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O milagre da ópera na floresta (24/5/2011)
Por Nelson Rubens Kunze

O maestro Luiz Fernando Malheiro repetiu a façanha de transportar Bayreuth – o mítico teatro wagneriano alemão – para a coração da selva amazônica. No último dia 22 de maio, no Teatro Amazonas de Manaus, a Amazonas Filarmônica e um elenco de primeira contaram a história do amor proibido de Tristão e Isolda, ópera de Richard Wagner estreada em Munique em 1865. Wagner, que na época trabalhava em Siegfried do ciclo do Anel, havia descoberto a filosofia de Schopenhauer e andava ele mesmo de amores por Mathilde Wesendonck – um romance meio complicado, já que os dois eram casados e o marido de Mathilde era um incentivador do compositor. Então, a partir de uma antiga lenda medieval, Wagner elaborou o libreto e compôs uma música revolucionária – em que a tonalidade por vezes parece suspensa por acordes ultra expandidos –, criando uma das mais importantes obras de toda a história universal.

O enredo é o seguinte: Tristão viaja a Cornuália levando Isolde como esposa para seu tio, o velho Rei Marke. O que não se sabe é que Isolde e Tristão já se conheciam. Em guerra passada, Tristão assassinara Morold, noivo de Isolde, mas ficara mortalmente ferido. Como apenas Isolde detinha o unguento que o salvaria, Tristão a busca pelo curativo. Os dois, ao se verem, se apaixonam, e Isolde o salva. A culpa de ter traído o noivo morto com o próprio assassino a perseguirá por toda a vida. Agora, no navio em direção a Cornuália, Tristão, por lealdade ao Rei, evita Isolde para não cair na tentação do amor. Ela não aceita esse cruel destino e resolve pôr fim a vida de ambos. Contudo, sua ama Brangäne troca os frascos e em vez da poção da morte lhes serve a do amor. Os amantes, em êxtase, se entregam ao amor proibido que, claro, terminará de modo trágico. A dualidade amor-morte permeia toda a narrativa, mesclada às virtudes da fidelidade e da honra...

Eliane Coelho e John Charles Pierce, primeiro ato de Tristão e Isolde [divulgação]

Desde o lindo prelúdio do primeiro ato até a morte por amor de Isolde, foi espetacular a interpretação da Amazonas Filarmônica. Malheiro mais uma vez demonstra uma habilidade singular de conferir organicidade e tensão a uma história que se passa durante mais de quatro horas, com alta carga emocional e psicológica, mas relativamente pouca ação. A intensidade imprimida à partitura compensa amplamente as limitações impostas pela realidade física do pequeno teatro e da orquestra. Como já tínhamos assistido no Anel, Malheiro logra adequar a monumentalidade wagneriana às dimensões do Teatro Amazonas sem prejuízo musical e sem sacrificar a densidade romântica. Algo realmente meio milagroso – quando a gente sai do Teatro Amazonas e encara a quente noite tropical de Manaus, fica até em dúvida se foi aquilo mesmo que a gente viu e ouviu... (é esse o milagre da ópera na floresta, titulo que tomo emprestado da matéria de Leonardo Martinelli na Revista CONCERTO de maio).

Foi igualmente espetacular a interpretação da soprano Eliane Coelho como Isolde. Antes do início, o público foi avisado de que Eliane estava com uma “severa bronquite”, o que poderia comprometer a sua performance. Não comprometeu. A atuação da grande soprano brasileira foi sensacional! Eliane magnetizou a plateia na expressão de suas emoções culminando com a sua morte no final. O tenor John Charles Pierce, que fez Tristão, também teve atuação altamente elogiável. Com um timbre mais aveludado, Pierce, até por sua constituição física, ocupou muito bem o palco. Pelas qualidades dos protagonistas, as suas atuações conjuntas no segundo ato configuraram o ponto máximo de um espetáculo que em nenhum momento deixou de ser bom.

Tristão e Isolde, segundo ato [divulgação]

Leonardo Neiva teve uma noite memorável como Kurwenal, o escudeiro do herói Tristão. Com uma voz brilhante e uma movimentação em cena muito natural, Neiva, que já ostenta importante carreira, é sem dúvida hoje um de nossos mais destacados cantores. Surpreendente também foi a participação da mezzo soprano Andreia Souza, conhecida do público erudito por sua participação na final do programa “Prelúdio” do ano passado. Andreia tem uma bela voz, de grande potência e personalidade. Faltou-lhe, talvez, algum matiz dinâmico e tímbrico em algumas passagens do exigente papel de Brangäne. O baixo Kevin Maynor como Rei Marke, o barítono Igor Vieira como Melot e o tenor Flavio Leite, que fez o jovem marinheiro e o pastor, completaram o elenco com intervenções sempre corretas.

A direção cênica coube a André Heller-Lopes, diretor brasileiro de grande evidência na atualidade. Com uma concepção consistente, Heller conduziu sua montagem pela ótica de Isolde – como ele escreve no programa, “tudo e todos são reflexos de suas vontades e desejos”. Para tal, posicionou no palco um grande espelho, que projeta ou deixa transparecer os verdadeiros anseios desse complexo personagem feminino (o espelho tem a mesma moldura que a boca de cena do Teatro Amazonas, o que também sugere o teatro saindo de dentro do próprio teatro...). Desse ponto de partida, surgiram soluções criativas e funcionais, como a da morte de Isolde no fim da ópera, que “entra” no espelho para, talvez, mais do que unir-se a Tristão na morte, encontrar-se a si mesma.

Tristão e Isolde, terceiro ato [divulgação]

Esse Tristão e Isolde vem se juntar a uma verdadeira galeria de produções notáveis que o Festival Amazonas de Ópera produziu nesses seus primeiros quinze anos de existência. Um Tristão e Isolde que certamente ficará como um dos grandes feitos do Festival em sua história. É uma pena que fique restrito aos felizardos que puderam assisti-lo em apenas duas apresentações em Manaus...

Nelson Rubens Kunze viajou a Manaus a convite da organização do Festival Amazonas de Ópera.





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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