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Certa manhã na Vila Paulista, Campos do Jordão (26/7/2011)
Por Leonardo Martinelli

Desde que foi fundado há 42 anos, o Festival de Campos do Jordão ocupa lugar destaque na cena clássica brasileira, e assim que as autoridades estaduais quiserem e decidirem investir, pode se tornar um dos principais eventos da área em toda as Américas. Desde que foi resgatado de um período de ostracismo a partir da gestão do maestro Roberto Minczuk, em 2004, o evento recuperou sua vocação e suas dimensões superlativas, e hoje atende oficialmente pelo nome de Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão. Atualmente, o Festival de Campos (para os íntimos) volta a gozar de boa reputação no meio especializado e de alguma verba para sua realização, mesmo quando o Governo do Estado não dá as caras para cumprir as responsabilidades que lhe são inerentes (no discurso de encerramento o próprio secretário de cultura admitiu que, este ano, 80% da verba do evento partiu da iniciativa privada).

Em suma, um evento como este atrai muitos interesses e, desta forma, é “natural” que pela perspectiva política tupiniquim as características do festival que ocorre todos os meses de julho na estância turística cravada na Serra da Mantiqueira mudem conforme o soprar dos ventos que encanam pelos corredores do Palácio dos Bandeirantes. Nesta dança eólica, muitas propostas apareceram e sumiram do Festival. Campos já teve música popular, ópera, música eletroacústica entre outras propostas que se somavam a sua linha de atuação de base, isto é, às atividades didáticas (culminadas com a orquestra de bolsistas) e as apresentações musicais.

Pela segunda vez, este ano fui convidado como free lancer pela organização do festival para realizar breves explicações de caráter didático para o público, fator este que, naturalmente, não me torna a pessoa mais isenta para proferir quaisquer juízos de valores sobre qualquer coisa relacionada ao evento. No entanto, arrisco sair deste prudente “silêncio ético” para falar um pouco de uma experiência testemunhada no Festival que penso ser mais que um mero modismo, e que precisa ser consolidada como parte integrante do evento não importa quem esteja no comando político ou artístico.

Desde que a OS Santa Marcelina Cultura assumiu a produção executiva e artística do evento, em 2009, veio a proposta de incluir o festival na comunidade jordanense. Num primeiro instante, confesso que eu mesmo achei que seria mais um inócuo capítulo desta onda politicamente correta que tomou o mundo de assalto (à parte a própria classe política mundial não estar muito preocupada com isto). Não me cabe explicar os motivos que levaram a organização do festival a encamparem estas ações de cunho social, mas posso falar do que vi e ouvi numa certa manhã na Vila Paulista, bairro da cidade onde está localizada a Escola Estadual Teodoro Correia Cintra, mais conhecida como TCC.

Lá se instalou o quartel general do núcleo “social” do festival, e suas salas de aulas foram convertidas em espaços de educação e criação musical voltados para os munícipes. Algumas apresentações musicais ocorreram lá também, em uma sala de aula convertida em pequeno auditório. Foi neste ambiente informal onde o grupo alemão Mozart Piano Quartet realizou uma breve, despretensiosa e inesquecível apresentação.


Mozart Piano Quartet [foto: divulgação]

Um dos mais reputados grupos de câmara da atualidade, o grupo, liderado pelo excepcional violista Harmut Rhode, já havia emocionado antes em suas apresentações no Auditório Claudio Santoro, tanto pela programação originalmente prevista como pela impecável substituição de última hora dos Zukerman Chamber Players, que tiveram que adiar sua apresentação em Campos por conta do falecimento de um parente do violinista israelense que batiza o grupo. O Mozart Piano Quartet realizou as mesmas obras previstas no concerto de Zukerman, e com todo o respeito, neste caso ainda acho que se trocou seis por uma dúzia (sic).

Pois bem, foram estes músicos singulares que cederam uma parte de seu tempo livre para uma apresentação que visou especialmente as crianças. Sentadas em cadeiras ou no chão, mas muito próximos dos músicos, realizou-se a verdadeira “música de câmara”, sem palco ou os inexplicáveis e desnecessários ritos protocolares da música de concerto da atualidade. Pertinhos uns dos outros, músicos e crianças estabeleceram uma imediata conexão. Sabemos que crianças são muito mais predispostas e sem preconceitos que adultos formados, e desta forma ocorreu apenas o que tinha que ocorrer: ao final do concerto, as crianças deliravam, pedindo bis, e depois, muitos pedidos de autógrafos aos músicos.

Até o momento que este portentoso quarteto entrou na van eles foram divertidamente ciceroneados pela criançada, que uma vez estabelecida a empatia, aproveitavam até o último momento a companhia de seus novos ídolos. Tenho certeza que, se por um acaso alguém tivesse distribuído pôsteres ou quaisquer outros tipos de brindes, típicos do material de marketing de uma banda de rock, a criançada os teria pendurado por todo o quarto, talvez ao lado de alguma foto da Shakira ou do Justin Biber.

E é esse o ponto que me causou comoção nesta ação em específico: às vezes não basta simplesmente programar eventos gratuitos no auditório ou ¬“concertos-show” na praça. Muitas vezes algo muito mais simples pode ser muito mais eficiente, como fazer a música de concerto sair de sua torre de marfim e chegar, na real, ao nível da comunidade, indo ao seu encontro, tomando os seus lugares de convivência, pois certas conexões só podem ser realizadas com o conforto e a informalidade de nosso lar.

E, importante, fazer isso com os mesmos renomados artistas que inspiram o outro tipo público a eventualmente tirar os casacos de pele do armário. Numa breve conversa com Harmut Rhode ele me confidenciou que este tipo de ação é bastante comum quando eles fazem suas turnês nos EUA. A lição é que não é pelo fato do concerto ser na comunidade que ele pode ser menos nobre do que aquele oferecido às elites.

Penso que este tipo de ação não pode ser considerada um modismo, e por isto sua urgência em ser institucionalizada neste e em outros festivais Brasil afora. Isto é importante para o povo, também para as elites, para os músicos – e acima de tudo – para a música, que encontra novos meios de arraigar suas sementes de civilização e novos e férteis campos.





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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