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"Tannhäuser" de Bayreuth sucumbe à instalação (3/10/2011)
Por Klaus Billand

Antes das cortinas se levantarem já se ouviam rumores incrédulos de que uma instalação de biogás dominaria os cenários criados pelo artista conceitual Joep van Lieshout para a nova montagem do Tannhäuser, de Richard Wagner, dirigida por Sebastian Baumgarten. Com essa ópera, no último dia 25 de julho, abria-se a centésima edição – que é também a 60ª após a Segunda Guerra Mundial – do Festival de Bayreuth.

Na expressão das faces do público da estreia – que mesmo após o término do primeiro e do segundo atos mantinha uma calma surpreendente – era possível ver que o grau de incredulidade em relação aquilo que se passava no palco, mesmo durante os intervalos, era crescente. A carga reprimida finalmente explodiu no final do espetáculo em uma estrondosa vaia, que em sua abrangência e intensidade deve ser rara mesmo em Bayreuth. Mas afinal, o que tinha se passado?



Cena da ópera Tannhäuser, em Bayreuth.

É indiscutível, especialmente nos dias que correm, que a contradição entre o amor puro e o amor sensual, como ela é tematizada no Tannhäuser entre Maria e Vênus, perdeu muito da força que detinha na Idade Média. Para o diretor Baumgarten, já não existe essa dicotomia, e ele tem razão. A ambivalência está dentro de cada um de nós, ela é a própria essência da vida. Para Baumgarten, nem o castelo Wartburg é a vida sem pecados, nem a montanha de Vênus é o extremo das experiências carnais. Baumgarten e seu dramaturgo Carl Hegemann querem integrar o dionisíaco e o apolíneo, pois um não funciona sem o outro. Isso pode até fazer sentido, do ponto de vista intelectual e no sentido da ambivalência acima mencionada. O problema é que aqui, como apresentado na ópera, simplesmente não funciona. E mais, torna-se entediante.

No centro da encenação de Baumgarten está o dominante conceito do sistema fechado do castelo de Wartburg – que aqui de fato já nem castelo é mais. Trata-se de uma instalação de máquinas ecológicas de perfeito funcionamento mecânico e grande sofisticação, com três sistemas fechados formados por grandes câmaras de aço, conectadas entre si por mangueiras verdes, marrons e amarelas. A instalação serve à alimentação de aipo e beterraba moídos em pasta, ao saneamento de excrementos para o seu reaproveitamento ecológico e à troca de oxigênio (lavanderia gasosa) dos internos (comunidade de Wartburg). Além disso, há um assim chamado “alcoolador” com capacidade de 14 mil litros por dia, pois Baumgarten quer “internos felizes e nenhuma revolução...”. Já a montanha de Vênus está confinada em um cilindro enjaulado debaixo do piso do palco, pois esse sistema funciona por repressão. Dentro dessa jaula, homens parecidos a macacos se movimentam em saltos, frequentemente copulando. Não é uma visão especialmente atraente...

Nos intervalos, cantava-se o hino alemão e recitava-se livremente obras de Richard Wagner. E vídeos sem fim eram projetados com amebas, divisões celulares etc. Felizmente, a maior parte dos espectadores – que, como de costume, deixava a sala de espetáculos entre os atos para se deliciar com cerveja, vinho e salsichas – foi poupada de ver, como os baldes de excremento dos banheiros laterais eram esvaziados, para reciclagem, na câmara de vácuo azul...

Infelizmente, a apresentação também deixou a desejar no que diz respeito à música. O sueco Lars Cleveman foi um Tannhäuser ágil e soube imprimir intensidade a seu personagem, mas apresentou dificuldades nos agudos e pouca sonoridade e amplidão nos graves. Já o jovem Michael Nagy cantou um bonito e bem articulado Wolfram, e soube desempenhar com convicção a irreal concepção de personagem que lhe foi conferida, que no final prevê a “reciclagem” da pobre Elisabeth no biodigestor... Outra boa presença foi a de Günther Groissböck como Landgraf Hermann. Infelizmente o papel de Vênus extrapolou o potencial de Stephanie Friede, ainda que pareceu-me injusto como ela foi vaiada pelo público. Já Camilla Nylund fez uma boa Elisabeth, com graça e atuação teatral natural. Mas o verdadeiro campeão vocal da noite foi o Coro do Festival, que tem direção de Eberhard Friedrich. Há décadas esse coro se distingue pela qualidade, transparência e intensidade de seus coralistas.

A direção musical coube a Thomas Hengelbrock, que fez sua estreia em Bayreuth. Seu trabalho foi bom, com ênfase em momentos românticos e líricos e bonito resultado sonoro. É, contudo, forçoso lembrar, que a inacreditável abundância de ação no palco tornava difícil a concentração na música. Um senhor sentado na plateia tinha sobre a cabeça um daqueles tapa-olhos que se ganha na business class de voos de larga distância. Pareceu-me, sem dúvida, uma boa solução...

A partir dessa encenação – totalmente incompreensível para uma grande parte do público presente – talvez devêssemos perguntar, se o conceito da arte de instalação, com suas estruturas pensadas intelectualmente e voltadas para a visualização espacial, é de fato adequado para o teatro musical, pelo menos quando utilizado de maneira tão dominante como Lieshout apresenta nesse Tannhäuser. Como já em outras encenações recentes, parece que a arte da instalação alcança seus limites, quando se trata da forma artística integral do teatro musical. Afinal, a música aí ainda é o meio de expressão mais importante. Um Tannhäuser concertante dá certo, um Tannhäuser sem música não.

Klaus Billand, alemão, é crítico da revista austríaca “Der Neue Merker” de Viena (http://www.der-neue-merker.eu/)





Klaus Billand - é jornalista da revista de ópera austríaca Der Neue Merker, de Viena. (www.klaus-billand.com)

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