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Um violino no cancioneiro popular brasileiro: Daniel Guedes e Mario Ulloa (29/9/2011)
Por Camila Frésca

O violino é talvez o instrumento que melhor simbolize o universo da música clássica. No imaginário comum, ele é sempre o primeiro a ser lembrado quando pensamos numa orquestra, e não à toa: em vantagem numérica a todos os outros instrumentos e com um som agudo que não o deixa passar despercebido, o violino é o “coração” de uma orquestra. Ao mesmo tempo, o repertório a ele associado é o de grandes sinfonias, sonatas, quartetos e outras formas consagradas.

Mas não é de hoje que o violino também dá sua contribuição à música popular, na maioria absoluta das vezes tocado por músicos educados no ambiente clássico. Diferentemente do violão ou do piano, não se ouve falar por aí que alguém está estudando “violino popular”, e geralmente essa transição se dá mais tardiamente, quando o músico já está num estágio avançado de sua formação. Um dos mais conhecidos  violinistas que atuaram com sucesso na música popular foi o francês Stéphane Grappelli (1908-1997), que iniciou a carreira fazendo parcerias com gigantes como o guitarrista Django Reinhardt e o pianista George Shearing. Grappelli fez uma carreira de sucesso no jazz com vários discos antológicos, incluindo seis LPs gravados ao lado do violinista Yehudi Menuhin entre 1973 e 1983, dedicado a canções de autores como George Gershwin e Cole Porter.


O violinista Daniel Guedes e o violonista Mario Ulloa em performance recente no Femusc.

O Brasil teve seu Grappelli na figura de Fafá Lemos (1921-2004), fundamental na difusão do violino na música popular. Além de tocar em orquestras, incluindo a Sinfônica Brasileira, Fafá ficou conhecido pelos conjuntos de música popular que liderou, como o lendário Trio Surdina, que também incluía o acordeonista Chiquinho e o violonista Garoto. Com uma ginga típica de músicos populares e total desenvoltura para inserir seu instrumento em sambas, marchinhas e canções, Fafá gravou muitos discos (alguns podem ser localizados em sites na internet) e colaborou com artistas como Laurindo de Almeida, Carmen Miranda, Linda Batista e Luiz Bonfá. Outros excelentes violinistas brasileiros, como Jerzy Milewsky e Natan Schwartzman, também deram sua contribuição ao universo popular em LPs e CDs. Mais recentemente, o violinista Ricardo Herz, com três CDs lançados (“Violino popular brasileiro”, “Brasil em 3 por 4” e “Ricardo Herz para crianças”), tem desenvolvido uma bela carreira nesse universo.

Pois a trajetória do violino na música popular brasileira acaba de ganhar mais um capítulo com o CD recém-lançado pelo violinista Daniel Guedes e o violonista Mario Ulloa. A formação de violino e violão, se é conhecida pelo menos desde Paganini, não é tão explorada quanto deveria, já que os timbres dos instrumentos se contrastam e se completam de forma rara e feliz.

Daniel Guedes é carioca, professor da Escola de Música da UFRJ e um dos mais talentosos violinistas brasileiros em atuação. Mario Ulloa, costarriquenho radicado na Bahia, desenvolve carreira internacional e é professor na UFBa. Dois músicos de formação clássica que agora voltam seu olhar a outro repertório. Dedicado à música popular brasileira, o CD tem obras como Beatriz, de Chico Buarque e Edu Lobo, Senhorinha, de Guinga e Paulo César Pinheiro, Lamentos, de Pixinguinha e Vinícius de Moraes, e As rosas não falam, de Cartola. O tratamento dado às peças é camerístico e se revela através dos ótimos arranjos de Mario Ulloa e uma excelente qualidade de gravação que só valoriza a formação.

A dupla se conheceu em 2008 no Femusc (Festival de Música de Santa Catarina) e desde então vem trabalhando junto. Partindo da ideia de explorar um repertório inédito para a formação, passaram por obras de Brahms, Monti, peças latino-americanas e chegaram à música popular brasileira. “É o repertório com o qual o duo mais se identificou”, explica Daniel, que afirma que os discos de Fafá Lemos foram sua grande inspiração nessa empreitada. Sem medo de encarar um repertório extremamente conhecido e consagrado, os músicos respeitam a concepção original das obras e ao mesmo tempo dão uma contribuição pessoal: a interpretação de Daniel e Mario alterna o clima de uma mesma música com tal naturalidade que é como se ela sempre tivesse sido concebida daquela forma. É o que acontece em Lamentos e em O bêbado e a equilibrista (João Bosco e Aldir Blanc), que dialoga com Smile, de Charlie Chaplin. O resultado é que as peças soam conhecidas e renovadas, dando ao ouvinte um interesse novo em escutá-las. O disco ainda traz duas peças solo: Todo o sentimento (Cristóvão Bastos e Chico Buarque), no violão de Mario Ulloa, e Luiza (Tom Jobim), com Daniel Guedes.

O lançamento oficial acontece dia 25 de outubro no Rio de Janeiro, no Salão Leopoldo Miguez da Escola de Música da UFRJ, mas outros concertos devem ocorrer na sequência. Já estou torcendo para que um deles seja aqui em São Paulo...

 





Camila Frésca - é jornalista e doutoranda em musicologia pela ECA-USP. É autora do livro "Uma extraordinária revelação de arte: Flausino Vale e o violino brasileiro" (Annablume, 2010).

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