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Impressões do Festival (26/7/2011)
Por Nelson Rubens Kunze

Het Collectief – São Paulo, Masp, dia 12 de julho
Concerto especialíssimo com o grupo belga que se destaca no repertório contemporâneo e em recriações de obras do Barroco. Eu já conhecia um pouco do trabalho do Het Collectief, tinha ouvido a sua versão da Oferenda musical de Bach utilizada em coreografia apresentada pela São Paulo Companhia de Dança, há uns dois anos. Mas o concerto do Masp, com o grupo apresentando o Pierrot lunaire de Schoenberg e o Quarteto para o fim do tempo de Messiaen, excedeu todas as expectativas. O Pierrot, cuja estreia em Berlim completará 100 anos em 2012 (!), teve a interpretação do grupo com a mezzo soprano Jacqueline Janssen e dirigido por Robert de Leeuw (um luxo, ele é um dos papas da interpretação da música contemporânea). Uma leitura emocionante. Janssen projeta o tal do “canto falado” de Schoenberg sem aquela típica impostação lírica, logrando um raro equilíbrio entre voz e grupo instrumental, afinado e entrosado. (Só faltaram as legendas traduzidas dos poemas de Giraud.) E o Messiaen também não ficou atrás no que diz respeito a entrosamento e convicção interpretativa. Música moderna para ser curtida. Nota 10 + (Fiquem atentos. O concerto foi gravado pela TV Cultura e deve entrar na programação dos “Clássicos”.)

Orquestra Petrobras Sinfônica, Isaac Karabtchevsky e Antonio Meneses, violoncelo – Campos do Jordão, dia 15 de julho
Na sexta-feira dia 15 de julho quem se apresentou no Auditório Claudio Santoro foi a Orquestra Petrobras Sinfônica, dirigida pelo maestro Isaac Karabtchevsky e tendo como solista o violoncelista Antonio Meneses. O concerto iniciou com os Movimentos sinfônicos de Marlos Nobre, obra composta por encomenda para a Opes e estreada no início deste ano. A peça, escrita em uma linguagem direta e envolvente com cerca de 12 minutos de duração, teve uma execução convincente – o melhor desempenho da orquestra na noite –, exibindo toda a competência do autor. Marlos é mesmo um compositor de mão cheia. (Aqui é bom lembrar que a Petrobras Sinfônica mantém um programa exemplar de encomenda de obras para compositores brasileiros que, além de apresentadas ao vivo pela orquestra, são também gravadas. Ano passado foi a peça Contraponto, ponte e ponteio, de André Mehmari, este ano é Marlos Nobre e ano que vem será Piedade, de José Guilherme Ripper.) Seguiu o Concerto para violoncelo de Dvorák, um cavalo de batalhas. Meneses já deve tê-lo tocado algumas dezenas de vezes, daí que é necessário um esforço extra para que não soe burocrático. Ainda que tenha faltado um pouco de interação e concentração da orquestra, Menezes saiu-se bem, demonstrando toda a sua incrível técnica e musicalidade. E deu um bis sensacional, que deixou a plateia levitando... Na segunda parte, a Opes apresentou a exigente partitura de Petruschka de Stravinsky, com um resultado apenas regular.

Filarmônica de Minas Gerais, Fabio Mechetti e Adriane Queiroz, soprano – Campos do Jordão, dia 16 de julho
Já virou lugar comum elogiar o extraordinário desenvolvimento da Filarmônica de Minas Gerais, orquestra criada há apenas quatro anos. E o grupo reforçou sua reputação com uma ótima apresentação. Em um programa Mozart (aberturas A flauta mágica e O rapto do serralho e duas árias concertantes) e Mahler (Quarta Sinfonia), a Filarmônica mostrou que está à vontade tanto nas sutilezas e transparências dos clássicos quanto nos arroubos e extremos românticos. Mahler talvez seja, em seu estilo, o grau máximo de exigência orquestral. Ainda que a Quarta seja a mais “clássica” de suas sinfonias, ela tem uma grande sofisticação, especialmente no tratamento timbrístico, o que deu oportunidade para os solistas da orquestra demonstrarem suas aptidões. Mahler é um mundo a ser desbravado, e a Filarmônica de Minas Gerais, com o devido cuidado, está no início dessa descoberta...
Comentário especial cabe à ótima solista Adriane Queiroz, soprano que faz destacada carreira na Europa – ela é membro da Staatsoper de Berlim. Adriane tem uma linda voz, escura, e impressionou pela técnica apurada e musicalidade natural. Com grande presença, demonstrou por que tem cativado as exigentes plateias europeias. Ainda que ótima em todas suas participações, sua voz pareceu mais adequada ao quarto movimento de Mahler, a vida celeste, que nas coloraturas mozartianas.

Orquestra do Festival, Cláudio Cruz e José Feghali – Sala São Paulo, dia 24 de julho
A parte pedagógica – oportunidade que os bolsistas têm para aprender e travar contato com ótimos professores – é a principal razão de ser do Festival de Inverno de Campos do Jordão. E neste ano, apesar da redução orçamentária que levou a um corte de uma semana na duração do festival, o resultado parece ter sido muito bom. Foram 165 bolsistas (mais de 30 do exterior) e mais de 70 mestres, sob coordenação artístico-pedagógica de Adriana Schincariol Vercellino e Renato Bandel. O concerto de encerramento com a Orquestra do Festival, formada exclusivamente pelos bolsistas, foi uma demonstração do excelente aproveitamento do grupo. Sob direção do ótimo Cláudio Cruz, a orquestra mostrou um exigente repertório: Suíte de “Études sur Paris” de Almeida Prado (uma homenagem ao compositor recentemente falecido), o Concerto para piano e orquestra nº 5 Imperador de Beethoven (com o pianista José Feghali) e o Choros nº 6 de Heitor Villa-Lobos. Os melhores momentos foram ouvidos na Suíte e nos Choros, com intervenções virtuosísticas de alguns excelentes solistas da orquestra – o ótimo primeiro flautista na obra de Villa-Lobos, Renan Dias Mendes, acabou levando o Prêmio Eleazar de Carvalho como melhor bolsista do Festival.

[Nelson Rubens Kunze viajou a Campos do Jordão de 15 a 17 de julho a convite da organização do Festival de Inverno.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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29/4/2018 - Orquestra Petrobras Sinfônica

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