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Festival de Salzburg 2011 (13/9/2011)
Por Nelson Rubens Kunze

“Despertar o ouvido, os olhos, a reflexão humana.” A citação do compositor italiano Luigi Nono (1924-1990) foi o mote do Festival de Salzburg, na Áustria, que encerrou-se na última semana de agosto passado. Um dos mais longevos e prestigiados festivais da Europa (criado em 1920 por, entre outros, o escritor Hugo von Hoffmansthal, o diretor Max Reinhardt e o compositor Richard Strauss), o evento abarca ópera, concerto sinfônico, música de câmara, recital e teatro, levando à histórica cidade natal de Mozart mais de 250 mil pessoas durante seus pouco mais de 30 dias. Assim, além de sua repercussão cultural, o acontecimento exerce também um significativo impacto na economia local.

Mas, voltando ao despertar da reflexão humana de Nono, afinal, o que um dos mais radicais e vanguardistas compositores de nosso tempo tem a ver com um dos festivais mais tradicionais do mundo? Parte da resposta chama-se Markus Hinterhäuser, diretor geral (em alemão, intendente) do festival. Hinterhäuser é pianista e foi durante muitos anos organizador de um festival de música contemporânea em Salzburg. Nas últimas edições assumiu a direção de concertos para finalmente chegar à intendência nesta edição, em um mandato tampão substituindo Jürgen Flimm. (A partir da edição de 2012, quem assume a intendência é o renomado diretor Alexander Pereira.)

E Hinterhäuser é aquele que trabalha para ampliar as possibilidades de escuta. Em uma entrevista ao jornal Salzburger Nachrichten ele afirma: “Eu não vejo a música de forma isolada, mas sim como um contínuo. Eu sempre vejo horizontes de relações. E eu procuro, da melhor maneira possível, fazer com que essas relações possam ser percebidas e vivenciadas de forma ideal”. E segue: “A citação de Luigi Nono, ‘despertar o ouvido, os olhos, a reflexão humana’, serve para todo o festival. Não é possível ouvir sem pensar. Toda a ocupação com música, com formas de expressão artística, com a arte, é um estímulo ao pensamento, à reflexão. O festival não é uma sequência numérica de eventos – ao contrário, ele tem, sim, um alto grau de comprometimento”. E, provocado pelo cético jornalista, ainda emenda: “O festival não é para um público endinheirado e elitista. Parece que existem clichês que são difíceis de derrubar, por mais que a gente se esforce. É verdade: o Festival de Salzburg é elitista, mas em seu conteúdo, e isso não é ruim. Em que outro lugar temos o privilégio de ver, em um intervalo de tempo tão curto, o Macbeth de Verdi e o de Sciarrino [Salvatore Sciarrino, compositor italiano que criou sua versão para o texto de Shakespeare em 2001-2002]? Ou presenciar a estreia de uma peça de Peter Handke [um dos mais importantes autores de língua alemã da atualidade] ou o primeiro trabalho conjunto de Riccardo Muti com Peter Stein? Ou ouvir a série “Cenas de Mahler”, na qual praticamente todos os eventos foram criados em cooperação intelectual especialmente para Salzburg? Ou ver algo tão maravilhoso e essencial como o Caso Makropulos de Janácek na encenação de Christoph Marthaler e sob direção de Esa-Pekka Salonen? Ou então, assistir ao Prometeu de Luigi Nono no espaço acústico mágico da Kollegienkirche?”.

Para além da polêmica – e a julgar pelos números distribuídos aos jornalistas na coletiva de encerramento –, Hinterhäuser logrou fazer uma edição de grande sucesso: foram 248 eventos (mais cerca de 40 programas especiais) que atraíram mais de 250 mil espectadores de 72 países, gerando uma ocupação média de quase 95% dos assentos disponíveis. E quanto ao “despertar da reflexão”, o festival credenciou quase 600 jornalistas de 29 países (inclusive o Brasil!), gerando 7.789 páginas de reportagens e análises durante os meses de julho e agosto (equivale a cerca de 130 páginas diárias!). O que diria Mozart de sua pequena cidade natal...

Muti, Thielemann, Salonen e companhia

Grandes atrações desfilaram pelos palcos dos três teatros enfileirados junto a Hofstallgasse, a larga rua que servia de acesso aos estábulos da corte de Salzburg. A bem da verdade, o espetáculo já começa com os próprios teatros: tem o da Felsenreitschule, espaço encravado na montanha cuja parede traseira é formada por arcadas esculpidas na rocha há mais de 300 anos (o teatro de 1.400 lugares inaugurou nesta edição uma nova cobertura retrátil, que possibilita seu uso também com iluminação natural a céu aberto); ao lado, o teatro Haus für Mozart (casa para Mozart), o espaço mais convencional de 1.500 lugares, próprio para encenações clássicas (neste ano, o Haus für Mozart apresentou a trilogia das óperas de Mozart com libretto de Lorenzo Da Ponte, Le nozze de Figaro, Così fan tutte e Don Giovanni); e por último, o Grosses Festspielhaus, o grande teatro do festival, ampla sala inaugurada por Herbert von Karajan em 1960, que comporta 2.200 espectadores, própria para óperas e concertos sinfônicos.

