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Cyro Pereira, o Toscanini da MPB (10/6/2011)
Por Irineu Franco Perpetuo

Quando um jovem regente deseja se afirmar, via de regra, a primeira coisa que faz é exigir que os outros o chamem de maestro. Não interessa o que ou quem já tenha regido na vida: empina o nariz e só se digna a voltar sua atenção aos reles mortais se for endereçado pelo pomposo vocativo de maestro.

Pois bem. Com Cyro Pereira, era o oposto. Ele não hesitava em ralhar quando, inadvertidamente, alguém insistia em chamá-lo de maestro. “Eu sou batedor de tempo”, disse-me uma vez. “Maestro é outra coisa. Técnica de regência eu não tenho nenhuma. Foi um acidente na minha vida. Eu sei o que quero, e sei como a orquestra tem que responder”.

Acidente ou não, Cyro acabou se tornando um dos mais proeminentes maestros da nossa música popular. A técnica, evidentemente, era bem outra. Mas, pelo rigor, meticulosidade e temperamento, não me parece exagero chamá-lo de Toscanini da MPB.


Cyro Pereira [Foto: divulgação]

A comparação foi feita por um veterano da batuta, Benito Juarez, que foi violinista da orquestra da Record nos tempos de Cyro. Assim como todos que já tocaram sob a regência de Cyro, Benito tinha histórias das célebres explosões de ira do maestro quando alguma coisa não ia bem.

Mas é claro que se a única lembrança que os colegas tivessem de Cyro fossem as broncas, seu recente falecimento não teria sido tão pranteado. Fora do pódio, era de uma gentileza, uma sinceridade, uma simplicidade e um calor humano difíceis de encontrar em qualquer função ou profissão.

Isso para não falar no legado artístico. Se Cyro aprendeu a reger “na raça”, no quesito composição e arranjo foi mais ou menos a mesma coisa. Aquele jovem pianista gaúcho que parecia um sósia de Jânio Quadros de repente se viu naquela usina de criação que era a Record dos anos 50, e, pelas mãos de Gabriel Migliori, aprendeu o ofício de uma linguagem sinfônica na música popular - uma linguagem desenvolvida por Radamés Gnattali e Pixinguinha, consolidada por Migliori, Cyro e os arranjadores das orquestras de rádio e televisão, e que hoje tem sua sobrevida na Orquestra Jazz Sinfônica, em cuja história, não por acaso, Cyro foi um personagem tão determinante.

João Maurício Galindo, que vem levando adiante seu legado na Jazz, defende que as suítes de Cyro sobre temas de outros autores, que são a parte mais célebre de suas obras, sejam chamadas não de arranjos, mais de composições. Acho que estou de acordo; mas, independentemente delas, vale lembrar que Cyro também assinou composições “eruditas”, incluindo uma cantata Futebol com locutor esportivo, que parece prenunciar a célebre Santos Football Music de Gilberto Mendes.

Em parceria com Mario Albanese, ele ainda criou o jequibau, gênero de música instrumental brasileira em inusual compasso quinário que chegou a fazer sucesso internacional nos anos 1960. E conduziu a orquestra da TV Record nos históricos festivais de 1966/69. Populares e eruditos, todos que gostamos da música do Brasil só temos uma coisa a dizer a Cyro Pereira: obrigado, maestro!





Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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