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La Mamma morta – Adeus a Neyde Thomas (9/8/2011)
Por Irineu Franco Perpetuo

Não parece exagero dizer que, de uns anos para cá, Curitiba virou uma espécie de local de peregrinação para cantores líricos. Não apenas jovens talentos, mas mesmo gente já estabelecida e com carreira visitava a capital do Paraná em busca dos conselhos e orientações de Neyde Thomas.

No saudoso programa Prelúdio, da TV Cultura, quando o maestro Júlio Medaglia anunciava que estava trazendo alguma nova descoberta da Neyde, a gente já sabia que podia esperar algo de especial, mesmo antes de o/a candidato/a abrir a boca. Nada dos problemas de apoio e projeção que tanto afligem na maioria dos concursos brasileiros de canto...


Neyde Thomas [foto: divulgação]

Contam-me que todas as dicas técnicas e interpretativas eram dadas em um ambiente bastante caloroso e familiar. Não era raro a gente ouvir falar de um/a cantor/a que acabava ficando hospedado/a por semanas na casa de Neyde e seu marido, o barítono Rio Novello.

Não é à toa que alunos, ex-alunos e conhecidos a apelidavam de “mamma”. E que essa “mamma” foi tão pranteada pelos “filhos postiços” e admiradores quando, devido a um tumor no pâncreas, nos deixou em 1º de agosto, aos 81 anos.

Curitibana por adoção, Neyde na verdade era paulista de Pirajuí. Eu tinha informações esparsas sobre sua triunfante carreira internacional até que, recentemente, Júlio Medaglia sintetizou sua trajetória no livro "Neyde Thomas – Vida e Arte".

Lá, tudo que eu conhecia mais ou menos como boato aparece sólido e documentado. Fac-símiles de críticas e programas mostram Neyde encantando a Europa sob a batuta de Igor Markevitch, o histórico Don Giovanni do Metropolitan de Nova York em 1963, com Cesare Siepi no papel-título, triunfos na Ópera de Monte Carlo, Academia de Santa Cecília (Roma), Liceu de Barcelona...

Isso sem falar nos anos na Berlim da Guerra Fria, onde ela cantava tanto na Komische Oper, do lado oriental do muro, sob o comando do legendário Walter Felsenstein, quanto na Deutsche Oper. Seus colegas de trabalho eram aqueles nomes que enchem a discoteca de todo melômano que se preza: José Van Dam, Carlo Cossutta, Luigi Alva, Ingvar Wixell, Martti Talvela, Gundula Janowitz, Eugen Jochum, Giuseppe Patané, Lamberto Gardelli...

O livro traz ainda, em anexo, um CD com gravações históricas, incluindo a célebre La Traviata de Berlim, sob a batuta de Lorin Maazel, e árias de Mozart com Medaglia. Ali é possível apreciar algo do calor, da agilidade e da facilidade para agudos e sobreagudos de Thomas, uma das maiores vozes do registro de soprano coloratura que o Brasil já teve.




Irineu Franco Perpetuo - é jornalista, colaborador do jornal Folha de S. Paulo e correspondente no Brasil da revista Ópera Actual (Barcelona).

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