Às 23 horas e 5 minutos do dia 18 de maio de 1911 o coração de Gustav Mahler parou de bater. Sua morte aconteceu em Viena – mas imediatamente o mundo tomou conhecimento dela em grande estilo, pois o compositor foi tratado como superstar e objeto de primeira página de todos os grandes jornais da época. A começar pelo “The New York Times”. No último domingo, dia 15/5, Sérgio Augusto escreveu um artigo no “Estadão” sobre a perversidade historicamente entranhada no DNA da mídia quando cobre os grandes acontecimentos. Vale para ontem, valeu para a primeira década do século XX. É só ver como foram tratadas como megaeventos as mortes próximas de Mahler e do escritor russo Leon Tolstoi (este em novembro de 1910). Estamos carecas de saber, claro, desta característica da mídia.

A morte de Mahler pode ser encarada de outra maneria. Prefiro deixar a mídia de lado e tomar emprestados os aguçados olhos e ouvidos de Alex Ross para examiná-la, a um século de distância. Ele abre seu apetitoso livro “O Resto é Ruído”, sobre a história da música no século XX, anotando que naqueles tempos a morte de um grande compositor era assunto de primeira página dos jornais. Hoje, se der um rodapé, já é muito.

Ou seja, é impressionante como em apenas um século a música clássica, erudita ou de concerto saiu fora do foco da mídia – e da cultura das pessoas. O compositor David Lang, 54 anos, é um dos fundadores do Bang on a Can, um movimento de música contemporânea que há quase um quarto de século (completará 25 anos de existência em 2012) sacode a paisagem nova-iorquina. Pois Lang escreveu semana passada, também no “New York Times”, um artigo interessantíssimo que toca nesta questão. Põe lado a lado, na balança, o beisebol e a música clássica. Conta que seu pai o levava ainda pequeno aos estádios para assistir aos grandes jogos. E diz que, embora os lendários jogadores do passado, como Joe di Maggio (que até ciscou nos lençóis de Marilyn Monroe), não estejam mais em ação, o amor e a paixão pelo beisebol continuam mais vivos do que nunca. Por que será?, pergunta-se.

É algo que percebemos bem quando substituímos o jogo – no caso, o beisebol pelo futebol. Faz muito tempo que o Palmeiras, por exemplo, arrasta-se em campo; mas a mística da Academia de Ademir da Guia permanece viva nos torcedores. E ainda que o time ande aos trancos e barrancos, a torcida permanece tão fanática como nos tempos gloriosos da Academia. Domingo mesmo, até os corintianos fanáticos sabiam que não ia adiantar torcer muito pelo Timão quando do outro lado havia Neymar e os meninos da Vila em estado de graça. Mesmo assim, torcemos em frente à TV, porque a mística do Timão, independente das mazelas de seus jogadores atuais, permanece inflamando nossos corações.


Os jogadores de futebol Neymar e Pelé [Foto: divulgação]

Por que com a música não acontece a mesma coisa? Nomes como Bach, Beethoven, Brahms, Schumann, Chopin e Gustav Mahler, claro, já se vão longe no tempo – e nós, em vez de ir aos concertos apaixonados pela música que já nos deu tantos gênios e pode estar nos dando neste momento mais um deles, nos acomodamos aos repertórios do passado. É como se, no futebol, a torcida deixasse de ir ao estádio depois que Pelé pendurou as chuteiras. Não está aí Neymar pra provar que novos gênios podem surgir na nossa cara?
Os freqüentadores de concertos e ouvintes de música clássica agem como carpideiras dos gênios do passado, não conseguem abrir os ouvidos para o novo. Lang lamenta que a questão seja assim colocada, que o gesto de ouvir música significa hoje, para o interessado convencional, “estar na presença da genialidade” – e proclama, com muita lógica, que “a maior parte da música, em qualquer período histórico, não é genial”.

“Como compositor que sou”, continua David Lang, “é vital ajudar o público a aprender como ouvir a música feita hoje. Este é um real problema – os ouvintes que vêm ouvir música nova tentando encontrar apenas os compositores e intérpretes à altura de serem colocados no panteão musical certamente ficarão desapontados. Não porque os músicos são piores hoje, mas porque a ‘genialidade’ não pode ser objetivamente media. Ela é, afinal, o resultado de um processo comunal imprevisível” [a partir da memória]. Os ouvintes do futuro decidirão se algo é memorável pelo simples ato de lembrá-lo. Nós sempre estaremos em vias de nos tornarmos os ouvintes do futuro, revivendo em nossas memórias os momentos que nos parecem mais significativos. Mas ainda não podemos ser os ouvintes do futuro”. Isto é, precisamos agir como os torcedores de beisebol (nos EUA) e do futebol (aqui): cultuar a memória do passado e se divertir com o presente. “A existência passada de jogadores legendários de ontem jamais impede um fã de se emocionar com o jogo que se desenrola à sua frente, no estádio”. Será que na música clássica isso acontece porque os músicos, por exemplo, ainda se vestem com os mesmos “uniformes” de cem ou mais anos atrás? Ou porque é preciso obedecer a uma série de rígidas etiquetas que pouco têm a ver com nosso dia-a-dia? Ou por algum outro motivo?

O jogo nos ensina, afinal, que o torcedor “passa a gostar ainda mais dos êxitos do passado na medida em que ele vê os jogadores atuais tentando superá-los. Precisamos, conclui Lang, transferir para o domínio da música clássica o gosto do risco que têm as multidões de torcedores; é o gosto pelo evento ao vivo, pela ‘possibilidade de testemunhar a genialidade’”. Nem todo jogo, garante Lang (e ele tem razão), é fantástico, “mas nós o assistimos porque existe a possibilidade de que seja genial”.

Claro que a comparação incomoda ao compositor que ganhou o Pulitzer de música de 2010, porque no jogo uma equipe vence e outra é derrotada. “Isso é o oposto do que acreditamos que a música deve ser: o sucesso de um novo compositor ou intérprete acaba propiciando mais espaços no universo musical para outros novos músicos”.

Ficou ouriçado com as pensatas de David Lang? Consulte o artigo na íntegra no blog ‘The Score”, do portal do “The New York Times” de 11 de maio passado; e não deixe de visitar o site do movimento Bang on a Can:
http://www.bangonacan.org/.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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