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Notas sobre o “Rigoletto” do centenário (13/9/2011)
Por Leonardo Martinelli

Estreou ontem a mais nova produção do Teatro Municipal de São Paulo, a ópera Rigoletto, de Giuseppe Verdi, ponto culminante das comemorações dos cem anos da instituição. A montagem desse título teve como um dos principais chamarizes o retorno do diretor de cena Felipe Hirsch ao teatro de ópera, após ter sido aclamado no meio com sua montagem do Castelo do Barba Azul, de Bartók, em 2006.

Contando com a direção de arte de Daniela Thomas, com quem Hirsch trabalhou no Barba Azul, este novo Rigoletto aposta na ênfase da dimensão simbólica dos elementos dramáticos e cenográficos da trágica história do bufão da corte de Mântua, previsivelmente caracterizados pelos figurinos de Verônica Julian. Para a ambientação, Hirsch-Thomas optaram por uma espécie de “não-cenário”. Uma simples parede ogival de madeira clara, entalhada com padrões que evocam um neo-classicismo propositalmente sem intenção de ser convincente, é o ponto de partida para um discurso visual que na verdade investe na ideia do próprio teatro como espaço cênico e, dessa forma, atua como uma espécie de personagem coadjuvante. Inverte-se a estrutura cênica, suas vísceras são expostas ao se desnudar suas vigas de ferro e as coxias do palco; faz-se cantar uma ária com a cortina fechada e, no ato final, expande-se o este não-cenário para toda a plateia por meio do reflexo do espelho d’água que, também simbolicamente, cumpriu a função de pântano (contando com o eficiente trabalho de iluminação de Beto Bruel).


Rigoletto e Gilda na segunda cena do Ato 1 [foto: divulgação / Sylvia Masini]

Se por um lado o apelo visual foi garantido pela proposta acima, pelo outro não deixa de ser irônico constatar que, ao optar pela ênfase simbólica, Hirsch esvaziou de conteúdo melodramático seu Rigoletto, investindo suas movimentações num discurso que frequentemente beirou à pantomima, talvez não a melhor opção para os sentimentos extremados da partitura de Verdi. Somando-se isso ao fato do elenco vocal não estar especialmente inspirado (ao menos nesta noite de abertura), teve-se um Rigoletto que careceu de apelo verdadeiramente emotivo.

Não que as vozes deste elenco de estreia fossem especialmente problemáticas, apesar de problemas (por ora até “graves”, como agudos falhados e duetos desencontrados e desafinados) terem ocorridos ao longo da récita. Se em certos momentos foi possível vislumbrar suas qualidades individuais, no conjunto espera-se que o quarteto protagonista – integrado por Bruno Caproni (Rigoletto), Alexandra Lubchansky (Gilda), Leonardo Capalbo (Duque) e Luiz Molz (Sparafucile) – mostre a que veio ao curso das apresentações seguintes. Aos trancos e barrancos, no ato final o espetáculo como todo deu uma crescida, apesar do fato de Capalbo não ter empolgado muito a plateia com seu La donna è mobile.

Com a direção musical de Abel Rocha, foi possível constatar notáveis avanços no trabalho realizado pela Orquestra Sinfônica Municipal (OSM) desde a retomada de seus trabalhos. Se problemas aqui e acolá e certos ataques de naipes e de sonoridade ainda persistem, a OSM resgata aos poucos seu potencial como orquestra de fosso. A partir de regência de Rocha, a orquestra soube encontrar seu espaço em meio ao conjunto vocal, nem o encobrindo nem sendo eclipsado por ele. Rocha propôs bons andamentos à partitura e soube se sair bem de certas “armadilhas” recebidas do proscênio (algumas delas inclusive do agrupamento masculino do Coral Lírico).

Com a produção deste Rigoletto o TMSP inicia um novo capítulo de sua trajetória operística, no qual novas respostas deverão ser dadas aos novos desafios surgidos, tanto pela mudança de gestão administrativa que se vislumbra num futuro próximo (e como ela, todo um novo modus operandi em seus processos de produção executiva), como pelas novas características de seu palco e maquinaria após a reforma pela qual passou recentemente. Até o final do ano mais dois novos títulos estão na fila para serem estreados no TMSP. Isso é, apenas mais dois passos desse início de uma longa caminhada que abre o segundo centenário da casa de ópera dos paulistanos.





Leonardo Martinelli - é compositor e jornalista. Foi editor-assistente da Revista CONCERTO entre 2009 e 2013, e atualmente é diretor de formação da Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

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