A programação lírica do Festival teve seis títulos encenados: A mulher sem sombra de Richard Strauss (nova montagem sob direção de Christian Thielemann e Christoph Loy); O caso Makropulos de Léos Janácek (também em montagem original, sob direção de Esa-Pekka Salonen e com direção cênica de Christoph Marthaler, e uma atuação excepcional da soprano Angela Denoke); Macbeth de Giuseppe Verdi (nova produção dirigida por Riccardo Muti e Peter Stein); e as três óperas Da Ponte de Mozart, Le nozze de Figaro, Così fan tutte e Don Giovanni, produções de anos anteriores apresentadas agora pela primeira vez em um mesmo festival – todas com direção cênica do alemão Claus Guth e cenografia de Christian Schmidt, mas com leituras musicais de diferentes orquestras e maestros: The Orchestra of the Age of Enlightenment com Robin Ticciati (Le nozze), Musicien du Louvre em instrumentos de época com Marc Minkowski (Così), e Filarmônica de Viena com Yannick Nézet-Séguin (Don Giovanni). Para finalizar, Iolanta de Tchaikovsky e Le Rossignol de Stravinsky tiveram apresentações em forma de concerto sob direção de Ivor Bolton.

A lista de orquestras e músicos que estiveram em Salzburg evidencia o nível superlativo do Festival. Apenas para exemplificar, cito a Filarmônica de Berlim com Simon Rattle, Sinfônica de Chicago com Riccardo Muti, Filarmônica de Viena com Franz Welser-Möst e Pierre Boulez, Yo-Yo Ma, Lang Lang, Anna Netrebko, Christine Schäfer, Renée Fleming, Mariss Jansons, West-Eastern Divan Orchester com Daniel Barenboim, Orchestra da Accademia di Santa Cecilia com Antonio Pappano, Kent Nagano, Mitsuko Uchida, Pollini, Schiff, Andsnes – uma seleção de artistas realmente excepcionais...

Entre espetáculos de realmente cair o queixo – pela competência dos artistas e a inteligência de produções modernas e instigantes – vivi uma das mais impactantes experiências artísticas com o Così fan tutte de Mozart. Simplesmente extraordinária a montagem dessa ópera, que na leitura de Claus Guth ganha uma profundidade e dimensão insuspeitadas. Inicialmente “presos” em um espaço branco, imaculado e controlado, ao longo da apresentação o recinto é invadido pela floresta como elemento do instinto desenfreado. A interpretação cuidada do grupo Musicien du Louvre em instrumentos de época, sob direção de Marc Minkowski, equilibrou-se perfeitamente às vozes solistas, com um resultado altamente emocionante. A encenação toca o âmago de nossas existências, descobre um universo. E demonstra novamente a genialidade única de Mozart.

Veja abaixo algumas imagens das produções.

Foto de cena de Macbeth, de Verdi, nova produção do Festival de Salzburg. A direção cênica foi de Peter Stein e Riccardo Muti comandou a Filarmônica de Viena. Zeljko Lucic fez Macbeth, Tatiana Serjan a Lady, Dmitri Belosselsky interpretou Banco e Giuseppe Filianoti fez Macduff. [Foto: divulgação / Silvia Lelli]


Cena do Così fan tutte de Salzburg. Em cima Bo Skovhus (Don Alfonso), Alek Shrader (Ferrando) e Christopher Maltman (Guglielmo); embaixo Maria Bengtsson (Fiordiligi), Anna Prohaska (Despina) e Michèle Losier (Dorabella). Les Musicien du Louvre com Mark Minkowski interpretaram a encenação do diretor Claus Guth e do cenógrafo Christian Schmidt. Ótimo! [Foto: divulgação / Monika Rittershaus]


A floresta do Don Giovanni de Salzburg, em cena com Dorothea Röschmann (Donna Elvira), Gerald Finley (Don Giovanni) e Christiane Karg (Zerlina). Yannick Nézet-Séguin dirigiu a Filarmônica de Viena, em apresentação que ainda contou, entre outros, com o ótimo Erwin Schrott como Leporello. [Foto: divulgação / Monika Rittershaus]


Cena da ópera O caso Makropulos, de Leos Janácek, nova produção do Festival de Salzburg, teve direção musical de Esa-Pekka Salonen (com a Filarmônica de Viena) e criativa direção cênica de Christoph Marthaler. Destaque vocal para a soprano alemã Angela Denoke, em um equilibrado elenco que ainda contou com Brandom Jovanovich, Peter Hoare, Jurgita Adamonyte e Johan Reuter, entre outros. [Foto: divulgação / Walter Mair]

[Nelson Rubens Kunze assistiu a atrações do Festival de Salzburg a convite da organização do evento.]





Nelson Rubens Kunze - é diretor-editor da Revista CONCERTO

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