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Cuidado: Mahler demais mata! (11/7/2011)
Por João Marcos Coelho

As efemérides podem ser tão danosas quanto veneno do mais poderoso. E pelo simples motivo de que podem matar em nós, ouvintes e espectadores, o gosto pela música. Causa mortis, como diria o Zé Simão: overdose do mesmo. Programar concertos inteiros só com a música do homenageado é um atestado de burrice atroz. Mais do que isso: este tipo de programadores de concertos parecem não se incomodar com os que freqüentam as salas de concerto. Não por acaso, justamente o público que deveria ser muito bem tratado.

Pelamordedeus, um pouco de criatividade nos tributos. No ano passado, tocou-se tanto Chopin, repetiram-se tanto os dois concertos e sua música para piano que eu não agüento mais nem ouvir falar nele. Prometo voltar a ouvir sua música depois que meus ouvidos se desentupirem de tantas mazurcas, noturnos, scherzi e até (coitadas) as baladas. Se encontrar alguma polonaise pela frente, dou de bico.


Gustav Mahler

Agora pior do que um ano inteiro dedicado às “comemorações” de um compositor é quando as efemérides se empilham em torno do mesmo nome. Gustav Mahler, a bola da vez, por exemplo. Em 2010 o mundo comemorou os 150 anos de seu nascimento – ciclos de suas sinfonias e dos lieder orquestrais foram feitos em cada espaço musical clássico no mundo. E agora, em 2011, o mundo “comemora” (deveria chorar, e não comemorar) os 100 anos de sua morte. De novo, um dilúvio mahleriano.

O ofício de crítico musical não é tão leve como se supõe. Não consigo mais ouvir com paz de espírito a Quinta sinfonia. Nem me falem do adagietto. Podem ressuscitar o Karajan ou o próprio Gustav que não vou ver mais uma vez a quinta (a propósito, serei obrigado a ir ao concerto do final deste mês em que a Orquestra do Porto, que vem pela primeira vez ao Brasil, vai tocar sabem o quê? A Quinta de Mahler. E os apócrifos acrescentamentos feitos por terceiros para “terminar” a Décima sinfonia?

Houve uma gravadora – no caso, a ilustre Deutsche Grammophon – que promoveu uma votação dos consumidores internacionais para escolher a integral do povo, digamos assim, das nove sinfonias. E lançou o Frankenstein com muito rojão.

Vou lançar aqui uma ideia para os doutos programadores de nossa vida musical. Que tal fazer – ao menos uma vez na vida – uma pesquisa junto ao público de concertos para saber que compositores e obras eles gostariam de assistir ao vivo? Pode ser que Beethoven e Mozart ganhem de goleada. Mas haverá uma parcela que acenará com algo diferente.

Do jeito que as efemérides nos invadem corações e mentes como formidáveis tsunamis, vão acabar matando o nosso prazer de ouvir a boa música de Chopin, Mahler... e dos próximos efemeriáveis. Abaixo, portanto, as efemérides.





João Marcos Coelho - é jornalista e crítico musical, colaborador do jornal O Estado de S. Paulo e apresentador do programa "O que há de novo", da Rádio Cultura FM; é coordenador da área de música contemporânea da CPFL Cultura.

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